Sertanejão na veia

CASCAVEL – Quem me conhece um tantiquico sabe que, por alguns anos, estive envolvido com shows sertanejos. Eu era metade de uma dupla sertaneja, e agora há pouco, coincidentemente, estava comentando algo a respeito com a Rita, minha namorada. Nesse tempo de cantorias em bares e casas e festas particulares toquei e cantei muita coisa.

Uma das centenas de músicas que passaram pelo repertório que marcou essa trajetória efêmera me traz um certo incômodo. É “Filho adotivo”, eternizada pelo Sérgio Reis. O motivo disso tem comprovação quase matemática: nunca consegui cantar essa música sem chorar antes do fim, qualquer que fosse a ocasião. Fato que me causa estranheza, posto que – apesar de meu pai ter morrido há mais de 16 anos – não tenho qualquer identificação com a belíssima letra da canção, escrita por Arthur Moreira e Sebastião Ferreira da Silva, segundo descobri agora em breve pesquisa na internet.

Posso ouvir “Filho adotivo” milhares de vezes sem a menor influência emocional. Mas, a menos que queiram me ver chorando, não me peçam para cantá-la em qualquer roda de viola.

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Sertanejão na veia

CASCAVEL – A série andava meio esquecida, mas será retomada. E volta hoje em grande estilo.

“Peão”, de mais de um quarto de século atrás, foi uma das peças dos imbatíveis Chrystian & Ralf que faltaram nas paradas de sucesso, como eram chamadas à época. Poesia belíssima de Rionegro e Domiciano, a que a dupla acertou em cheio uma interpretação que ninguém se arrisca a imitar. Vi uma tentativa no início do século, em um festivais de música dos quais participava pela região, e era com uma dupla feminina.

“Peão” – que não encontrei na internet em apresentação ao vivo, como é padrão da série – deveria ser canonizada como hino dos peões de rodeio.

Sertanejão na veia

PINHAIS – Considero boas todas as músicas que compartilho por aqui. Se não é do gosto de vocês, paciência. Essa aqui é especial por vários motivos.

“Quero ter”, de Cezar & Paulinho. Tem 25 anos, essa boa moda. Que é, pelos meus critérios, a essência rara da real música sertaneja, e aqui descarto a convenção de estilo musical. Falo da poesia da letra,

Essa música tem grande parcela de mérito, ou de culpa, por eu ter desenvolvido meu gosto pela música. O ano era 1991, eu tinha de 13 para 14 anos e já começava a frequentar os botecos de música ao vivo de Cascavel, sempre tendo a tiracolo a autorização que meu pai conseguiu junto ao Juizado de Menores. Eu me achava o máximo quando alguém tentava me tirar do lugar e apresentava o documento do juiz que me autorizava a ficar até a hora que bem entendesse. Tinha fins musicais, em tese, aquela iniciativa em papel timbrado.

De tanto frequentar os bares comecei, desde muito novo, a fazer amizades com o pessoal que trabalhava com música ao vivo. Um dos caras que acolheu com especial carinho aquela minha vontade de poder cantar e tocar foi o Léo Júnior, que eu já tinha visto atuar tantas e tantas vezes na banda Nova Imagem, do Valdomiro. Deu-me seu endereço, esperava sempre nas tardes combinadas a visita minha e do Reginaldo, meu primeiro parceiro musical – hoje é roqueiro -, ensinava macetes da faculdade da vida que abreviou bastante nossa entrada nesse mundo da música.

Certo dia o Léo nos abriu as portas do ensaio semanal do restaurante Dom Giovanni. Restaurante era quase um eufemismo. Era casa noturna, mesmo, mas abria muito cedo e lá serviam bons pratos, também. A música ao vivo ia de terça a sábado. Eram quatro, os integrantes da banda da casa. Léo era o vocalista. Os outros três eram irmãos – o baterista Toninho, bom de garganta e que nunca foi muito com a minha cara, o guitarrista Joãozinho, também egresso da Nova Imagem, e o baixista Agenor, que se arrumava todo pimpão para ir aos ensaios e adotava um figurino despojado, quase relaxado, para os shows noturnos.

Fui ver o ensaio. “Quero ter” era uma das músicas que tirariam naquela tarde – “tirar” é o verbo que os músicos, ou musicistas, usam para definir a captação e execução de alguma música já gravada. Lembro bem que outra era “De repente Califórnia”, do Lulu Santos, bem mais antiga, do início dos anos 80. Fiquei impressionado com o modo detalhista como trabalharam cada arranjo da versão original de “Quero ter” – com o detalhe de que a banda não contava com teclados. João fez milagre na guitarra, e não havia noite em que eu fosse ao Dom Giovanni e que Léo e seus parceiros viam-se livres de apresentar essa música.

Saudades do Léo, um grande sujeito, nunca mais o vi,

Quero ter um rio passando perto pra eu nadar sem roupa / Um pomar completo pra adoçar a boca / Uma sombra boa pra poder dormir

É o que todos queremos, ao fim das contas.

Outra coisa que quero ter é a chance de voltar a participar dos bons e velhos festivais de música, ainda há muitos por aí. Vai ser com “Quero ter”. E, se arrumar um segundeiro bom e parceiro, vou como primeira-voz.

Por ora, vou tratar de trabalhar, que já há pilotos na pista.

Sertanejão na veia

CASCAVEL – Sim, incluo Jair Rodrigues na lista do “Sertanejão na veia” sem qualquer dúvida. Como também incluiria o Gonzagão, fugindo um pouco do estereótipo de que o sertanejo, em termos de música, é tudo aquilo que se canta a duas vozes. É um conceito meio deturpado, esse. Se seguido ao pé da letra, possibilitaria elencar Claudinho & Buchecha ou Pepê & Neném no estilo.

Jair… E saber que já cantei “Majestade o sabiá” com Jair Rodrigues, num palco cá de Cascavel, e na metade da música ele me chamou de “Negão” e pediu que eu assumisse a primeira-voz. Não bastava cantar com o Jair Rodrigues, ainda tinha de tê-lo como segunda.

Lembrei hoje cedo de “Disparada”, música que o Lipe Paíga pediu nas duas vezes em que esteve presente aos shows de Luc & Juli – uma em Cascavel, outra em São Paulo. No de 30 de novembro de 2012, aqui, saiu um pedacinho da música pro Lipe. No de 14 de janeiro de 2013, em Sampa, nem isso. Estou na dúvida com o Lipe.

As discrições disponíveis dão conta de que a apresentação é de três anos atrás e ocorreu na segunda edição do Festival Voa Viola, no Rio.

Sertanejão na veia

CASCAVEL – Os arranjos e a produção eram bem mais modestos que o deste vídeo, mas “Fio de cabelo”, letra de Marciano e Darci Rossi, foi a música que, a partir da gravação por Chitãozinho & Xororó no início dos anos 80, colocou a música sertaneja brasileira em um novo rumo. A chegada de percussões e baixos somaram-se àquela época a uma série de outros adventos que trouxeram o sertanejo a uma linha mais pop, arrebatando audiências também entre os mais novos.

Todo mundo que tem um pezinho no mercado da música sertaneja – mesmo no dito estilo universitário dos últimos anos, bastante discutível – deve alguma coisa a “Fio de cabelo”. Que importou, do sertanejo clássico, o espírito do pé-na-bunda, também.

Sertanejão na veia

CASCAVEL – A dupla já se desfez, o que é uma pena. É uma das que mais gosto de ouvir.

A marca de Gian & Giovani surgiu no fim dos anos 80. No começo da década seguinte figurava entre as principais do país. Era a época que meu pretexto para frequentar as casas de música ao vivo de Cascavel era aprender com os caras da época – Léo, Valdy, Marcelo, Fino, Fofão, Valdecy, o Hadyr e a Leony, o Fernando e o Flávio que não é o Flávio de hoje, tanta gente bacana que vi e ouvi tocar.

Dava meus pitacos nas noitadas dos músicos profissionais em dupla. Lobo & Luciano, era o nome, soava legal, tínhamos até uma logomarca feita pelo Edilson Reche que nunca foi usada para nada. O parceiro e primeira-voz era o Jefferson Lobo, um ano mais novo que eu – tínhamos 14 e 13, acho -, que depois enveredou para o jornalismo e está nessa vida até hoje.

Certa vez fomos participar de um festival num boteco que já não existe mais. Nenhum boteco daquela época existe mais. Era o Carinhoso. Achávamos que nosso timbre lembrava um pouco o de Gian & Giovani e inscrevemos “Olha Amor”. Ficamos em segundo lugar. Ficamos putos, porque o público presente, e era bastante gente, já tinha nos aclamado como merecedores inquestionáveis da vitória. Rendeu uma grana que o Lobo e eu rachamos, e um troféu que ficava ora na casa de um, ora na casa de outro, até que se perdeu no tempo e no espaço, o troféu.

Nossa dupla não foi muito longe. Menos pelos apelidos que eu punha no Jefferson pra vê-lo irritado, o que sempre dava certo, mais por ele não ser muito afeito a música sertaneja. Virou compositor de MPB, deu seus tiros nesse gênero, continuou jornalista, a vida seguiu. Vejo-o vez ou outra.

“Olha Amor”, uma baladinha legal de Gian & Giovani, de uma época que o sertanejo já tinha cara de pop.

Sertanejão na veia

CASCAVEL – Já escrevi aqui em outra ocasião que as melhores pérolas do cancioneiro sertanejo são causos contados em forma de música e que muitos desses causos traduzem histórias reais.

Talvez seja o caso de “Retrato de Mãe”, de Matogrosso & Mathias. Arrisco sempre, quando a enquete vem à tona, que Matogrosso & Mathias são a melhor dupla sertaneja do país, observando a óbvia exceção aos hour concours Chrystian & Ralf.

Atualmente, isso já tem mais de dez anos, o Matogrosso canta com outro Mathias, um rapaz bem novo de nome Isaac Júnior. O original foi tratar da vida e integra a dupla Matão & Mathias, e dessa pouco posso falar, já que não a conheço.

E hoje foi a primeira vez na vida que disse ou escrevi a palavra cancioneiro.