Os caras do meio: Rodrigo Mattar

Vão falar que só dou espaço aos amigos, que não vou a fundo na proposta, e tal. Podem falar, talvez a ideia seja essa, mesmo. Não é pretensão da série vasculhar arqueologias ou desvendar segredos dos grandes papas da área, mas sim apresentar à audiência daqui – que tem crescido, podem acreditar – um pouco dos hábitos e do trabalho de alguns colegas. Hoje, trago meu sparring tuítico Rodrigo Mattar, comentarista do SporTV, de quem vou ganhar uma caixa de cerveja no fim do ano como resultado de uma bem sucedida aposta ambientada no futebol. Ele torce pelo Fluminense de maneira doentia; eu, pelo Corinthians, o que ultimamente também tem me parecido uma doença.

Uma das características do Rodrigo é a memória de elefante. Ao know-how estatístico que é quase enciclopédico, alia o bom conhecimento técnico das categorias com que trabalha. O resultado vem à tona nas transmissões automobilísticas em que atua como comentarista pelo SporTV e em seu blog, o “A mil por hora”. No Twitter, o carioca de Ramos – faz questão de dizer que hoje mora na Tijuca – despacha como @rodrigomattar71, perfil pessoal que criou mais recentemente como alternativa ao @amilporhora – fala de corridas em um, de todo que lhe vem à telha no outro.

Rodrigo Mattar entrou na casa dos “enta”. Nasceu no Rio de Janeiro em 1971, no dia em que sua mãe, completava 33 anos. Acho legais essas coincidências, talvez por fazer parte, eu mesmo, de uma delas – nasci no dia do aniversário do meu pai. Sei que o Rubens Barrichello também faz aniversário junto com o Rubão, e somos todos do mês de maio. Tinha um caso assim, parece que ainda mais excêntrico, na família do José Carlos Pace, o que não vem ao caso. Mattar, com a chegada aos 40, admite estar menos irritadiço. Algo que posso testemunhar – ele me deu essa entrevista sem reclamar nenhuma vez. O mundo tem salvação.

Luc – Você alia o conhecimento de causa a uma ótima memória. Qual é o “truque” para armazenar tantos fatos e números?
Rodrigo – Cara, não sei explicar. Talvez seja o fato de que tenho uma capacidade – sem falsa modéstia nenhuma – de me lembrar de tudo isso. Eventualmente a gente “escorrega” num detalhe, até porque depois dos 40 a memória começa a ser inimiga. E o fato de ter uma memória, digamos, privilegiada, me incomodou porque tinha gente que apelava para as piadinhas. Mas hoje, não mais.

Luc – São quantas corridas por ano na agenda de transmissões?
Rodrigo – Não sei precisar hoje quantas corridas comento por ano. Considere que em 2011 fiz 19 provas da GP2, algumas outras do WTCC e todas do Racing Festival. Então foram mais de 30 corridas neste ano. Mas houve anos, como os da época em que transmitíamos a Nascar, onde fiz disparado mais de 50 transmissões. E já narrei Brasileiro de Marcas, Stock Júnior e WTCC, bem como os programas do FIA GT e da Le Mans Series para o SporTV.

Luc – E como foi que você se meteu nessa roubada chamada jornalismo?
Rodrigo – Rapaz, o começo da carreira foi no Jornal do Brasil, em 1996. Foca da editoria de esportes. Foi o ano do primeiro rebaixamento do Fluminense, então um dos orgulhos – embora todo mundo saiba que eu sou tricolor fanático – foi emplacar uma chamada de capa para uma matéria, evidentemente não assinada, dizendo que o Flu tinha a pior defesa em números absolutos da história do campeonato. Vexame que felizmente o tempo apagou porque depois vieram times muito piores. Aí no início de 1997 cometi a bobagem de sair do JB e ir trabalhar numa assessoria de imprensa que cuidava, entre outras coisas, da Fórmula Indy e da MotoGP aqui. Se por um lado foi bom por poder estar em dois eventos internacionais, por outro foi terrível. O que me motivou a procurar fazer as provas do projeto Estagiar da TV Globo. Na primeira vez não passei e na segunda insisti e me chamaram. Cumpri o período de estágio que era de seis meses, saí e fiquei fazendo uns “frilas” – escrevendo textos para a finada revista Club Motor, para uma revista que foi distribuída no GP do Brasil de 1999 e outra da Fórmula Indy, no mesmo ano.

Luc – Demorou para voltar à Globo?
Rodrigo – Chegou julho de 1999 e o Emanuel Castro, então gerente de eventos da Globo e que depois seria o cara que me levou para o SporTV quatro anos depois, me chamou pra trabalhar com ele. E aí completei 12 anos de casa, porque como o SporTV é da Globo desde 2003, então tenho esse período de vínculo com o meu atual local de trabalho.

Luc – Mas seu trabalho no SporTV não se limita ao automobilismo, certo?
Rodrigo – Entrei em 2003 como editor do falecido Grid Motor e em maio fui aproveitado como comentarista de automobilismo, estreando numa corrida de Stock Car em Jacarepaguá, ganha pelo David Muffato. Mas o raio de ação aqui não se restringe apenas ao automobilismo. Nos plantões sobra de tudo, principalmente futebol. Faz parte. Na Globo eu ajudava nas transmissões de Fórmula 1 e nos demais eventos onde achavam necessária minha presença. Fui da equipe de produção em todos os GPs do Brasil de Motovelocidade a partir de 1999. Até coordenei no “switcher” o GP da Austrália de Motovelocidade em 2002, quando o Barros foi segundo colocado atrás do Valentino Rossi.

Luc – Seu trabalho (e também o lazer, por que não?) tem uma identificação muito grande com as provas de Endurance. Como isso começou?
Rodrigo – O fascínio pelos protótipos começou com os antigos exemplares de Quatro Rodas e Auto Esporte com que meu pai me “presenteava”. Comprei também várias revistas em sebos. E passei a estudar um pouco mais a história dessa modalidade, que sempre teve forte presença de pilotos da Fórmula 1. Com a dita “globalização”, vieram as redes sociais, os amigos igualmente fanáticos e aí estourou. Pode parecer brincadeira, mas não é: em 2009 acompanhei as 24 Horas de Le Mans inteiras, pela internet, madrugada adentro. Francamente, não sei como consegui isso. Hoje, posso considerar que tenho um bom conhecimento da modalidade, mas não à altura dos meus colegas jornalistas europeus e norte-americanos, que têm uma proximidade muito maior com a Endurance. É uma pena que a nossa principal prova, as Mil Milhas, esteja paralisada e sem rumo. Quem viu aquele espetáculo que foi a prova de 2007, com Peugeot, Creation, Spyker, Corvette, Aston Martin, Zytek, Porsche e outros, não esquece jamais.

Luc – Você tem parâmetros suficientes para comparar o automobilismo do Brasil com o lá de fora…
Rodrigo – É complicado falar disso. O Brasil é um manancial de talentos imenso para o automobilismo, sempre foi, mas corremos o risco de uma entressafra violenta no futuro. Não sou eu quem diz isso. Os fatos mostram. Cada vez menos pilotos do país vão para a Europa e os Estados Unidos, diferente do “boom” verificado nos anos 80/90. Sem talentos, não há renovação e sem renovação, não há ídolos. Com os europeus, acho que ainda temos o que aprender em três pontos: profissionalismo, variedade de categorias e principalmente respeito ao público.

Luc – Você também trabalha também com futebol e outras modalidades. Isso tem influência em sua especialização no automobilismo?
Rodrigo – Não compromete e nem ajuda. Acho que agrega para a gente ter uma visão mais ampla em relação a outros esportes, mostrar conhecimento quando necessário e formar opiniões.

Luc – Você não faz muita questão de ser “politicamente correto” em seu contato com seu público via redes sociais. É proposital?
Rodrigo – Você já deve ter notado que eu parei de polemizar. Se não notou, provavelmente perceberá isso. Digamos que eu tenha sido aconselhado a pegar mais leve e esquecer algumas coisas. Farei isso para o meu bem e para que os meus contatos no twitter, por exemplo, busquem informação e não se espantem com críticas ácidas que podem afastá-los de lá.

Luc – Em se tratando de narradores e comentaristas de automobilismo, as emissoras do Brasil estão bem servidas?
Rodrigo – Tem um tal de Luc Monteiro, que é muito, mas muito ruim! Brincadeira, viu… você sabe que não penso isso a seu respeito. Acho que temos menos narradores e comentaristas especializados em esportes a motor do que mereceríamos ter. Não vou apontar destaques positivos ou negativos para ninguém se sentir melindrado. Nem eu me acho bom o suficiente para ser incluído em qualquer tipo de lista!

Luc – O automobilismo é uma especialização que você recomenda a quem está chegando ao jornalismo?
Rodrigo – Precisamos de renovação. Renovação no jornalismo esportivo motorizado é bem-vinda. Aliás, temos gente abaixo dos 40 anos de idade que é muito competente, mas ninguém fica pra semente. Em 10 anos eu terei 50, muitos outros terão 40 e a molecada tem que surgir para nos substituir. É um processo que faz parte.

Luc – Acompanhando corridas, futebol, carnaval, cinema, games, o escambau, e dominando esses assuntos todos, você encontra tempo pra comer e dormir?
Rodrigo – Nessa vida a gente tem que encontrar tempo pra tudo. Consigo comer sim, embora ache que me alimente muito mal. E dormir também. Durmo pouco, entre 5 e 7 horas. Mas normalmente, durmo bem.

Luc – Quais são os pontos fortes e fracos do jornalista/comentarista Rodrigo Mattar?
Rodrigo – Ih! Posso pular essa parte? Não gosto de falar de mim não. Digamos que sigo em constante aprendizado. Está bom assim?

Luc – Qual é o projeto profissional que ainda não foi realizado?
Rodrigo – Cara, tem tanta coisa que eu gostaria de fazer, mas não sei o que acontece que não consigo dar continuidade. Tenho umas coisas escritas sobre a Fórmula Super Vê, uma introdução de um pretenso livro sobre a história da categoria, que naturalmente desembocaria na Fórmula 2 Brasil e na F-3 sul-americana. Mas falta tempo, material de pesquisa e eu mesmo não me sinto tão motivado a fazer um projeto desta magnitude sozinho. Outra vontade que tenho é ir assistir ao vivo e a cores as 12 Horas de Sebring, as 24 Horas de Le Mans e a Petit Le Mans, além das 500 Milhas de Indianápolis e o GP de Mônaco. Mas por enquanto não passam de sonhos. E eu não tenho dinheiro para bancar do próprio bolso uma viagem tão dispendiosa.

Mattar com Jacques Laffite, no GP do Brasil em 2008, e de carona com Ricardo Maurício no Porsche Cup

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Os caras do meio: Victor Martins

Com o devido e característico atraso, está lançada nossa série. Que, como já relatado na terça-feira, vai tentar trazer à parca audiência do BLuc um perfil das pessoas que falam e escrevem sobre o automobilismo – meus colegas, pois, que por muitos podem até ser vistos como concorrentes, não no caso de hoje. Não muda nada, enfim.

“Os caras do meio”, a série em questão, começa mal, com um torcedor palmeirense. Victor Martins é o primeiro personagem do trabalho. Editor-chefe do Grande Prêmio, site de conteúdo voltado ao automobilismo que integra o cardápio da agência jornalística Warm Up, o paulistano de 30 anos não necessariamente assumidos despendeu na véspera do GP da Coreia, corrida que marcou sua segunda atuação como comentarista de Fórmula 1 na Rádio Globo, parte de seu tempo desprezível para falar um pouco da vida, do trabalho e das pessoas.

Brincadeiras à parte, o arremedo de entrevista foi feito por e-mail, já que interurbanos ou passagens para São Paulo estão custando os olhos da cara. Victor – ou “Vitonez”, apelido antigo que há três anos identifica seu perfil no Twitter – dificultou bastante as coisas. Minha ideia inicial era a de um tijolão de texto falando do personagem de cada semana. Victor se empolgou um pouco, mandou quase 10 mil caracteres em respostas que, da forma como vieram, merecem sobreviver intactas. Alguns detalhes foram arredondados pelo MSN.

Somem-se a isso minha costumeira preguiça e a correria para a viagem que vai me levar no fim de semana a uma inédita jornada dupla e está feita a opção pelo formato pingue-pongue, do qual não sou exatamente um apreciador. Nem regra, nem exceção, pois, vai aí o pingue-pongue com o Vitonez – que, como maioria de nós, escribas e tagarelas das corridas, é amado por muitos, odiado por outros tantos. Umas três ou quatro entrevistas como essa, pelo menos, estão garantidas. Se der algum ibope, mantemos a série.

Luc – Qual foi sua influência para entrar nesse ramo de automobilismo? Foi uma opção feita antes de cursar Jornalismo?
Victor – Sempre gostei de automobilismo. Assistia desde os 6, 7 anos às corridas e achava que um dia seria piloto. Com 12, já tinha percebido que não dava, então fui inclinando para as vertentes. Tinha noção que queria Jornalismo, mas por um momento achei que fosse fazer Física. No fim, fui para o lado das Humanas, mesmo.

Luc – Seu início de carreira foi mesmo na Warm Up ou rolou algo antes?
Victor – Eu fiquei alguns meses, talvez dias, num jornalzinho de bairro. Devo confessar que era bem mequetrefe, a ponto de mal lembrar o nome. Era de um cara com quem havia estudado no colegial, mas era tão mal organizado, inclusive para pagar, que desisti. Daí prestei concurso e passei no Banco do Brasil. Fiquei cinco meses lá, três deles trabalhando concomitante, nos finais de semana, já na Warm Up. Quando Everaldo Marques e Tales Torraga deixaram a agência, entrei como fixo e abandonei a profícua e edificante vida de abridor de contas e afins.

Luc – A “bio” no seu blog diz que você pensava ter de cobrir futebol antes de chegar ao automobilismo. Nunca cobriu futebol?
Victor – Nunca cobri nada que não fosse automobilismo em esporte, embora a ideia me seja muito válida. Gosto de futebol – mas precisaria me preparar muito melhor pra isso –, principalmente internacional. E como joguei vôlei e handebol – sim, me julguem –, também manjo do assunto.
De futebol todo mundo acaba entendendo um pouco porque é o esporte nacional e todo mundo já jogou. A maioria dos jornalistas de automobilismo nunca competiu – tem gente que mal dirige. Aí se vê uma diferença grande. Não que seja imprescindível, mas conhecer de um carro é muito mais válido do que saber de quatro linhas, táticas e gols. Eu, vendo mais pela nossa área, tendo a dizer que há um nivelamento, por baixo, dos atuais profissionais. Jornalistas que querem ser assessores ao mesmo tempo, assessores que pegam contas conflitantes de interesses e éticos, gente que não entende do assunto, que inventa notícias, que até ‘aluga’ espaço de seus veículos para outros interesses. No futebol, isso deve acontecer, de uma forma ou de outra, mas a profissão não passa por uma fase das melhores.

Luc – O noticiário de Fórmula 1, uma especialidade sua, exige de forma especial que haja bons contatos e boas fontes, o que leva à construção de relacionamentos. Quando é que o jornalista sabe que está delimitando no ponto certo a relação com suas fontes?
Victor – Há uma relação, primeiramente, de respeito. A fonte conhece seu trabalho e sabe que não será revelada sob hipótese alguma. Nos anos em que cobri as corridas da Stock Car é que a relação foi aumentando, porque naturalmente fui conhecendo mais gente. E com o passar do tempo, creio que o resultado do trabalho, meu e dos meus colegas da Warm Up, acaba trazendo muitas outras fontes que, principalmente, querem apresentar algum tipo de denúncia por saberem que investigamos e vamos atrás.

Luc – O que levou a Warm Up à revista digital? É de fato um veículo revolucionário no meio automobilístico?
Victor – A necessidade de termos um braço eletrônico mais profundo nas matérias. As notícias diárias não nos permitiam focar em assuntos que precisavam de um trabalho mais intenso e próprio. E lançar uma revista impressa, mais uma, estava fora de cogitação. Eu não diria que é revolucionário porque já havia um espelho, a GP Week, mas foi um passo importante para que este meio fosse devidamente desbravado. O que falta, agora, é que as empresas e patrocinadores descubram que as revistas eletrônicas são uma mina de ouro ainda pouco desbravada.

Luc – Seu estilo de jornalismo, mesmo quando não opinativo, é marcado por uma postura crítica que, sem trocadilhos, rende-lhe muitas críticas, inclusive de colegas. Isso o incomoda?
Victor – Não. Podiam gastar as críticas com o objeto de trabalho deles, o automobilismo, as corridas. Mas a conveniência cala. Não me preocupo, mesmo, e nem com quem as faz. Cada um age da forma que acha melhor, e assim toca a vida. Eu me preocupo em ser justo com meu trabalho, exigente com o que faço, me preocupo com a Evelyn, com os Felipes, com o Fernando, com a Juliana, com a Paula, com o Flavio, com o site, com a revista, com projetos, os textos ou as reportagens. Tenho uma baita liberdade para falar do que quiser aqui, e disso me orgulho. Tenho uma ótima relação com todos eles, que sai da esfera do trabalho. Eles são muito maiores que qualquer crítica que fazem sobre mim, e é isso que carrego.

Luc – Você sempre escreveu. Agora, está falando, também. Como tem sentido a novidade?
Victor – Eu nunca pensei em fazer rádio. Não sou um exemplo de eloquência, bem como não sou um cara de vídeo, por exemplo. Quando surgiu o convite da Rádio Globo, fiquei um pouco receoso. Eu me peguei treinando às vezes nos dias anteriores à corrida, da Itália, no caso. Fui para o estúdio, mas até que estava tranquilo. Mas logo deixei a ansiedade de lado, e aí o negócio fluiu bem. E a companhia de pessoas que entendem do assunto, no caso do Alex Dias Ribeiro, do Oscar Ulisses e do Roberto Lioi, deixa mais seguro. Gostei bastante da experiência e pude repeti-la agora neste fim de semana. É algo que definitivamente gostaria de fazer mais vezes.

Luc – Que significado você vê no fato das transmissões/coberturas de eventos automobilísticos terem se tornado notícia e alvo de análises mais detalhadas?
Victor – O fato de os eventos em si, principalmente no Brasil, serem tratados não como corridas de automobilismo. Há sempre um interesse (ou desinteresse, vendo por outro ponto) por trás de tudo, principalmente de dirigentes e diretores. Por exemplo: por um tempo, chegou a se pensar que o automobilismo poderia conviver com o futebol enquanto esporte prioritário no Brasil. Hoje o vôlei já passou, o MMA vai passar fácil, se o basquete se reorganizar, também vai pra frente, e o automobilismo só tende a cair. Não produzir ídolos, nesta cultura já dita, representa perda de interesse. E quando o interesse se vai, o jornalista tem um público menor pra escrever. E o veículo de comunicação começa a destinar menos espaço e demanda para tal. A F1 na Globo começa minutos antes das corridas. A Stock Car mal tem sua temporada passada ao vivo. A Indy, absurdamente, não terá transmissão ao vivo nem da Bandeirantes nem do Bandsports. Eu não entendo como é que os patrocinadores renovam seus acordos sendo que não estão sendo exibidos no horário programado. Qual a graça de ver uma corrida em VT? A TV está acabando com sua cobertura de automobilismo, é a verdade, e isso acaba virando notícia. Sem contar o desserviço imenso que presta a CBA.

Luc – Na análise de quem está há oito anos nisso, no caso você, qual é o maior problema e qual é a maior qualidade do jornalismo brasileiro voltado ao automobilismo?
Victor – O maior problema é o interesse do jornalista e do veículo em sobreposição à notícia. Uma coi$a conta demai$ no meio. A qualidade… a internet proporcionou que pessoas realmente boas se lançassem. Antes, havia uma restrição clara, TV e rádio, e agora você tem uma amplitude de informações muito grande. Ressalto que não necessariamente haja uma qualidade alta, mas com essa pluralidade, há quem se destaque e se veja com bons olhos.

Luc – Quem você aponta como os papas do ofício?
Victor – Não é porque é o chefe. Mas Flavio Gomes está lá. Se um dia eu tiver meu negócio no meio, é ele quem vou querer “bater”. No mesmo nível, Castilho de Andrade. Os dois dividem esse papado. É que o Castilho teve de abrir mão agora por seu envolvimento na assessoria do GP do Brasil, mas sua cobertura e seu texto, além de sua postura, foram e são admiráveis. Gosto muito do Fábio Seixas também, mas o nariz dele atrapalha um pouco.
E na questão de assessoria de imprensa, há duas pessoas que estão no estrelato: Márcio Fonseca e Fernanda Gonçalves. O Márcio é imbatível no que faz. Qualquer um percebe no Márcio a qualidade no texto e a diferenciação que ele dá aos seus releases, procurando também informar. É um jornalista em sua essência. Sem contar que se trata de alguém absolutamente ímpar.
E a Fernanda, é meio suspeito eu falar pelo laço de amizade, mas ela está no mesmo patamar. Eu gosto, sobretudo, Luc, de pessoas éticas e honestas. A pessoa pode ser uma péssima profissional, não saber escrever, mas pra mim tem de ser gente decente. A Fernanda não só é uma excelente jornalista e assessora como é uma pessoa que considero exemplar. Eu tenho um respeito profundo e imensurável por ela. É alguém que carrego pro resto da vida. E para quem estou devendo o próximo almoço.

Luc – Qual seu conselho ou alerta básico a futuros jornalistas que o procuram atrás disso?
Victor – Teoricamente, quem tem conhecimento (acompanha corrida, tem bom português e inglês, quem se interessa pelo assunto). Na prática, hoje estão indo muitos jovens (e até nem tanto) que gostam de corrida e se contentam em tirar foto e falar pelo Twitter com os pilotos. A dica que posso dar não deve fugir a nenhuma que qualquer um daria: aperfeiçoar-se, ser um diferencial, ir atrás, ter fontes confiáveis, checar a informação, ouvir os dois lados, jamais inventar algo, as regras básicas do jornalismo. E procurar saber do que e de quem está falando: mergulhar nas histórias dos pilotos e das equipes, saber o que significam os termos, ter noções básicas da parte técnica de um carro, conhecer as pistas. Conhecer. Saber. É o que vale. E muito.

Os caras do meio

Vá lá que o título da nova série seja digno, no máximo, de um prêmio bóbil, questionável comenda imaginária que resulta de uma brincadeira de determinada confraria que integrei. Ele próprio, “Os caras do meio”, reproduz uma outra piada interna, que não vem ao caso. Não me costa, no entanto, aproveitar esse espaço tão desconexo para apresentar aos que me leem – que não são tão poucos quanto eu pensava – sujeitos que são, cada qual a seu modo e a sua grandeza, referência nesse ofício ao qual me lancei meio que por acaso, o jornalismo voltado ao automobilismo.

Já foram muitas as séries lançadas aqui no blog, algumas tiveram sequência, outras morreram na casca. Lanço mais uma, “Os caras do meio”, sob a pretensa meta de intercalar semanalmente perfis de escrevinhadores e faladores do automobilismo. Sempre usando como muleta minha ciência de que o BLuc não é produto jornalístico, mas algo que segue a lógica de “querido diário”, assumo comigo mesmo apenas o compromisso de converter em personagens momentâneos aqueles que aproximam o público do mundo das corridas com seu trabalho em emissoras de rádio e TV, em revistas, em sites, em jornais.

Em meio à correria da terça-feira, penúltimo dia de expediente físico aqui na agência, vou tratando de editar aqui a primeira entrevista, que fiz no último fim de semana. Ficou bacana, e bem mais extensa do que supus. É bem possível (até provável, eu diria) que só consiga colocá-la no ar amanhã cedo, antes de encarar céus e estradas na jornada dupla que me aguarda no fim de semana. Enfim, quem quiser pode ficar à vontade para tentar adivinhar o nome do primeiro personagem da série. Que é um cara batuta, por assim dizer.