"Peço a Deus que abençoe minha água"

Luiz Tadeu Razia Filho integra uma lista à qual o automobilismo – notadamente o do Brasil – presta atenção maior a cada dia. Talvez seja correto afirmar que seja o líder da tal lista, composta por nomes que poderão, não muito longe da época atual, responder pela manutenção do Brasil na principal competição de corridas de carros do mundo. Líder da GP2 com quatro vitórias em 13 corridas, não há como negar que o baiano de 23 anos seja tópico obrigatório em qualquer conversa acerca de eventuais estreias no Mundial de Fórmula 1 do ano que vem.

Piloto desde os 12 anos, quando estreou em competições de autocross (!), Razia passou pelo kart, onde foi campeão brasileiro de 2004, faturou o Sul-Americano de Fórmula 3 dois anos depois, foi terceiro colocado na Fórmula 3000 europeia em 2007 e 2008 e, no ano seguinte, mudou de mala e cuia para a GP2. No ano passado, trabalhou como piloto de testes na F-1, completando cerca de 200 voltas com o carro do Team Lotus.

Na GP2, Razia passou pela Scuderia Coloni, pela Rapax e pela Air Asia até assinar sua transferência para a Arden. Nas 66 corridas que disputou desde a estreia em 2009, anotou uma pole-position, cinco voltas mais rápidas em corridas, seis vitórias e 16 pódios.

A GP2 foi eleita por quem consome automobilismo como estágio imediatamente anterior à Fórmula 1. Nico Rosberg e Lewis Hamilton experimentaram uma transição imediata. Campeões em 2005 e 2006, estrearam na F-1 nas temporadas seguintes às de seus títulos. Nelsinho Piquet, Bruno Senna e Romain Grosjean também cumpriram fases na GP2 antes da chegada à F-1.

Baiano de conversa solta, Razia mostra-se um tanto reservado e lança respostas monossilábicas quando o assunto envolve seus planos de correr na F-1 em 2013. Foi assim, pelo menos, na rápida conversa do fim de semana com o BLuc. Um pingue-pongue sem qualquer pretensão de causar impactos bombásticos ou trazer impressões reveladoras. Um papo, apenas.

BLuc – Suas ultrapassagens têm destoado da média. O que é que você bebe para arriscar e consumar essas manobras ousadas?
Razia – Eu bebo bastante água, e peço a Deus que abençoe essa água todos os dias. Talvez isso possa explicar essa habilidade.

BLuc – O que pesa a seu favor e também contra você na caça ao título?
Razia – Psicologicamente eu estou em um patamar muito bom, estou confiante, audacioso e também constante. Preciso, agora, manter os pés no chão, como dizem, para me concentrar no dia-a-dia. Estou muito feliz por ser um representante brasileiro com chances reais de ganhar o título pela primeira vez, mas não posso deixar que esses pensamentos atrapalhem a minha dedicação diária. Preciso viver e tirar o máximo de mim todos os dias e as contas no fim do ano vão ser feitas por si só.

BLuc – A Arden é a grande força da GP2?
Razia – É um processo engraçado, esse. No começo do ano, quando entrei na Arden, todas as pessoas me davam como carta fora do baralho, por estar em uma equipe de mediana para ruim. Agora todos comentam que a Arden é uma equipe de ponta, e por isso os meus resultados. Então deve ser isso, mesmo.

BLuc – E o nível dos pilotos da GP2, condiz com esses predicados?
Razia – A categoria tem pilotos de um nível muito alto, tecnicamente e profissionalmente. São pilotos muito talentosos, também.

BLuc – Que outras categorias exercem essa função de vitrine para a Fórmula 1?
Razia – A World Series 3.5 é uma categoria excelente, muito disputada, tem pilotos de um nível muito alto. A GP2 tem a preferência de usar os mesmos circuitos que a Formula 1 e também os mesmo pneus, alem de ser televisionada por mais emissoras, porém os custos são mais altos, como todos sabem.

BLuc – Faltam 10 corridas, ainda. Você diria hoje que a disputa pelo título esteja entre você e o Valsecchi?
Razia – Acho que os seis primeiros colocados estão em um ótimo nível para disputar o campeonato nesta altura do campeonato. No começo do ano talvez houvesse mais, porém agora começa a limitar a alguns pilotos. Eu quero apostar na bandeira brasileira, vamos ver.

BLuc – E no extra-pista, a rotina é pesada? Os cuidados que você toma são muito exigentes?
Razia – Na alimentação, são seis dias por semana consumindo só proteína, vegetais e saladas. No sétimo dia, posso comer o que eu quiser, de tudo. Acordar cedo, principalmente para pedalar. Como são entre duas e três horas de pedal, é bom economizar as horas durante o dia, pedalar das quatro às sete da manhã, assim ainda resta o dia inteiro para atender aos outros compromissos. Tenho reuniões com minha equipe duas vezes por semana, faço simulador duas vezes por semana, também. A parte de “estudos” de um piloto depende de quanto ele quer algo. Eu, particularmente, me dedico bastante na parte teórica, mas isso é de cada um… Uma vida saudável, sem festas. Dormir cedo e treinar até ficar muito, muito cansado. Fazer testes psicológicos quando estou cansado também é parte da rotina. Além disso, eu escrevo colunas e faço um vídeo tutorial para os fãs, porque adoro compartilhar conhecimento e informação.

BLuc – A decisão de não seguir na Fórmula 1 como terceiro piloto foi sua?
Razia – Foi uma decisão nossa, e foi para o benefício de todos. É como no boxe, às vezes para o pugilista acertar um soco ele precisa dar um passo para trás. É a mesma coisa nas corridas. Às vezes você precisa dar um passo para trás para dar dois para a frente.

BLuc – Você se sente, de fato, às portas da Fórmula 1?
Razia – Sim.

BLuc – Você tem conversado com alguma equipe para 2013?
Razia – Sim.

BLuc – Existe perspectiva real de aporte financeiro para você disputar a Fórmula 1 em 2013?
Razia – O que precisamos concentrar é demonstrar resultados para aqueles que podem me ajudar. Enquanto eu estiver fazendo isso, vou deixar que as coisas aconteçam naturalmente. Meu objetivo é vencer todo fim de semana, sempre foi. Sempre tive muita fé em Deus e acredito que, com força de vontade e muita fé, as coisas podem acontecer. Na verdade, será feita a vontade Dele.

BLuc – Há nomes fortes a seu favor na briga por uma vaga?
Razia – O Christian Horner e mais algumas pessoas que estão ajudando no meio da Formula 1…

BLuc – Uma vez campeão e com chance de ir para a Fórmula 1 em equipes pequenas, você considera a possibilidade de continuar na GP2, como fez o Grosjean?
Razia – Eu não gosto de brincar de jogo “se”… Se eu não tivesse cortado esses pensamentos, talvez não estivesse aqui para contar o presente.

Começando da primeira foto, em sentido horário: a estreia de Razia no automobilismo em competições de autocross; o título brasileiro de kart, em 2004; nos tempos de Fórmula 3000 europeia; participação no treino livre do GP do Brasil de F-1 do ano passado, pela Lotus; teste pela A1GP; e vitória na Fórmula 3 sul-americana em 2006 (uma corrida que eu narrei, aliás, para o público do autódromo).

Baiano bom

SÃO PAULO – Ok, eu confesso sob risco de ser execrado pelos papas da área: foi a primeira vez, hoje, que assisti pela tevê a uma etapa da GP2. A corrida Sprint de Silverstone, todo mundo já sabe, foi uma festa de pilotos brasileiros, com o Luiz Razia vencendo mais uma, a quarta dele em 13 corridas, e o Felipe Nasr no pódio em terceiro. Entre os dois, o italiano Davide Valsecchi, vice-líder do campeonato, parceiro de Nasr na equipe DAMS.

O campeonato terá sequência daqui a duas semanas, na Alemanha. Razia sai da Inglaterra com reforço no prestígio que vem conquistando. Reza a lenda que não, mas sim, a velharada da Fórmula 1 está antenada, e bem antenada, ao que esses moleques fazem nas séries inferiores. O baiano tem se tornado um mestre em ultrapassar adversários pelo lado de fora das curvas, e finanças à parte isso representa uma série de virtudes que interessam.

Razia toma o táxi para Heatrow daqui a pouco levando na valise, também, um baita lucro no campeonato. Chegou lá um ponto atrás do Valsecchi, saiu seis na frente. Vai ser campeão, anotem.

Bom baiano

CAMPINAS – Aí está, em reprodução da imagem da tevê, o instante em que Luiz Razia deu um bote quase inesperado em James Calado e Fabio Leimer na última volta da corrida de hoje em Valência, para vencer pela terceira vez na GP2. Duas voltas antes da bandeirada final, era o quinto na corrida.

A primeira informação que recebi hoje, quando levantei ao mesmo tempo em que o sol, foi a da vitória de Luiz. Foi uma mensagem postada na internet pelo Lito Cavalcanti – dormi ontem com o laptop ligado na mesinha que improvisei ao lado da cama, durante a corrida da Indy, e ligado permaneceu até hoje cedo. Lito usou um adjetivo só cabível a situações muito especiais, se não foi “incrível” foi algo nessa linha.

Não vi a GP2, claro. Mal passei da vigésima volta da Indy. Mas vi o fim da etapa valenciana há pouco, nesse vídeo aqui, que o Flavio Gomes postou. É ótimo para postar, o Flavio, embora seja péssimo para apostar.

Grande resultado e grande atuação de Luiz Razia. Que está, agora, a um ponto da liderança do campeonato, esses pormenores todos podem ser conferidos lá no site do piloto.

É bom, esse baiano.

Sim, o cara da vez

Tenho o costume pouco recomendável de requentar algumas coisas aqui no blog. Não que faça isso diuturnamente, mas é algo que escancara a falta de assunto que me é característica. Requentar a mesma coisa duas vezes, então, é pedir pra tirar o blog do ar.

Mas não vou a tanto. E o momento justifica, também. Foi o parceiro Betto D’Elboux, que mês passado voltou à sua mesa na redação da revista Racing, em seu perfil no Facebook, quem deu o toque hoje cedo – bem cedo, aliás, eram mais ou menos seis da manhã. Uma matéria que fiz para outra revista, a Cockpit, sobre o futuro promissor de Felipe Nasr, que ontem teve sua ida para a GP2 anunciada com repercutida pompa no “Jornal Nacional”.

Eu já havia republicado a entrevista no blog quase seis meses atrás, quando o mesmo “JN” deu bom destaque ao título de Felipe na Fórmula 3 inglesa. Aos que não leram e aos que dispõem-se a ler de novo, a matéria da Cockpit está nesse post aqui. Ou, ainda, na edição digital da Cockpit, entre as páginas 44 e 47.

Fico só imaginando o sorrisão do Samir a essa altura. Vou ligar pra ele, aliás.