Jeffrey, maluco beleza

JEFFREYALTA GRACIA – Hoje conheci o legítimo maluco beleza. Não, Jeffrey, não sei seu sobrenome, nunca ouviu músicas de Raul Seixas, e sequer me pareceu ter o hábito de consumir substâncias não recomendáveis. Maluco beleza foi a definição que dei-lhe depois de ouvir por uns 20 minutos o que fez de sua vida.

Jeffrey é um californiano de 71 anos que perambula pela América do Sul em seu motorhome Mercedes-Benz fabricado nos anos 70, suponho. Fala inglês, espanhol, francês, italiano e um pouquinho de russo. Caiu para as bandas de cá em 2003 e desde então mora no veículo que o leva de um lado a outro. Sem esposa ou filhos, acorda a cada dia e vai para onde o vento sopra. Em dezembro esteve pela última vez nos EUA, onde mantém residência.

Encontrei Jeffrey na portaria do hotel hoje cedinho, antes do café da manhã. Sei lá o que fazia por lá, mal lembro por que começamos a conversar sobre suas andanças. Talvez para eu exercitar meu inglês sempre deficitário. É metido a cantor e, para minha surpresa, não só não conhece Raul Seixas como não gosta de rock. Disse que gosta de ouvir Eagles, Caetano e Bethânia. Trem doido, um californiano que pula de galho em galho no mapa múndi a bordo de um motorhome com a minha idade – o veículo, no caso – ter CDs dos irmãos baianos no portaluvas.

Os planos de Jeffrey eram de seguir seu rumo indefinido hoje mesmo, mas vai adiar a partida para segunda-feira. É apaixonado por caminhões e quer vir ao autódromo amanhã para ver a corrida da Fórmula Truck. Comprometi-me a tentar descolar uma credencial para ele, é provável que não consiga, essas coisas são mais complicadas do que pensam os amigos que vez ou outra me pedem arregos dessa natureza. Bem, tentar não custa. Talvez o Luiz Silvério ou o Vytor Zeidan colaborem.

E quanto a Raul Seixas, Jeffrey fez questão de anotar seu nome. Vai pesquisar seu repertório.

E aí, Passaredo?

GUARULHOS – Ontem à noite, tão logo me instalei no hotel cá em Guarulhos, abri o computador para tentar providenciar o check-in digital do meu voo de hoje pela Passaredo. O que não foi possível. O site da companhia estava fora do ar, para usar um termo que é de televisão. Tenho o hábito, acho que todos têm, de fazê-lo com a devida antecedência, e a antecedência máxima que o sistema da Passaredo permite é de um dia. Deixei para hoje, dia do voo. Isso acontece, pensei.

Depois de uma boa noite de descanso, tento de novo. O site está ok, é um bom sinal. Acesso a reserva que me foi enviada dos voos da viagem. Cascavel-Cumbica, que cumpri na quinta-feira passando um medo dos diabos – havia muita turbulência, aquilo sacudiu um monte apesar dos desvios de rota providenciados, e o amigo que veio comigo, que pratica aviação em nível amador, riu um monte da minha cara -, e Cumbica-Cascavel, previsto para daqui a pouco se não houver cancelamentos. As indicações da reserva são essas abaixo.

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Dados conferidos, acesso o site. Vou ao campo do check-in digital e entro com os dados solicitados. Lá no pé da página, e isso não aparece no print, preencho o campo em que confirmo concordar com as regras da operação, e tal.

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O passo seguinte, já fiz esse procedimento algumas dezenas de vezes, é clicar no ícone “pesquisar voo”. Clico e a mensagem dada pelo site é a seguinte.

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Começo a me irritar, mas respiro fundo e olho tudo de novo. Aí noto no indicativo das reservas que, apesar de só Passaredo e Azul pousar suas aeronaves em Cascavel, todos operando com os modelos turbo-hélice da ATR, o voo de hoje foi contratado junto à Gol – há essas parcerias entre companhias, uma vende e outra opera, isso é absolutamente normal. Recorro ao site da Gol, pois, para o dito check-in. Vou ao campo indicado, entro novamente com os dados solicitados e, diante da resposta abaixo, tenho a impressão de estar recorrendo a algum serviço público.

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Desisto do check-in digital e vou tratar do que tenho a tratar antes de viajar. Torcendo para conseguir voltar para casa, claro. A Passaredo, nas últimas semanas, enviou e-mails a uma porção de clientes avisando sem maiores explicações que voos previamente contratados estão cancelados e pronto. Não há maiores explicações. Nós, da agência jornalística da qual faço parte, também tivemos voos cancelados. Há quem diga que é por causa do remanejamento da malha aérea para a Copa do Mundo. O que é estranho, já que nossos voos cancelados são para a última semana de julho, depois do fim da Copa – a cobrança do valor das passagens nos nossos cartões de crédito não foi suspensa, diga-se -, e os voos cancelados de pilotos de corrida e fotógrafos que conheço são ainda para mais tarde. Há quem diga que a companhia está fechando as portas, ou que faliu, na semana passada me disseram até que estão suspendendo esses voos por não haver crédito para o combustível do reabastecimento das aeronaves.

Todo mundo explica tudo, como a luz acende e como o avião pode voar, preconizou Raul Seixas. Na Passaredo, ninguém explica nada. Daqui a pouco levo minhas malas para Cumbica e é possível que tenha de ouvir alguma justificativa furada para um eventual cancelamento de voo. Não será surpresa, se acontecer.

O rali de Nenhures

NENHURES – Não faço a mínima ideia de que dia seja, ou de quanto tempo falta para o jantar. Sequer tenho ideia se minha última refeição foi jantar ou almoço, e há pouco me deram uma substância que me deixou entorpecido.

Sem sustos, não estou sequestrado. Pelo contrário, dei um bico no calendário da mesa do escritório, catei a família pelos suspensórios e vim tirar uns dias de folga em Nenhures, nome com o qual nós mesmos batizamos o lugar onde estamos, e honestamente até agora não sei o nome da cidade onde viemos parar. Nem quero saber, a menos que tenha queixas e queira catar o prefeito pelos colarinhos. Não terei. E Nenhures não deve ter prefeito.

O caminho para Nenhures, pelo menos o que me falaram que era o certo, foi a primeira grande diversão de 2013. Deve haver outros caminhos mais civilizados, duvido que mais divertidos. Sobretudo porque trilhamos o nosso ontem, dia de chuva nos arredores nenhurenses (isso está ficando perigoso), isso me permitiu exercitar uma até então desconhecida habilidade na condução off-road.

A estreia como ralizeiro foi salva por dois cidadãos nenhurenses que por ali passavam, num veículo de tração animal, no instante em que a tração dianteira perdeu para a aderência do encharcado solo arenoso. Deram uma força, conseguimos movimento, parei em raro piso firme pra voltar a pé e agradecê-los pessoalmente. Um deles é corintiano, notei pela camiseta. Enfim, é pena o Rali Dacar começar já nesta semana, se fosse na outra eu iria ali pra cima do continente e tomaria parte com nosso modesto sedan.

A dupla do empurrão não foi nossa única companhia no desafiador trajeto entre sei lá onde e Nenhures. Antes, houve as vacas. Quanto riso e quanta alegria com as vacas. Do meio delas saí depois de longos instantes com um forte palpite no número 39 – sou um tanto afeito a jogatinas, vocês sabem –, mas em Nenhures não há casas lotéricas ou bancas do jogo do bicho. Uma constatação boa, afinal já detectamos um ramo inexplorado por aqui, pode ser a senha para darmos um bico em Cascavel e nesse negócio de corridas e música e virmos tocar a vida aqui em Nenhures.

Agora, se me dão licença, vou devolver o blog às moscas e correr ali tentar outra daquelas substâncias entorpecentes. São legais, vêm com um guarda-chuvinha ou uma rodela de limão na borda do copo, você pode escolher.

Habemus pista

CASCAVEL – Na segunda-feira passamos, nós cascavelenses, a integrar o MSA, que vem a ser o ainda não oficial Movimento dos Sem-Aeroporto. Comentei aqui no blog, inclusive.

Pois hoje a direção das duas companhias atracadas por estas bandas, Azul e Trip – que vivem processo de fusão – voltou atrás na decisão de suspender as atividades. Todos prometeram providências, comprometimento, ação, orações e o cão-a-quatro e os ATR trip-azulianos voltarão a decolar e pousar em Cascavel daqui a dois dias, segundo mostra essa matéria da CGN.

O que não me resolve a vida. Minha passagem para Porto Alegre, marcada para amanhã com conexão em Curitiba, teve de ser alterada, terei de ir de carro até Foz do Iguaçu para embarcar. Embora a matéria da CGN informe que as companhias estão providenciando o transporte por terra dos passageiros a Foz até que as operações voltem ao normal por aqui, minha agente de viagens deixou bem claro, no telefonema de agora há pouco, que a Trip até providenciaria a mudança do bilhete, mas a ida a Foz seria um problema inteiramente meu. Vamos a Foz, pois, são só 160 km do portão da minha casa ao aeroporto de lá.

Me ocorreu agora uma coisa: como é que vão explorar, na campanha política, a retomada iminente dos voos que têm Cascavel numa das pontas?

ATUALIZANDO EM 3 DE OUTUBRO, ÀS 15h18:

O termo de cooperação entre Cettrans, Azul e Trip está exposto na íntegra nesse link aqui.

Estamos sem pista

CASCAVEL – Aí estão as imagens captadas pelo João Carlos Ribeiro do incidente durante o pouso de um turbo-hélice da Azul no aeroporto de Cascavel, na última sexta-feira. O vento forte tirou o ATR da pista logo após a aterrissagem. Deve ter havido pânico a bordo, tudo aquilo. Ninguém se machucou, é o que importa.

Claro que, às vésperas de eleições municipais, esse incidente foi alçado à condição de peça política pelos opositores do prefeito atual. Talvez seja exagero atrelar essa interpretação à decisão anunciada em nota oficial pela Trip e pela Azul, as duas companhias aéreas que operam por estar bandas, de suspender todos os pousos e decolagens no aeroporto de Cascavel por tempo de indeterminado. Mas o fato é esse, a partir de amanhã estaremos sem aeroporto.

Pela parte que me toca, vou tratar agora de transferir para Foz do Iguaçu os voos que já tinha marcado para Cascavel. Honestamente, não consigo atrelar um vento lateral num aeroporto com quase 35 anos de idade a culpas e méritos desse ou daquele grupo político.

A tecnologia disponível em fins da década de 70, imagino, já permitia saber que a ação do vento não era exatamente apropriada à direção projetada para a pista do aeroporto.

O Corinthians é aqui

SANTA CRUZ DO SUL – Cidadezinha bem legal, essa aqui. Tem um clima bacana, ameno, sossegado, sem aquela quietude exagerada do interior. Ruas tranquilas, bons botecos, bons restaurantes, algumas baladinhas atrativas, gente simpática e mulheres muito bonitas, e que a Juli não leia isso.

Desembarquei no início da tarde em Porto Alegre, arrematei lá do aeroporto mesmo alguns trabalhos que tinha de encaminhar e fui pra rodoviária. Não tinha saco, essa é a verdade, pra esperar alguma carona até aqui. De ônibus, são quase três horas para um trecho de 150 km, algo que não me aborrece se houver, como houve, uma boa poltrona pra recuperar o sono sempre atrasado.

Da rodoviária até o hotel é rapidinho, mas deu pra pôr a conversa em dia com o parceiro Aluízio Coelho, piloto e comentarista de tevê, que veio pra cá trabalhar como coach de um piloto do Mercedes-Benz Grand Challenge. Virou moda os pilotos prestarem essa consultoria aos menos experientes, é um trabalho de resultado prático comprovado e que oferece a eles, pilotos mais tarimbados, uma renda extra. Não falta mercado.

Me diverti com o taxista que nos trouxe pra cá. Oli, o nome dele. Observou que cheguei num horário de trânsito intenso, fim de expediente. Procurei num olhar e, além dos carros estacionados, vi dois trafegando. Dois. Seu Oli nunca deve ter visto um engarrafamento de perto, pensei.

Já instalado no hotel, exercitei o hábito de selecionar algumas músicas sertanejas pra ouvir enquanto escrevia algumas coisas. O repertório do início de noite ficou por conta de Cezar & Paulinho, até o momento em que chamaram no ramal me convidando pro jantar. E, na curta caminhada até o Quiosque, onde servem um rango caprichado, eis que encontro… o Corinthians!

Isso mesmo, a sede do Corinthians, que anteontem enfiou um nabo de seis a zero num time xiru qualquer. Descarregamos o tambor inteiro, seis tiros, como bem definiu o Roberto Vita, da editora Melro. Claro que trato aqui de coisas diferentes. O clube santacruzense em questão é o Corinthians Sport Club, uma organização de 72 anos que, além do futebol amador, coleciona títulos em campeonatos de basquete, futsal e bolão. Bolão… Já se vão uns 15 ou 16 anos da única vez na vida que joguei bolão. Em janeiro último fui apresentado à Bocha. bobagens esportivas, enfim.

Agora, hora do encontro com Morfeu. Daqui a pouco começa a agenda do fim de semana no autódromo, com o Campeonato Brasileiro de Gran Turismo e suas categorias parceiras. Pra fechar a noite, uma baladinha organizada na Spirit pelo pessoal da SRO, quem sabe uma passadinha pela Centenário, onde o rodízio é de primeira e, na última visita, curti um repertório musical da melhor qualidade.

Um domingo que começa

BRASÍLIA – Se tem uma coisa que me desagrada é pegar birra. De qualquer coisa ou pessoa. Quando acontece, é difícil reverter. Ultimamente tem sido com a Gol, que concorre com boa margem ao título de companhia aérea mais desorganizada do cu do mundo.

Meus critérios birrísticos são pouco exigentes, o que me permite ratificar minha birra com a Gol mesmo quando o errado na história sou eu. Cheguei alguns minutos atrasados ao aeroporto de Brasília pra embarcar de volta ao Rio. Sem choro nem vela, embora houvesse tempo hábil pra reverter o processo todo, fiquei pro próximo voo e morri com multa de 100 estalecas. É a regra, fazer o quê?, quem está na merda não pia, e aqui caberiam dezenas de outros clichês.

Não é daí que vem a pontinha que ratificou minha birra, já que quem fez merda fui eu. Mas, pela lei do mundo ideal que imagino, não queiram conhecê-lo, deveria eu cobrar 100 mangos da empresa pelo atraso de meia hora no voo que me trouxe aqui sexta-feira à noite, que me fez perder a reunião e o jantar marcado com parceiros, talvez uma biritinha de saideira. Foi uma zona completa o embarque no Santos Dumont. O painel mandava todo mundo pro portão 6, o errado, ninguém sabia para onde ir, até que algum passageiro descobriu o portão correto e fez a informação correr, não havia qualquer engomado de uniforme laranja por perto para dar instruções ou satisfação, e no monitor acima do portão que tivemos de descobrir por conta a indicação era de “last call”, embora, no momento em que deveríamos decolar, o embarque nem houvesse sido iniciado, e a mocinha que disse ser a responsável pelas informações do painel desistiu de trocar o “última chamada” pelo “embarque próximo” depois de duas tentativas mal sucedidas. Todos os que tomaram o voo 1871, que veio quase lotado, deveriam inquirir a Gol em busca de 100 babencos de indenização pelo atraso e pelo aborrecimento. É uma várzea total, irritação em doses cavalares, e ainda bem que o serviço de bordo acalmou todos os ânimos servindo aquele envelopinho com duas rosquinhas de coco.

Laranjices à parte, se é que sacaram o trocadilho, vim atrasado pro terminal JK, o que preocupa, já aconteceu umas três ou quatro vezes de dois anos pra cá. Fomos até as três da manhã com uma edição que eu imaginava estar pronta antes da meia-noite, e anulei o despertador no criado mudo nas três vezes em que me chamou no horário correto, não fosse a Juli telefonar, sabedora que cair da cama não é lá minha especialidade, iria até amanhã cedo num sono ferrado. À saída do hotel, pedi ao taxista que, dentro do possível, fosse camarada pra eu recuperar o atraso. Sei lá o nome do sujeito, seu táxi é identificado pelo número 3001. Não transgrediu nenhuma norma do trânsito, o que é louvável, mas infringiu minha paciência ao trafegar em seus 30 ou 40 por hora numa via de 60 enquanto operava no painel um dispositivo que não era nem GPS, nem taxímetro. Este, o taxímetro, marcou 38 reais como preço final da corrida, o sacana me cobrou 50. Eu adianto seu lado e você adianta o meu, foi essa a justificativa para a extorsão à qual sequer cogitei reagir por imaginar que houvesse tempo para embarcar. Não havia, e o infeliz também não adiantou meu lado em nada.

Maioria das coisas que acontecem em Brasília me fodem, privilégio meu e de quase 200 milhões de almas. Que façam mau proveito, a companhia aérea e o taxista, da grana que me tomaram.