Meu jubileu de porcelana

Faz 20 anos, hoje, que virei jornalista. Não ia escrever sobre, já disse nesse texto de dois anos atrás quase tudo que tinha a dizer, mas números redondos exigem alguma manifestação, motivo pelo qual pretendo também fazer um registro para a posteridade quando completar 100 anos, quando narrar minha milésima corrida, quando nascer meu décimo filho. O aniversário e as corridas são metas fáceis.

Foi no dia 3 de fevereiro de 1992 que comecei minha vida nesse meio de escribas, filmadores, faladores e retratistas. E sem falsa modéstia, já que reconhecidamente não tenho nenhuma, ser um deles é sensacional, já descontados os contras do ofício, e são muitos.

Nos dias de hoje, mais falo que escrevo. Foi uma trajetória bem doida, e comigo não poderia ser diferente, a que me levou a microfones de pistas de corridas e emissoras de televisão. Gosto de narrar corridas, é única modalidade do esporte sobre a qual penso entender um pouquinho, as pessoas parecem ter paciência para me ouvir fazendo isso e, tudo indica, assim devo continuar por mais algum tempo.

Narração de corridas, talvez seja esse o assunto, nas limitações do meu mundinho, para o vigésimo aniversário de profissão. Nem de longe pensava, quando moleque, em fazer isso, embora já fosse um taradinho por automobilismo, bem mais que agora, o que penso ter sido uma evolução minha. A primeira narração a gente nunca esquece, e eu já tinha prometido jamais usar de novo esse trocadilho tosco.

Enfim, a primeira corrida que narrei, que conste dos alfarrábios, foi a penúltima etapa do Campeonato Paranaense de Fórmula A de 1994. Lá corria o Milton Serralheiro, tenho falado bastante dele ultimamente. Ele ganhou a corrida, manteve a chance de ser bicampeão – acabou vice, pela quarta vez em cinco temporadas – e tinha levado a Londrina o “Leitoa”, Amarildo Aragon, para filmá-la com uma Panasonic M8. De volta a Cascavel, o Paulo Rogério, que disparado é um dos melhores radialistas do Brasil, fez uma gambiarra nos equipamentos que o Milton tinha em casa pra gente poder gravar a narração. Naquele emaranhado de fios e cabos, o conteúdo do VHS era copiado para uma fita virgem em outro aparelho ao mesmo tempo em que eu narrava, assistindo à corrida pelo visor da filmadora, de não mais que 3 cm. Eu via a corrida em preto e branco num visor do tamanho de uma moeda. Não queria ter narrado, mas o Milton não quis saber. Vimos aquele material, filmagem amadora e narração idem, um zilhão de vezes.

Narração de corridas. Setembro de 1996, reinauguração do autódromo de Curitiba, corrida de Stock Car que o Paulão Gomes ganhou, e na frente do pódio eu derrubei o fotógrafo da Gazeta do Povo quando pulei para apanhar o surrado boné da Pirelli que ele jogou para a torcida, tenho até hoje. O fotógrafo me mandou à merda, sugeri que ele fosse também, ninguém foi. Momentos antes eu tinha conhecido o Galvão Bueno, que me deu uns dois ou três minutos de atenção. Estava lá, o Galvão, na ilustre condição de pai de piloto. O Luiz Carlos Largo, parceiro das peladas e dos jantares das quartas-feiras num dos clubes daqui, narrava a Stock Car para a Band. Cruzei com ele momentos antes da largada, convidou-nos, eu e minha namorada – faz 14 anos que não a vejo –, para acompanhar a corrida lá do segundo ou terceiro andar da torre, onde estava montada a parafernália da tevê. Não vi a largada, a menina teve um chilique, desmaiou, encasquetou que estava grávida, perdi umas cinco ou seis voltas com os praxes do ambulatório. Não conseguir voltar à cabine do Largo, o cara da organização não permitiu. Hoje narro corridas ao vivo para a tevê naquele mesmo espaço, e se lá aparecesse o cara, que sumiu do automobilismo, seria bem-vindo. Coisas bobas que se acumulam durante a vida que vez ou outra a gente acaba lembrando.

Narração de corridas. Foi obra do mais absoluto acaso minha entrada no Porsche GT3 Cup, um dos campeonatos que acompanho, mês que vem vamos a Portugal para as duas primeiras etapas da temporada. Abertura do campeonato de 2009, na preliminar do WTCC, eu lá estava como locutor de arena, e em meio à mais absoluta correria aparece um sujeito aparentando não mais que 40 anos, apresentando-se a mim com cortesia. Era o Dener Pires, o cara que trouxe a categoria para o Brasil. Eu lia sobre o Dener desde antes de comprar aparelhos de barbear, imaginava-o um septuagenário carrancudo. A gente imagina coisas erradas. Havia ficado sem narrador, pediu-me autorização para gravar minha locução de arena e jogar sobre as imagens. Negativo. Se é para fazer, vamos fazer bem feito, e avisei a Juli que só voltaria pra casa no dia seguinte e lá fiquei, em Curitiba, para gravar as duas corridas com o próprio Dener e o Max Wilson como comentaristas. O próprio Dener, hoje um dos meus patrões e a quem deixo os votos de saúde para o caso de espirrar, reconheceu, naquele fim de tarde, que não havia usado de muita lógica com a ideia que me propôs. É um puta sujeito.

Narração de corridas. Vou à falência, não importa quão rico possa ficar, no dia em que resolver mandar uma garrafa de vinho ou um litro de uísque a cada amigo que deu um empurrão nisso que começa a se desenhar como uma carreira. O Milton foi o primeiro, e depois dele, sem qualquer pretensão cronológica ou hierárquica, o Rubens Gatti, o Pedro Litron, o Juraci Massoni, a Miriam Ávila, o Jorjão Guirado (a esse, além dos alfajores, eu devo um rochedo, e não uma pedra), o Gerson Marques, o João Campos, o Alan Magalhães, o Kaká Ambrósio e a Cris Thurm, o Toninho de Souza e o Pedro Rodrigo, o Clóvis Grelak (arredio à ideia no início), o Eduardo Homem de Mello, o Milton Alves (talvez nem ele saiba), o Dener, o Sérgio Lago, o pai do Daniel Lancaster (não tenho contato com o piloto e meu convívio com o pai dele, cujo nome não sei, resumiu-se a meio minuto ao pé de uma escada, nunca vou esquecer), o Rodrigo Saravalli, o Vanuê Faria (bendito gringo que atravessou o meu caminho e o dele ao mesmo tempo…), o Thomaz Figueiredo, o Pedro Queirolo, o Betto D’Elboux, o Régis Schuck, o Marcello Sant’Anna, e que me desculpem os que esqueci, seguramente omiti muita gente, e mais essa galera toda que acompanha meu trabalho, que me atura na TV e no Twitter, que faz o convívio com pistas e carros ser ainda mais agradável. A lista aí inclui também chefes ou ex-chefes, o que não é o motivo da citação; não fiz questão de lembrar quem me contratou para qualquer coisa, mas quem foi parceiro de verdade, e todos aí o foram.

Narração de corridas. Taí um presente de Deus que, tomo emprestado o bordão do Pedro Muffato, não mereço, mas agradeço. Por falar em bordão, preciso criar alguns para as transmissões. Sugestões?

Robin

Gabriel Pandini. 11 anos. Pelo visto, um tarado por automobilismo desde sempre, ou pouco antes, ou pouco depois disso.

Já tinha trocado alguns cumprimentos com o pirralho meses atrás. Hoje passamos o dia juntos em Interlagos. O gosto pelas corridas veio no combo genético – é filho do Luiz Alberto Pandini, o cara que eu lia na “Grid” quando tinha a idade do Gabriel, e da Alessandra Alves, também jornalista da área. E dois bons amigos, mais o Panda que a Ale, que essa eu conheço faz pouco tempo.

Carinha invocado, esse Gabriel. Tem seu próprio blog, o “Saco de Batatas“, onde escreve sobre carros e corridas com mais desenvoltura e correção que muitos profissionais da área. Semana retrasada ganhou ainda mais fama na internet por conta da entrevista que fez com Mark Webber – foi pé-quente, inclusive, já que o pescoçudo ganhou o GP do Brasil dias depois.

Notei que o Gabriel tem certa fixação por locução. Hoje, dia tranquilo de programação, passou o tempo que pôde com o microfone à mão – devidamente desativado -, treinando sua locução de olho nas informações do monitor de tempos, na movimentação dos carros na pista, no contexto que envolve o campeonato. Simulei ouvidos moucos, mas prestei atenção ao que, talvez, tivesse um toque de brincadeira. Minha conclusão foi a mesma de todo mundo que o conhece: é do ramo.

Foi justamente aos 11 anos, já contei isso várias vezes aqui, que tomei gosto por corridas. Aos 11, Robin – dei-lhe esse apelido hoje – entende bastante do assunto. Já tem a história e os episódios da F-1, por exemplo, devidamente decorados, o que você pode identificar como defeito ou como qualidade, vai do gosto do freguês.

Gabriel Pandini. Guardem esse nome e me cobrem a aposta daqui a uns, sei lá, 15 anos. Robin vai longe.

Os caras do meio: Victor Martins

Com o devido e característico atraso, está lançada nossa série. Que, como já relatado na terça-feira, vai tentar trazer à parca audiência do BLuc um perfil das pessoas que falam e escrevem sobre o automobilismo – meus colegas, pois, que por muitos podem até ser vistos como concorrentes, não no caso de hoje. Não muda nada, enfim.

“Os caras do meio”, a série em questão, começa mal, com um torcedor palmeirense. Victor Martins é o primeiro personagem do trabalho. Editor-chefe do Grande Prêmio, site de conteúdo voltado ao automobilismo que integra o cardápio da agência jornalística Warm Up, o paulistano de 30 anos não necessariamente assumidos despendeu na véspera do GP da Coreia, corrida que marcou sua segunda atuação como comentarista de Fórmula 1 na Rádio Globo, parte de seu tempo desprezível para falar um pouco da vida, do trabalho e das pessoas.

Brincadeiras à parte, o arremedo de entrevista foi feito por e-mail, já que interurbanos ou passagens para São Paulo estão custando os olhos da cara. Victor – ou “Vitonez”, apelido antigo que há três anos identifica seu perfil no Twitter – dificultou bastante as coisas. Minha ideia inicial era a de um tijolão de texto falando do personagem de cada semana. Victor se empolgou um pouco, mandou quase 10 mil caracteres em respostas que, da forma como vieram, merecem sobreviver intactas. Alguns detalhes foram arredondados pelo MSN.

Somem-se a isso minha costumeira preguiça e a correria para a viagem que vai me levar no fim de semana a uma inédita jornada dupla e está feita a opção pelo formato pingue-pongue, do qual não sou exatamente um apreciador. Nem regra, nem exceção, pois, vai aí o pingue-pongue com o Vitonez – que, como maioria de nós, escribas e tagarelas das corridas, é amado por muitos, odiado por outros tantos. Umas três ou quatro entrevistas como essa, pelo menos, estão garantidas. Se der algum ibope, mantemos a série.

Luc – Qual foi sua influência para entrar nesse ramo de automobilismo? Foi uma opção feita antes de cursar Jornalismo?
Victor – Sempre gostei de automobilismo. Assistia desde os 6, 7 anos às corridas e achava que um dia seria piloto. Com 12, já tinha percebido que não dava, então fui inclinando para as vertentes. Tinha noção que queria Jornalismo, mas por um momento achei que fosse fazer Física. No fim, fui para o lado das Humanas, mesmo.

Luc – Seu início de carreira foi mesmo na Warm Up ou rolou algo antes?
Victor – Eu fiquei alguns meses, talvez dias, num jornalzinho de bairro. Devo confessar que era bem mequetrefe, a ponto de mal lembrar o nome. Era de um cara com quem havia estudado no colegial, mas era tão mal organizado, inclusive para pagar, que desisti. Daí prestei concurso e passei no Banco do Brasil. Fiquei cinco meses lá, três deles trabalhando concomitante, nos finais de semana, já na Warm Up. Quando Everaldo Marques e Tales Torraga deixaram a agência, entrei como fixo e abandonei a profícua e edificante vida de abridor de contas e afins.

Luc – A “bio” no seu blog diz que você pensava ter de cobrir futebol antes de chegar ao automobilismo. Nunca cobriu futebol?
Victor – Nunca cobri nada que não fosse automobilismo em esporte, embora a ideia me seja muito válida. Gosto de futebol – mas precisaria me preparar muito melhor pra isso –, principalmente internacional. E como joguei vôlei e handebol – sim, me julguem –, também manjo do assunto.
De futebol todo mundo acaba entendendo um pouco porque é o esporte nacional e todo mundo já jogou. A maioria dos jornalistas de automobilismo nunca competiu – tem gente que mal dirige. Aí se vê uma diferença grande. Não que seja imprescindível, mas conhecer de um carro é muito mais válido do que saber de quatro linhas, táticas e gols. Eu, vendo mais pela nossa área, tendo a dizer que há um nivelamento, por baixo, dos atuais profissionais. Jornalistas que querem ser assessores ao mesmo tempo, assessores que pegam contas conflitantes de interesses e éticos, gente que não entende do assunto, que inventa notícias, que até ‘aluga’ espaço de seus veículos para outros interesses. No futebol, isso deve acontecer, de uma forma ou de outra, mas a profissão não passa por uma fase das melhores.

Luc – O noticiário de Fórmula 1, uma especialidade sua, exige de forma especial que haja bons contatos e boas fontes, o que leva à construção de relacionamentos. Quando é que o jornalista sabe que está delimitando no ponto certo a relação com suas fontes?
Victor – Há uma relação, primeiramente, de respeito. A fonte conhece seu trabalho e sabe que não será revelada sob hipótese alguma. Nos anos em que cobri as corridas da Stock Car é que a relação foi aumentando, porque naturalmente fui conhecendo mais gente. E com o passar do tempo, creio que o resultado do trabalho, meu e dos meus colegas da Warm Up, acaba trazendo muitas outras fontes que, principalmente, querem apresentar algum tipo de denúncia por saberem que investigamos e vamos atrás.

Luc – O que levou a Warm Up à revista digital? É de fato um veículo revolucionário no meio automobilístico?
Victor – A necessidade de termos um braço eletrônico mais profundo nas matérias. As notícias diárias não nos permitiam focar em assuntos que precisavam de um trabalho mais intenso e próprio. E lançar uma revista impressa, mais uma, estava fora de cogitação. Eu não diria que é revolucionário porque já havia um espelho, a GP Week, mas foi um passo importante para que este meio fosse devidamente desbravado. O que falta, agora, é que as empresas e patrocinadores descubram que as revistas eletrônicas são uma mina de ouro ainda pouco desbravada.

Luc – Seu estilo de jornalismo, mesmo quando não opinativo, é marcado por uma postura crítica que, sem trocadilhos, rende-lhe muitas críticas, inclusive de colegas. Isso o incomoda?
Victor – Não. Podiam gastar as críticas com o objeto de trabalho deles, o automobilismo, as corridas. Mas a conveniência cala. Não me preocupo, mesmo, e nem com quem as faz. Cada um age da forma que acha melhor, e assim toca a vida. Eu me preocupo em ser justo com meu trabalho, exigente com o que faço, me preocupo com a Evelyn, com os Felipes, com o Fernando, com a Juliana, com a Paula, com o Flavio, com o site, com a revista, com projetos, os textos ou as reportagens. Tenho uma baita liberdade para falar do que quiser aqui, e disso me orgulho. Tenho uma ótima relação com todos eles, que sai da esfera do trabalho. Eles são muito maiores que qualquer crítica que fazem sobre mim, e é isso que carrego.

Luc – Você sempre escreveu. Agora, está falando, também. Como tem sentido a novidade?
Victor – Eu nunca pensei em fazer rádio. Não sou um exemplo de eloquência, bem como não sou um cara de vídeo, por exemplo. Quando surgiu o convite da Rádio Globo, fiquei um pouco receoso. Eu me peguei treinando às vezes nos dias anteriores à corrida, da Itália, no caso. Fui para o estúdio, mas até que estava tranquilo. Mas logo deixei a ansiedade de lado, e aí o negócio fluiu bem. E a companhia de pessoas que entendem do assunto, no caso do Alex Dias Ribeiro, do Oscar Ulisses e do Roberto Lioi, deixa mais seguro. Gostei bastante da experiência e pude repeti-la agora neste fim de semana. É algo que definitivamente gostaria de fazer mais vezes.

Luc – Que significado você vê no fato das transmissões/coberturas de eventos automobilísticos terem se tornado notícia e alvo de análises mais detalhadas?
Victor – O fato de os eventos em si, principalmente no Brasil, serem tratados não como corridas de automobilismo. Há sempre um interesse (ou desinteresse, vendo por outro ponto) por trás de tudo, principalmente de dirigentes e diretores. Por exemplo: por um tempo, chegou a se pensar que o automobilismo poderia conviver com o futebol enquanto esporte prioritário no Brasil. Hoje o vôlei já passou, o MMA vai passar fácil, se o basquete se reorganizar, também vai pra frente, e o automobilismo só tende a cair. Não produzir ídolos, nesta cultura já dita, representa perda de interesse. E quando o interesse se vai, o jornalista tem um público menor pra escrever. E o veículo de comunicação começa a destinar menos espaço e demanda para tal. A F1 na Globo começa minutos antes das corridas. A Stock Car mal tem sua temporada passada ao vivo. A Indy, absurdamente, não terá transmissão ao vivo nem da Bandeirantes nem do Bandsports. Eu não entendo como é que os patrocinadores renovam seus acordos sendo que não estão sendo exibidos no horário programado. Qual a graça de ver uma corrida em VT? A TV está acabando com sua cobertura de automobilismo, é a verdade, e isso acaba virando notícia. Sem contar o desserviço imenso que presta a CBA.

Luc – Na análise de quem está há oito anos nisso, no caso você, qual é o maior problema e qual é a maior qualidade do jornalismo brasileiro voltado ao automobilismo?
Victor – O maior problema é o interesse do jornalista e do veículo em sobreposição à notícia. Uma coi$a conta demai$ no meio. A qualidade… a internet proporcionou que pessoas realmente boas se lançassem. Antes, havia uma restrição clara, TV e rádio, e agora você tem uma amplitude de informações muito grande. Ressalto que não necessariamente haja uma qualidade alta, mas com essa pluralidade, há quem se destaque e se veja com bons olhos.

Luc – Quem você aponta como os papas do ofício?
Victor – Não é porque é o chefe. Mas Flavio Gomes está lá. Se um dia eu tiver meu negócio no meio, é ele quem vou querer “bater”. No mesmo nível, Castilho de Andrade. Os dois dividem esse papado. É que o Castilho teve de abrir mão agora por seu envolvimento na assessoria do GP do Brasil, mas sua cobertura e seu texto, além de sua postura, foram e são admiráveis. Gosto muito do Fábio Seixas também, mas o nariz dele atrapalha um pouco.
E na questão de assessoria de imprensa, há duas pessoas que estão no estrelato: Márcio Fonseca e Fernanda Gonçalves. O Márcio é imbatível no que faz. Qualquer um percebe no Márcio a qualidade no texto e a diferenciação que ele dá aos seus releases, procurando também informar. É um jornalista em sua essência. Sem contar que se trata de alguém absolutamente ímpar.
E a Fernanda, é meio suspeito eu falar pelo laço de amizade, mas ela está no mesmo patamar. Eu gosto, sobretudo, Luc, de pessoas éticas e honestas. A pessoa pode ser uma péssima profissional, não saber escrever, mas pra mim tem de ser gente decente. A Fernanda não só é uma excelente jornalista e assessora como é uma pessoa que considero exemplar. Eu tenho um respeito profundo e imensurável por ela. É alguém que carrego pro resto da vida. E para quem estou devendo o próximo almoço.

Luc – Qual seu conselho ou alerta básico a futuros jornalistas que o procuram atrás disso?
Victor – Teoricamente, quem tem conhecimento (acompanha corrida, tem bom português e inglês, quem se interessa pelo assunto). Na prática, hoje estão indo muitos jovens (e até nem tanto) que gostam de corrida e se contentam em tirar foto e falar pelo Twitter com os pilotos. A dica que posso dar não deve fugir a nenhuma que qualquer um daria: aperfeiçoar-se, ser um diferencial, ir atrás, ter fontes confiáveis, checar a informação, ouvir os dois lados, jamais inventar algo, as regras básicas do jornalismo. E procurar saber do que e de quem está falando: mergulhar nas histórias dos pilotos e das equipes, saber o que significam os termos, ter noções básicas da parte técnica de um carro, conhecer as pistas. Conhecer. Saber. É o que vale. E muito.

Os caras do meio

Vá lá que o título da nova série seja digno, no máximo, de um prêmio bóbil, questionável comenda imaginária que resulta de uma brincadeira de determinada confraria que integrei. Ele próprio, “Os caras do meio”, reproduz uma outra piada interna, que não vem ao caso. Não me costa, no entanto, aproveitar esse espaço tão desconexo para apresentar aos que me leem – que não são tão poucos quanto eu pensava – sujeitos que são, cada qual a seu modo e a sua grandeza, referência nesse ofício ao qual me lancei meio que por acaso, o jornalismo voltado ao automobilismo.

Já foram muitas as séries lançadas aqui no blog, algumas tiveram sequência, outras morreram na casca. Lanço mais uma, “Os caras do meio”, sob a pretensa meta de intercalar semanalmente perfis de escrevinhadores e faladores do automobilismo. Sempre usando como muleta minha ciência de que o BLuc não é produto jornalístico, mas algo que segue a lógica de “querido diário”, assumo comigo mesmo apenas o compromisso de converter em personagens momentâneos aqueles que aproximam o público do mundo das corridas com seu trabalho em emissoras de rádio e TV, em revistas, em sites, em jornais.

Em meio à correria da terça-feira, penúltimo dia de expediente físico aqui na agência, vou tratando de editar aqui a primeira entrevista, que fiz no último fim de semana. Ficou bacana, e bem mais extensa do que supus. É bem possível (até provável, eu diria) que só consiga colocá-la no ar amanhã cedo, antes de encarar céus e estradas na jornada dupla que me aguarda no fim de semana. Enfim, quem quiser pode ficar à vontade para tentar adivinhar o nome do primeiro personagem da série. Que é um cara batuta, por assim dizer.

O diploma existe

Ontem voltei ao purgatório. Depois de quase um ano sem aparecer por lá, não dá para negar que até bateram algumas lembranças boas. Alguém me disse que eu sentiria saudades da faculdade. Não chegam a ser saudades, mas senti-me bem estando lá, talvez por não ter qualquer obrigação de permanecer lá por um período determinado por outros seres.

Visitei a secretaria acadêmica, atrás do meu diploma. Nada mais justo do que agilizar o trâmite do diploma, já que passei cinco anos lá dentro por causa disso. O curso dura quatro, mas tranquei a matrícula por um ano porque o Luc Júnior tinha acabado de nascer e porque eu não tinha saco para o terceiro ano seguido deixando a bunda quadrada naquelas cadeiras de madeira, as mais simples, acho que porque a mensalidade de Jornalismo não estava exatamente entre as mais rentáveis para a instituição.

A visita serviu para derrubar um mito. Sim, pude palpar a ocorrência do diploma. Ele existe. Fotografei para tirar a dúvida em casa, coisa que a mim mesmo soou como idiota, já que eu mesmo o vi.

Abro parênteses para comentar um episódio do qual lembrei com essa colocação. Corria o ano da graça de 2000 e o Luiz Silvério, meu parceiro no jornal Motorsport, foi para a Europa pela primeira vez, acompanhar o Jaime Melo na abertura do Europeu de Fórmula 3000, em San Marino. Levou para lá a primeira edição do jornal, que à época chamava-se “Sport 100 Limite”, mesmo nome do programa de automobilismo que ele mantinha na TV a cabo. Em Imola, numa topada nada casual com Michael Schumacher, colheu seu autógrafo na capa de um exemplar, que hoje está devidamente emoldurada na parede de sua sala. Horas mais tarde, no centro da cidade, pediu que o motorista do carro parasse diante de um outdoor que viu. A peça tinha Michael como garoto-propaganda de uma marca de relógios e reproduzia sua assinatura. Silvério quis apenas e tão somente conferir a assinatura com o autógrafo na capa de seu jornal. Disse que era para saber se tratava-se, mesmo, da rubrica do então bicampeão do mundo. Fecho parênteses.

De volta ao diploma, assinei-o. Não precisei conferir minha assinatura em outdoor nenhum, já que não sou garoto-propaganda de nada. Ele, o diploma, segue agora para Umuarama, nome que durante os anos de insistência acadêmica soava-nos como o de um ser supremo e malvado que ocupava uma poltrona elevada e olhava para todos com reprovação, devidamente munido de tridentes e chibatas. Umuarama é a cidade que acolhe a reitoria da universidade que me outorgou o título de bacharéu em jornalismo. E o reitor, acredito, é um sujeito bastante ocupado, já que a necessidade de sua assinatura deixará meu suado diploma pendurado em Umuarama por intermináveis 90 dias. Continuo achando que Umuarama é um ser supremo e malvado.

Nada do que contei aqui é mentira. Nem quanto ao diploma, nem sobre Umuarama, nem sobre a dúvida incompreensível do Luiz Silvério. Talvez tenha exagerado um pouquinho quando disse que fui à universidade atrás do diploma. Eu fui lá, na verdade, para fazer minha inscrição no Acordes Universitários, um festival de música promovido pelo centro acadêmico de História. Participei no ano passado e acabei vencendo, o que me valeu uma câmera fotográfica digital e uma estadia num parque aquático, que nunca aproveitei – demorei para correr atrás dos devidos comprovantes e, quando tentei reclamar meu prêmio, o curso de Turismo, que gerenciava a permuta, já tinha falido.

Queria muito participar do Acordes. Tanto para tentar ganhar de novo quanto para atender ao convite gentil feito pelo Leodefane, o mesmo sujeito que acabou me levando para o mundo do jornalismo há duas décadas, hoje professor universitário. Iria interpretar “Suspicious minds”, do Elvis, ou “Skyline pigeon”, do Elton John, era uma dúvida cruel. Mas a peleia vai acontecer no dia 24, e nesta data vou narrar minhas primeiras corridas de carros fora do país, na Argentina, onde o Porsche Cup vai correr pela primeira vez.

Inscrevi a Juli, que vai cantar qualquer coisa da Paula Fernandes – ela falou o nome da música, agora não lembro. Tomara que ela ganhe. O primeiro lugar vale um laptop, e o meu já dá sinais de que a aposentadoria forçada está próxima.