Bittencourt feelings

CASCAVEL – Não é um título inédito, o desse post. Já usei “Bittencourt feelings” quando o doutor Augusto fez uso desse modesto espaço para detalhar uma experiência suficientemente marcante no mundo do motociclismo que ele conhece tão bem. Talvez a condição que ele não tivesse experimentado nesse mundo tão amplo das duas rodas fosse o de pai de piloto, explorado à exaustão no último fim de semana.

Foi Lucas, filho do Augusto, quem barbarizou na encharcada pista do autódromo de Cascavel. Em sua segunda corrida como piloto do Moto 1000 GP, o garoto proporcionou a festa da torcida da casa com uma atuação histórica na corrida da categoria GP 600. Pincei do perfil do Lucas no Facebook as impressões que ele manifestou sobre o que fez, viu e sentiu durante o fim de semana do GP Cascavel. Ei-las.

LUCAS BITTENCOURT

“Ainda muito emocionado, quero compartilhar com todos um dos momentos mais felizes da minha vida até agora. Bom, sexta-feira começaram os treinos no Autódromo de Cascavel, para mais um etapa do Moto 1000 GP. Não foi fácil domar a moto, pois estava acostumado com minha “motinho” de rua, e não com uma de competição igual àquela. Desapontado com os tempos de volta, mas contente pela minha evolução, estava entre os 10 melhores da categoria. No sábado fiz um primeiro classificatório muito bom, completando a volta em 1:07.9, uma surpresa e um recorde pessoal de volta mais rápida. Assim classifiquei em sexto entre 13 pilotos. Más no segundo classificatório não consegui imprimir o mesmo ritmo ficando com o sétimo lugar na largada de domingo. Parece loucura, ou até paranoia minha, mas na noite de sábado para domingo sonhei que estava correndo com muita chuva, havia muitas quedas, e estava lutando pelos primeiros lugares na corrida.

No domingo a chuva antes da corrida estava sendo um pesadelo e não sonho. Segunda corrida da minha vida, no circuito mais veloz do Brasil, debaixo de chuva e com os melhores pilotos do Brasil. Seria um desafio de respeito. Mudamos completamente o “set up” de suspensão da moto, que estava perfeita para eu andar no seco. Na corrida, não fiz uma largada boa, perdi uma posição e ganhei outra logo em seguida. Comecei a me acostumar muito rápido com o piso molhado e o pneu de chuva, e os tempos foram baixando. Minha meta era preservar a moto e minha integridade física, assim corri com cautela, sempre usando a cabeça e não me deixando levar pela emoção. Vim imprimindo um ritmo muito rápido dos demais pilotos, consegui boas ultrapassagens assumindo a terceira colocação – achando que estaria em quinto e muito próximo do então ‘terceiro’. Em uma volta muito boa fiz duas ultrapassagens no S do circuito, assumindo assim a primeira colocação. O mais engraçado é que nunca passou pela minha cabeça na hora da corrida que estaria liderando a prova.

Não sei exatamente quantas voltas completei em primeiro, mas logo meu físico foi acabando, e os pilotos me alcançando. Depois ser ultrapassado e quase ficar fora da corrida com um susto na entrada da reta principal, voltei para o terceiro lugar, ficando a 2,4 segundos do primeiro. Faltando três ou quatro voltas para acabar, recuperei a segunda posição e na ultima volta por muito pouco não consigo o primeiro lugar. Muito emocionado, fiquei sabendo do resultado quando cheguei no Box. Até então, pelas minhas contas, estava em quarto. Ai foi só alegria para todos. Queria agradecer meu pai Augusto Bittencourt e à minha mãe Liege Bittencourt pela oportunidade e apoio, todos os meus familiares, minha namorada Juliana Parzianello por me cuidar e me dar forças, todos meus amigos e conhecidos que me apoiaram muito. Vocês são demais! E em especial a galera do Ware Ware Bikers, que montou uma superestrutura com carreta personalizada, espaço lounge, DJ, comida, bebida, uma scooter para meio de locomoção, etc. Meu brother Leandro Duarte Pereira por conseguir uma moto top, por ser “o cara” nos ajustes e nas várias dicas, meu companheiro e chefe de equipe Dudu Costa Neto pelo carinho e acolhimento da equipe Mobil Ituran Racing Team, ao Orlei Silva e ao grande Gilson Scudeler por mais uma etapa sensacional aqui em Cascavel. A todos que tiveram envolvimento comigo nesta corrida, um muuuito obrigado e um grande abraço, todos vocês fazem parte desta conquista. Abraço a todos, e mãos no fundo sempre!”

Mesmo tendo sido um dos grandes nomes do domingo, Lucas saboreou a conquista e o momento de festa com comedimento. Ainda não se sente tentado a efetivar sua condição de piloto de competições. “Primeiro prefiro terminar os estudos para depois, quem sabe, fazer o hobby virar profissão”, foi o que declarou na coletiva de imprensa, momentos depois da festa no pódio.

Quem não viu a corrida pode e acha que Lucas ou eu estamos exagerando pode conferir o VT completo, narrado pelo Vanderlei Luiz Ratto com comentário do Cesar Barros e reportagem do Ricardinho Montesano.

Bittencourt feelings

CARUARU – Uma sessãozinha que achei bem legal aqui no blog, que lancei quase involuntariamente e que morreu na casca como quase todas as outras, é essa dos feelings. Começou com o Torrão Ciotti, que despendeu um dia qualquer da semana com um treino de protótipo em Interlagos, e teve sequência dias depois com o Ronei Rech, que foi à pista também em Interlagos para fazer graça com um Zé do Caixão.

Quem traz a experiência de hoje à parca audiência desse espacinho aqui é o Augusto Bittencourt, um apaixonado pelas duas rodas que dedica ao exercício do direito, como advogado, as horas de folga que o movimentado mundo das motos lhe outorga. Bittencourt e o filho Lucas estiveram, ano passado, experimentando coisas únicas que a “Isle of Man” proporciona a esses loucos das duas rodas. Porque têm mesmo de ser loucos, fora da conotação pejorativa, para encarar aquilo – dias atrás, aliás, a Juliana Tesser abordou motivos da “Isle of Man” no Grande Prêmio.

Sem mais delongas, reproduzo o que rascunhou o ilustre causídico.

DIÁRIO DE UMA CORRIDA ANUNCIADA

Ler Heródoto em seu livro HISTÓRIA é sempre um prazer, especialmente a parte em que relata os PORTÕES QUENTES – TERMÓPILAS, talvez a batalha mais emblemática e representativa que já houve entre duas nações.

De um lado o poderio bélico, humano, escravizador da PÉRSIA, do outro os infinitamente inferiores em número, os Gregos, ou melhor, os ESPARTANOS. Não uma simples nação, não um simples povo, não um simples grego, mas a elite de guerreiros do mundo antigo, a falange que fazia os inimigos recurarem apenas com seus mantos escarlates balançando ao vento. Liderados por LEÔNIDAS o mais lendário REI de toda a Grécia e seus 300 guardas pessoais, seus 300 Lacedemônios, seus 300 homens SEM MEDO.

Mas isso é passado, e até hoje achei que não existissem mais “espartanos”, achei que “homens sem medo” não fossem mais forjados, “ledo engano”, eles ainda existem e uma vez por ano, há mais de 100 anos se reúnem em uma pequena ilha do Mar da Irlanda entre a Inglaterra e a Irlanda, denominada “ILHA DO HOMEM” – melhor, ISLE OF MAN, onde “os sem medo” se encontram.

Esta remota ilha de descendência viking e celta, com governo próprio e membro do Reino Unido, também conhecida com ILHA DE MANX, que ainda guarda resquícios dos navegantes guerreiros que a habitaram, é palco da mais “cult” de todas as corridas de motos do mundo, a mais mortal.

Com mais de 100 anos de existência o TT (TOURIST TROPHY) DA ILHA DE MAN, é hoje e sempre, a mais perigosa, incrível e “espartana” corrida de motos de todo planeta.

Lá se vão uns 30 anos que ouço falar da ILHA DE MAN, especialmente por aquelas fotos fantásticas do MIKE HAILWOOD, principalmente aquela que aparece saltando na Ballaugh Bridge (parte do circuito da ilha), porém, sempre me foi algo um pouco surreal, insólito, impossível, quase que apenas uma “lenda”, um conto, uma utopia, um “não alcançar”.

O tempo realmente muda as pessoas, altera seus valores, suas prioridades e por vezes, as remete novamente à tempos idos. Voltei a ser adolescente, sonhar com algumas coisas, ir para a ILHA DE MAN, sim, ver a corrida da MORTE, onde mais de 200 guerreiros (pilotos) já pereceram, onde “os sem medo” habitam uma vez por ano.

Primeira regra, não organizar muito. Já aprendi que se organizar muito além de ter uma grande probabilidade de não dar certo, pode mesmo nem acontecer. Não organizei, apenas falei para amigos, parceiros, irmãos de moto, “eu vou para a Ilha de Man… vamos?”

Evidente, mais de 1000 falaram que iriam, já aprendi também que a empolgação inicial vai se reduzindo na mesma proporção que se aproxima a data, o que comigo acontece ao contrário.

Sabia… Fiquei sozinho, quer dizer, parceiros nunca ficam sozinhos, meu filho disse SIM, opa, um SIM de respeito, meu sangue, meu eu… ou melhor meu “ele”.

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Em dois, isso é ótimo, para a Ilha de Man com Lucas, que mais desejaria eu?

Mas onde mesmo fica tal ilha, começaram as dificuldades, lá no nada, como ir, como chegar, como curtir, como viver a Ilha de Man.

Dificuldades foram feitas exclusivamente para a gente vencê-las e dar risadas disso.

Vou a Londres, depois de trem a Liverpool (de trem para ser um pouco “mochileiro”), dormiremos em Liverpool e no outro dia de avião para a Ilha. Sim… descobri que a Ilha de aproximadamente 70 mil habitantes, tem um ótimo aeroporto e igualmente descobri que saem voos de Liverpool para a ilha, pronto solucionado o problema, porque de “ferry boat” os horários não estavam dando certo.

Veríamos então, um dia de corridas, dormiríamos lá, e voltaríamos no outro dia para Liverpool, para o “Cavern Club” e tudo o mais, Beatles, turismo, “coisas normais”.

Internet faz milagres hoje para essas viagens desconhecidas, porém nem tudo é como se quer. Ingressos, isso não é tão fácil em qualquer lugar do planeta e muito menos numa pequena ilha dessas, onde a prova de motos é tão tradicional quanto antiga e é a própria personalidade da Ilha.

Vasculhando detidamente o site, achei aqueles melhores ingressos (já que vou, que seja no melhor lugar), direito a alimentação, lugar privilegiado e tudo o mais, lógico, muito caro, mas pensando como na primeira vez que ria ver a “corrida maluca” decidi pagar, comprei dois, isso há três meses antes da data da corrida.

A confirmação de compra veio imediatamente, os tickets não!!!!!

Faltando 30 dias para a prova… ainda sem fechar o pacote da viagem, porquanto nada de tickets. Sem ingressos, sem corrida, sem ida a Ilha de Man, sem nada …

Achei que talvez tivesse havido falhas no pagamento, vez que não foram debitadas no cartão, o que fazer? Fácil… comprar novamente, outros dois tickets e pronto, resolvido.

Nova confirmação de compra, porém também não vieram, o que é pior, também nada de débito no cartão de crédito, ou seja, a transação não foi concluída, novamente “… sem ingressos, sem corrida, sem ida a Ilha de Man, sem nada …”

Mas não me rendo fácil, desisti dos tickets, iria sem eles, porém agora um problema ainda maior, não haviam mais vagas nos hotéis, nem que desejasse ficar no sofá da recepção. Dormir onde ? Opção número um, dentro de um PUB, mas lá os PUBs fecham as 11 da noite, que tal no aeroporto, boa opção se ficar aberto também, sei lá, algum lugar iria encontrar, ou compraria uma barraca lá…

Decidido também, vamos sem hotel, dormimos em algum lugar, aeroporto, delegacia, portaria, barraca…

Pacotes fechados, pagos, concluídos, porém sem ingressos e sem hotel para a ilha.

Dois dias antes da data aprazada para a viagem, eis que aparece o débito no cartão de crédito, ILHA DE MAN cobrando os tickets, bem, pelo menos saberiam que paguei, levaria junto o comprovante do cartão, confirmação do email, e tudo o mais.

Um dia antes da data fatídica, procurando 24 horas os hotéis para a ilha, abriu um único quarto em um hotel longe de Douglas (capital da Ilha), ou seja, longe da cidade… que podemos fazer, é esse mesmo, em Glen Helen, pelo menos o nome é bonito.

Agora sim, tudo certo, ou quase, ainda sem os tickets.

Contar a chegada e Londres e ida até Liverpool é enfadonho, tem mais brasileiros nesse “trajeto” que britânicos.

A mudança ocorreu no aeroporto John Lennon de Liverpool, na fila do check-in para a Ilha de Man, figuras estranhas começaram a aparecer. Grupos, amigos, pessoas de idade média acima dos 35 anos, tatuagens era a regra, alargadores de orelhas, brincos, jaquetas escritas “Road Racing”, éramos, eu e o Lucas, um pouco “fora do contexto”, olhados com uma certa recriminação.

Mas falar que éramos do Brasil e que viemos para ir a Ilha, que viemos para ver as CORRIDAS DE RUA, abria sempre um sorriso de alívio entre os britânicos, pai e filho vindo do Brasil para ver as corridas, algo inusitado, no mínimo estranho, ou quem sabe até duvidoso.

O avião e os 40 minutos que nos separavam da ilha pareceram como uma viagem à lua, o que iremos encontrar, como iremos encontrar, onde iremos estar, o que iremos ver.

Que angústia o momento de sair do avião, certo receio pelo prazer de ali estar, medo de se frustrar, insegurança, e respeito, essa é sempre a regra em lugares estranhos, respeito!!!

Táxi é ainda a melhor opção quando não se tem uma autolocomoção, não se sabe direito onde ir e … tem que pedir ajuda, para isso os taxistas são os melhores guias.

Os táxis londrinos, negros e carrancudos estavam ali também, bem como seus motoristas simpáticos e … velhos…

Vamos do aeroporto à Douglas, sabia que lá ficava nosso lugar, pedimos que nos levasse ao paddock, e durante o trajeto encorajei-me em perguntar se a “pista” ficava longe, onde era, e a resposta foi certeira, rápida, inglesa: “estamos sobre ela”… isso faltando pouco mais de 45 minutos para a largada da categoria principal, gelei de certa forma, estava de táxi rodando sobre onde DUNLOP, HAILWOOD, AGOSTINI e McGUINNES pilotaram.

Chegamos, vamos a pé o restante dos 200 metros, queria já ir ao paddock, tirar foto das motos, pilotos, mas… e os tickets… vamos então à área VIP, cuja recepcionista de pronto nos recebeu com um largo sorriso britânico (coisa estranha isso). Bastou citar meu nome, BITTENCOURT, e ela logo sorriu: “a sim Mr. BITTENCOURT, seus tickets, brindes, revistas, panfletos, bolsas, estão em seus lugares na mesa 21, podem sentar e aproveitar”.

Ufa!!!! agora sim, havia começado o TT para nós!!!

Lucas ria imotivadamente, eu também por dentro, estávamos ali, no TT DA ILHA DE MAN e o que era melhor, no lugar mais privilegiado de todos, ao lado de Mark Webber, Eric Bana, e vários pilotos da MOTO GP, com comida e bebida “free”, telões, fones de ouvido para acompanhar a narração das corridas pela rádio local, em um inglês britânico incrível e divertido.

Uma mesa privilegiada, sentamos: nós, dois brasileiros, dois australianos, um americano e um neozeolandês… todos falando de … motos, do TT, da prova mais incrível do mundo.

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Olhamos um para o outro, eu e o Lucas, ainda com a mochila nas costas, pensamos e falamos ao mesmo tempo, VAMOS AO TT.

Largamos tudo ali, inclusive nossas coisas, e fomos conhecer o TT, conhecer o que tem de assustador ali.

A organização, como poderia se esperar é britânica, com o paddock aberto ao público, para que o contato com os pilotos, equipes, mecânicos, seja autentico, verdadeiro, real, e emocionante.

Cada equipe com seus boxes montados por elas mesmas, em tendas, caminhões, moto-homes, de forma que o colorido é espetacular, ali mesmo estão os pilotos, suas máquinas, suas roupas, suas histórias, seus mitos, seus sonhos, tudo.

Junto a isso, uma enorme feira de produtos da marca do TT, e de outras marcas de produtos motociclísticos, tudo sempre muito organizado.

Nossos tickets davam direito ainda a arquibancada bem em frente aos pits, e a reta da cidade de Douglas, a “reta dos insanos”.

A pista em si é inacreditável, não existe qualquer preparação de asfalto, ou mesmo em curvas ou retas, não fosse algumas proteções de feno em alguns lugares (bem poucos), e não se poderia notar que ali, em questão de minutos, seria palco de uma assustadora prova de motos, a mais assustadora, a mais incrível, a mais lendária.

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Até minutos antes das largadas, a “pista” ainda é estrada, ruas e alamedas, sou seja, até minutos antes da prova, pode-se transitar tranquilamente pela pista, assim como minutos depois também.

O percurso realmente é suicida, assim como toda a prova é um exercício de suicídio.

As 37, 7 milhas que fazem o percurso, são assustadoras, com curvas espremidas por meio-fio e muros, postes e caixas de correio, cercas e pequenos muros de pedra, tudo faz crer que, andar ali só se for a 60 km/h e de carro, até de bicicleta seria perigoso.

178 milhas por hora!!!!!!!!!!!! É o que vimos passar as motos, com os pilotos à meio metro dos muros, a centímetros do público, dos postes de iluminação, das cercas… literalmente encostando os joelhos “na morte”.

Por isso citei os espartanos no início, cuja excelência era a guerra e a glória, por vezes a morte.

Não muito diferente de um John McGuinness, multi campeão do TT, um homem “no fear”, todos os são, todos aqueles que, sentando em suas motocicletas, desde há cem anos, tem – não a coragem – mas a verdade ausência do medo, de correr na ILHA DE MAN, de correr no TT, de desafiar a eles mesmos, de desafiar os deuses, de desafiar a ILHA, de dizer ao final, VENCI, não a prova, VENCI ao medo, “derrotei Fobos”.

Largar no TT já é uma vitória das mais gloriosas, terminar o TT é ser um DEUS, é adiantar-se à um outro patamar de compreensão de seus sentimentos, é desafiar a própria evolução humana, igualando-se à Aquiles, o semi-deus sem medo.

A simples lembrança dos momentos que lá estivemos, faz gelar os músculos, faz sentir novamente aquela euforia de poucos, a euforia da glória, da vitória, da superação em si.

Quando vimos McGuinness passar a nossa frente em sua primeira volta, sentimos que, qualquer outro esporte a motor, qualquer outra prova de moto ou carro, tinha ficado “sem graça”, relegada ao “nada”, tinha ficado normal, corriqueira, rotineira, humana e sadia, porque o TT mostrava, naquele momento, porque era inumano e INSANO.

A cada volta, sabíamos que eles, os pilotos, tinham chegado mais perto do Olimpo, tinham vencido os “Imortais de Xerxes”, derrotado os “Persas”, tinham se aliado a Leonidas e seus 300 espartanos.

Terminou… o DEUS BRETÃO venceu novamente, John McGuinness venceu mais uma vez a SUPERBIKE, é uma lenda, é mais, é um verdadeiro DEUS do motociclismo, estava agora ali conosco, para fotos, conversas, palavras e APLAUSOS, muitos APLAUSOS, na verdade mais que isso, REVERÊNCIAS DE REALEZA.

Mais um desafio ainda por vir… a prova de SIDE-CAR, o cúmulo da coragem, da sincronia entre piloto e seu passageiro louco.

Jamais imaginei que iria ver ainda um side-car correndo, e vimos, em verdade vimos o improvável, porquanto parece realmente improvável que aquele veículo estranho de 3 rodas consiga andar no TT, e não só anda como corre e muito rápido.

O side-car de competição é algo muito estranho, é como se um homem corresse com uma grande mochila nas costas. Ele não se parece com nada ao não ser… um side-car.

O piloto é coadjuvante nesse veículo estranho, a grande sensação e mentor das curvas é o passageiro, que parece o tempo inteiro ser um bailarino em coreografia pós-moderna.

O corpo do passageiro é que define tanto a tomada, como o ângulo e saída de curvas, em verdade é ele que de certa forma dirige a moto.

Se andar acima dos 200 km/h com os joelhos raspando o meio-fio já é assustador, imagine então fazer isso com o corpo inteiro fora do side, quase arrastando no asfalto e tentando não deixar o veículo tombar, inumano, acho q isso define bem.

Menos voltas…, apenas três… talvez mais adrenalina, tínhamos visto parte da história do motociclismo, uma corrida com os incríveis side-cars de velocidade, máquinas futuristas, estranhas, diferentes, que mexem inclusive com a imaginação de qualquer um.

E agora… tínhamos cumprido nossa missão, vimos a principal prova do TT, a SUPERBIKE, vimos McGuinness vencer novamente, vimos o que tem de mais assustador no TT, a mais veloz, a mais mortal, vimos o verdadeiro TT.

Hora de voltar a ser normal, hora de voltar a ser humano, hora de sair do TT, hora de novamente caminhar como homem pelo asfalto dos deuses, e é isso que fizemos, fomos caminhar onde minutos antes era pista, e estava lá, o asfalto normal, as ruelas normais, os muros, cercas, postes de luz, tudo no seu devido lugar, já não eram mais parte de um sonho fantástico, voltaram a ser só objetos de uma rua normal, e isso é que deixa tudo ainda mais irreal, em segundos a pista mais mortal do planeta, torna-se rua para carros e motos comuns, táxis, caminhões, vidas normais, depois que os deuses ali desfilaram seus bólidos biciclos.

Fizemos questão, eu e o Lucas, ficamos parados no meio da rua, olhando o asfalto e não acreditamos que vimos tudo aquilo, não eram mais laços de sangue que nos prendia, era agora a confirmação verdadeira de que “o impossível existe” e pode ser alcançado, nos tornamos ali, nos asfalto da ilha, em IRMÃOS …

Não tínhamos mais uma única mochila nas costas, agora eram várias, compramos de tudo, tudo o que podíamos carregar, vamos para o hotel, dormir uma noite na ilha, e ainda tivemos uma grata surpresa.

“Glen Helen”, nome do nosso hotel, era também nome de uma das perigosas curvas do circuito, e ficava localizado bem nesta curva, dormimos (mentira ninguém dormiu na ilha aquela noite), a poucos metros da pista, do asfalto sagrado, o caminho dos campeões.

Mas ainda antes de dormir, uma volta por Douglas, a capital da Ilha, onde os Pubs e restaurantes não comportavam uma única “alma viva”, porque certamente as almas do pilotos que pereceram em Man, estavam ali bebendo cerveja, e rindo de nós.

Frio, uma chuva fina, olhávamos tudo, todos, com atenção, com respeito, com carinho, sabendo que éramos parte da Ilha agora, estávamos entre os poucos que ela – a ilha – recolheu, recebeu, aceitou.

Entramos em todos os bares e restaurantes que pudemos, não para beber, apenas para ver, sentir, ouvir a “ilha cantando”, festiva como um festival de “sortudos ganhadores” de qualquer coisa, ou melhor, “ganhadores do êxtase de ver o TT”.

Vamos ao hotel, ao nosso “quartinho” espremido no sótão de uma casa branca, onde ainda podemos falar com Italianos, Espanhóis, Ingleses, e outras nacionalidades “não identificadas”, todos pertencentes a uma única nação, a nação do TT.

Hora de fechar os olhos, que pena, amanhã aeroporto e voltar a Liverpool, era quase um choro, só para explicar, passamos o resto da viajem falando:

QUE SAUDADE DA ILHA…

Desculpe, Martin

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CASCAVEL – Tudo que o garotinho Martin pedia era pra raça humana deixar de ser besta.

Tudo que Martin queria era respeito entre as pessoas, era disso que precisava para o brilhante futuro com que devia sonhar. Sua mensagem era tão utópica quanto óbvia. Tudo que Martin esperava era ver cada homem e cada mulher tratando de sua própria vida e das vidas dos que lhes são próximos. Queria ir para a escola, aprender, brincar, conhecer outras crianças, poder receber seu presentinho de aniversário todo ano, crescer, e se tudo isso desse certo passar um bom exemplo aos filhos dele, e às pessoas de seus círculos.

Martin, ontem, esperava o pai ao fim de uma corrida. Queria premiar o pai com um abraço. Em vez do abraço e do afeto que tanto quis retribuir, recebeu os estilhaços da estupidez. E deixou, em vez do gesto de carinho que tinha preparado, um rombo enorme no coração das pessoas que amou e que o amaram e amam.

Vejo a foto do Martin, a quem obviamente nunca conheci, meus olhos enchem d’água. Largo mão de tudo que me prende até agora no ambiente de trabalho e vou embora pra casa levando nas costas o peso do fracasso.

Desculpe, amiguinho Martin. Não conseguimos atender seu pedido, um pedido tão simples e tão cheio de amor. Nós, a raça humana, não servimos pra merda nenhuma.

Torrão feelings

CASCAVEL – O Marcelo Ramaciotti, que se não é deveria ser secretário das boas cervejadas da cidade de São Paulo, estava todo pimpão dias atrás. Fez um teste com um carro de corridas em Interlagos, um protótipo da Spyder Race. Estava por certo convencido da inconveniência da pecha de “piloto de autorama gigante” que lhe foi atribuída pelo Rogério Tranjan, um foragido do mundo virtual – Marcelo, ou Torrão, é piloto amador de kart.

Não tenho nada a ver com isso, e piloto testando em Interlagos sempre há às pencas. Até o dia em que vi algumas das fotos do Torrão na pista, e reproduzo algumas aqui nesse post. Todas foram feitas pelo Fabrício Vasconcelos. Nenhum mérito a eles – nem ao Torrão, nem ao Fabrício. Mas ao número do carro, o 66. Todos os carros de corrida do planeta deveriam ter esse número, o mesmo que eu usava quando fazia na pista as besteiras que o Torrão faz hoje.

Brincadeira à parte, queria ter estado lá. Conheço o Torrão o suficiente para atestar que lhe tenha sido, mesmo, um momento bastante especial, conforme ele próprio narra a seguir.

OS SONHOS

Desde pivete, amo o automobilismo. Minha mãe conta que quando tinha 5 anos, andava a milhão com meu velotrol cantando o “tema da vitória”. O grande culpado disso foi meu pai, que sempre me levava para Interlagos, ainda quando criança. Ainda bem, fui mordido pelo vício mais gostoso do mundo. Pena ser um dos mais caros, também.

Com o passar do tempo, sempre estive ligado na frente da TV, revistas e arquibancadas de autódromos e kartódromos por aí. Já aos 20, virei sinalizador em Interlagos. Aquilo era o mais próximo que já havia chegado das máquinas e pilotos que cresci venerando e babando de longe. Sempre pensava como seria ter meu próprio macacão, capacete personalizado e todos os equipamentos que um piloto precisa ter, mas nunca imaginei tê-los. Como sinalizador, eu podia, e precisava, usar meu carro para me locomover dentro do autódromo, e isso me obrigava a passar por alguns trechos da pista, obviamente. Entrar ali pela primeira vez, em 2003, mesmo que com meu Celta 1.0, foi a realização de um sonho que me tirou o sono por alguns meses, e quase o emprego de sinalizador também, já que o trecho que deveria ser percorrido transformou-se em algumas voltas no templo.

A partir desse dia, tinha alguns objetivos no quesito automobilismo. Voltas “rápidas” em Interlagos, eu já havia feito com meu super carro de rua. Depois, queria andar em um carro rápido lá, mesmo que como passageiro. Esse foi o Otávio Mesquita que realizou, com seu Porsche GT3 de rua em 2004. Os próximos eram abusados. Queria correr alguma categoria não amadora, nem que fosse de kart. Como muitos já sabem, disputo a Copa SP de Kart pela equipe ModerFast desde 2010. Depois disso, passei a viver meus fins de semana em autódromos e kartódromos, fosse para correr, assistir, ajudar, fazer rádio dos amigos ou o que quer que fosse. Outro desses objetivos abusados, era guiar um carro de corrida, seja qual e onde fosse. Piracicaba, 2011, lá estava eu andando de Stock Jr. Mas ainda faltava um… Andar em um carro de corrida em Interlagos. Maio de 2012, sentei pela primeira vez em um Spyder, para um treino em Interlagos, num carrinho fantástico de mais de 220cv, onde pude finalmente sentir a real sensação do que é ser piloto.

O teste
Data e hora agendada, carro e inscrição fechados, lá vou eu para Interlagos. Capacete lustrado, macacão de nomex emprestado, cheguei ao autódromo por volta das 8 da manhã, para o teste que aconteceria às 10. Estava tenso, obviamente. Aliás, fico tenso sempre que vou andar de qualquer coisa, pode ser até kart indoor. Essa agonia só passa quando ligam o motor da barata e me mandam acelerar.

Instalei a GoPro para registrar os momentos, me troquei, peguei uns toques com os amigos pilotos que lá estavam e esperei o horário de abrir box. Como o custo da brincadeira é alto, dividiríamos o teste em 4 pilotos, e andaríamos pouco mais de meia hora cada um. O primeiro a sair do box com a máquina foi o Antonio de Luca, outro ModerFast, que seria responsável por amaciar o motor e câmbios novos por umas 3 ou 4 voltas e para depois sim acelerar como deve ser. Enfim, chegou minha hora. Depois de umas 10 voltas, o amigo encostou o carro e era minha vez. Vesti capacete, Hans, luvas e os mecas me afivelaram no carro, que é muito confortável, aliás. Já entrei em vários carros de corrida, mas nenhum havia aceitado tão bem meus quase 1,90m. Isso foi bom, me senti a vontade ali dentro. Segundo relatos dos amigos Fábio Vianna e Fabrício Vasconcelos, minha mão ao arrumar o retrovisor parecia de alguém que está nu nos Andes. Eu nego tal nervosismo extremo.

Liguei o carro, engatei primeira e… O diretor de prova veio me tirar dele, havia esquecido de assinar a inscrição. Toca descer do carro, correr na torre e arrumar o que estava errado. Voltei pro carro, me amarraram de novo, liguei a barata, engatei primeira, segunda e quando estava na saí da de box, bandeira vermelha, me barraram. Perguntei o que estava acontecendo e o fiscal me avisou que era um carro que estava pegando fogo na pista, depois de um acidente. Olhando para ele, me lembrei de quando eu estava ali, olhando para onde eu estava agora, dentro do carro, desejando aquilo como jamais desejei algo em toda minha vida. Por um certo momento, desejei novamente ser fiscal. Juntou o nervoso com um certo medo e aquele pensamento de que alguém estava me avisando para não fazer aquilo batia na minha cabeça como um martelo. Mas eu sou teimoso, e como sou. Bandeira verde novamente, lá vou eu para a pista. Desci a saída dos boxes, entrei na reta oposta e acelerei. Meu Deus, que susto. Como aquele carrinho anda… Aí a veia de piloto maluco falou mais alto. Todo o receio, medo, nervoso e qualquer sentimento ruim ficaram nos boxes. Aos poucos fui me soltando e curtindo cada minuto da brincadeira. Uns sustos, umas quase rodadas e apertando o da direita cada vez mais. Foram 3 voltas e logo o motor começou a falhar, até apagar no fim da reta e me fazer estacionar depois da primeira perna do S do Senna e ser rebocado de volta. Problema na bomba de combustível. Arrumaram e voltei para a pista no próximo treino, o das 13 horas. Mais confiante, saí com a idéia de entender o carro e tentar fazer alguma coisa que não fosse vergonhosa para com o cronômetro, volta a volta, afinal de contas, ainda tinha umas 10 pela frente. Primeira volta, virei 1’59”344. O tempo desse carro, com pneus novos e um piloto profissional guiando é de 1’44”. Estava longe disso, mas sabia exatamente onde poderia ir mais longe e pretendia chegar o mais perto do tempo ideal que pudesse. Na segunda volta, menos 5”, 1’54”290. Na terceira, abusei um pouco mais e dei uma bela atravessada no Lago. Tomei um baita susto, achei que fosse de frente nos pneus, mas nem rodei e fui embora. Cruzei com o mesmo tempo da primeira volta, mesmo com o incidente narrado. Na quarta volta vinha para baixar mais uns 4”, mas infelizmente a bomba foi pro espaço de novo na junção e tive que encostar no box, me arrastando. Foi o fim do dia para mim, afinal, mais pilotos queriam brincar, e eu não era o dono da bola.

Foi pouco, mas foi muito. Achei que esse objetivo seria alcançado aos 40 anos, ou próximo disso, quando pudesse bancar minha brincadeira. Se aconteceu, é porque tudo está dando certo e isso é sinal que posso criar objetivos ainda mais “difíceis”. E eles já foram criados, tenham certeza disso.

Em breve, quem sabe, volto para contar a experiência de realizá-los.

Virtudes e saudades

Hoje faz dez anos que perdi meu pai.

A passagem dos intervalos de tempo costuma dissipar aos poucos os motivos do passado, mas pai, como irmão, mãe, filho, não é algo que se esqueça. E invariavelmente lembro do meu, e sempre dá uma vontade danada de chorar. Algo como um desabafo solitário.

Não estive tão perto do meu em seu fim de vida. Estava ocupado com coisas com que ninguém deve se ocupar e não estive presente como deveria, como ele gostaria que estivesse, durante a doença que o levou. O tempo passa e dissipa as coisas; isso é fardo que não se dissipa, e a sensação de dívida pesa.

A vida e seu fim são coisas estranhas. Todos temos a respeito teses e crenças a que, a fundo, não sabemos quanto crédito dar. Meros palpites a que tentamos conferir alguma verossimilhança. Tento evitar os clichês, mas não foram poucas as vezes, nesses dez últimos anos, em que senti a presença do meu pai. Soa estranho. Cheguei a vê-lo, sentado numa cadeira, como que me olhando. Fiquei atônito com aquilo, até que sua imagem desapareceu e disso, acho, não falei até hoje com ninguém.

Senti-o perto, de verdade, quando nasceu o Luc Júnior. Seria impossível não elevar algum pensamento à memória dele naquele dia, o dia em que talvez pudesse ter a maior alegria da vida, a de tomar o neto nos braços. O menino chegou, a vida já tinha ido. E, volto ao clichê, senti que estava ali, conosco, quase que como podendo nos abraçar. Talvez nos tenha abraçado.

As pessoas vão, a vida continua até quando achar que deve. A saudade revela virtudes dos que se foram, coisas que não se reconhecem em tempo hábil para as devidas manifestações de admiração, gratidão. Relembrá-las, ao fim das contas, acaba sendo um exercício eficiente para que tornemo-nos melhores.

E lá se vão dez anos sem o seu Neinha. Saudades, pai. Não sei como funcionam essas coisas, mas talvez a gente ainda se encontre num plano qualquer por aí. Por enquanto, vá desculpando qualquer coisa.

Nada a declarar

Fico preocupado quando sou interpelado por abordagens na internet, ao telefone ou mesmo no boteco onde tomo meu café amargo, sempre acompanhado de um gorduroso pastel, sobre o BLuc. Sim, acredite, você não é o único que acessa este espaço macambúzio. Há uma horda de desocupados que vez ou outra, ou diariamente, bisbilhotam por aqui atrás de algo que não lhes vai servir para absolutamente nada.

Hoje fui defenestrado moralmente por conta do hiato de quatro ou cinco dias desde a última publicação, essa aí de baixo, que trouxe uma visão isolada de Eduardo Homem de Mello. “Já li aquele texto do Edu três vezes”, bradou o incauto leitor, enquanto tratava de me filar um cigarro. Cheguei em casa até disposto a preencher alguns pixels (é isso?) com minhas solicitadas considerações sobre qualquer coisa. Cheguei à triste conclusão de que não tenho nada a dizer, nem a compartilhar.

Comentei isso com a Juli. Para minha surpresa, ela falou que é bom sinal. Observou, a patroa, que é a segunda vez no ano que eu desligo do mundo, e disse que a primeira foi na Copa do Mundo. Na Copa? Até agora não entendi, até porque acompanhei a Copa de cabo a rabo, mesmo sem entender patavinas de futebol, mas a constatação dela foi de que na Copa eu desliguei. Preciso desligar mais vezes, é a recomendação dela, com a qual concordo perfeitamente.

Não há recorte temporal mais propício para desligar que o de agora. Além de ser tempo de caça ao voto, época em que todos fingem a si próprios que nada veem, nada ouvem e nada dizem, é feriadão prolongado, um conceito furado que só deve ter alguma validade em culturas deploráveis como a desse pedaço de terra que ocupamos.

Sim, um dia relegado no calendário ao espaço entre um domingo e um feriado tem de ser, também, um feriado. Não damos fins decentes aos dias e horas que temos, sobretudo quando essa decência possa estar atrelada a trabalho. Não gostamos de trabalhar, até porque temos a quem atribuir a culpa pelo estágio calamitoso em que as coisas se encontram por aqui. Isso é fato com o qual todos concordam, cada qual à sua maneira. Como esperado, portanto, não acrescentei nada de novo a ninguém.

Poderia, a rigor – e com o perdão pelo trocadilho quase involuntário -, só transcrever uma frase de uma letra de Roger Moreira, o eterno líder do finado Ultraje a Rigor, um sujeito que se faz conhecido pelo QI alegadamente estratosférico: “Eu não tenho nada pra dizer / Também não tenho nada pra fazer / E só pra garantir este refrão / Eu vou enfiar um palavrão”.

Roger fechava seu estribilho com “cu”, mas me recuso a escrever cu. Ou, na versão apavorante que se vê em portas de banheiros e em pichações em geral, cú, com um acento inexistente e inaceitável. Foi Maurício Menon, professor de português dos tempos de faculdade, quem chamou atenção para o acento no cu nas pichações. Homem alinhado e de postura, corou quando abordou o assunto, disso lembro bem. Portanto, termino sem apelar para cavidade retal nenhuma.

Só o que eu queria dizer nesse post era absolutamente nada. Não sei se consegui. Roger Moreira já disse tudo. Aliás, sempre achei que o título da tal música fosse “Cu”, e procurando-a agora na internet vejo que é “Nada a declarar”, mesmo título que já tinha dado a essa inútil pensata. Não tenho um QI compatível com o de Roger. De modo que, para continuar sem dizer nada, recorro à sua obra: