Trote acadêmico

“Moço, uma moedinha?”.

“Hoje, não”.

Nem hoje, nem nunca. Não foi de uma criança faminta que acabei de ouvir o pedido, mas de duas calouras, como dizem, que acabam de ser aprovadas em algum curso de alguma faculdade, não me dei ao trabalho de perguntar quais, e que foram postas na rua, cobertas de lama, a pedir trocados para pagar a cervejada dos veteranos, como também dizem.

Exceção feita a ações bem sacadas que envolvem campanhas por doação de sangue, arrecadação de donativos para instituições assistenciais e benevolências do gênero, vejo no trote universitário uma das práticas mais imbecis que já se ousou implantar.

Parece-me até que tenha sido definida como crime, é só uma impressão, o que não muda absolutamente nada, visto que nesse nosso país de merda caga-se e anda-se para o que fizeram constar da Constituição.

Se estudantes sujeitam-se a tal, é problema inteiramente deles. Os universitários de hoje, com raras exceções, veem nas faculdades nada mais que botecos com alto índice de frequência – e não há como não ligar a constatação à minha absoluta repulsa à obrigatoriedade que o jornalismo tenta implantar ao porte do diploma universitário.

Cada um faz o que quer de sua trajetória acadêmica, é lógico. Mas não com as minhas moedinhas.

O diploma existe

Ontem voltei ao purgatório. Depois de quase um ano sem aparecer por lá, não dá para negar que até bateram algumas lembranças boas. Alguém me disse que eu sentiria saudades da faculdade. Não chegam a ser saudades, mas senti-me bem estando lá, talvez por não ter qualquer obrigação de permanecer lá por um período determinado por outros seres.

Visitei a secretaria acadêmica, atrás do meu diploma. Nada mais justo do que agilizar o trâmite do diploma, já que passei cinco anos lá dentro por causa disso. O curso dura quatro, mas tranquei a matrícula por um ano porque o Luc Júnior tinha acabado de nascer e porque eu não tinha saco para o terceiro ano seguido deixando a bunda quadrada naquelas cadeiras de madeira, as mais simples, acho que porque a mensalidade de Jornalismo não estava exatamente entre as mais rentáveis para a instituição.

A visita serviu para derrubar um mito. Sim, pude palpar a ocorrência do diploma. Ele existe. Fotografei para tirar a dúvida em casa, coisa que a mim mesmo soou como idiota, já que eu mesmo o vi.

Abro parênteses para comentar um episódio do qual lembrei com essa colocação. Corria o ano da graça de 2000 e o Luiz Silvério, meu parceiro no jornal Motorsport, foi para a Europa pela primeira vez, acompanhar o Jaime Melo na abertura do Europeu de Fórmula 3000, em San Marino. Levou para lá a primeira edição do jornal, que à época chamava-se “Sport 100 Limite”, mesmo nome do programa de automobilismo que ele mantinha na TV a cabo. Em Imola, numa topada nada casual com Michael Schumacher, colheu seu autógrafo na capa de um exemplar, que hoje está devidamente emoldurada na parede de sua sala. Horas mais tarde, no centro da cidade, pediu que o motorista do carro parasse diante de um outdoor que viu. A peça tinha Michael como garoto-propaganda de uma marca de relógios e reproduzia sua assinatura. Silvério quis apenas e tão somente conferir a assinatura com o autógrafo na capa de seu jornal. Disse que era para saber se tratava-se, mesmo, da rubrica do então bicampeão do mundo. Fecho parênteses.

De volta ao diploma, assinei-o. Não precisei conferir minha assinatura em outdoor nenhum, já que não sou garoto-propaganda de nada. Ele, o diploma, segue agora para Umuarama, nome que durante os anos de insistência acadêmica soava-nos como o de um ser supremo e malvado que ocupava uma poltrona elevada e olhava para todos com reprovação, devidamente munido de tridentes e chibatas. Umuarama é a cidade que acolhe a reitoria da universidade que me outorgou o título de bacharéu em jornalismo. E o reitor, acredito, é um sujeito bastante ocupado, já que a necessidade de sua assinatura deixará meu suado diploma pendurado em Umuarama por intermináveis 90 dias. Continuo achando que Umuarama é um ser supremo e malvado.

Nada do que contei aqui é mentira. Nem quanto ao diploma, nem sobre Umuarama, nem sobre a dúvida incompreensível do Luiz Silvério. Talvez tenha exagerado um pouquinho quando disse que fui à universidade atrás do diploma. Eu fui lá, na verdade, para fazer minha inscrição no Acordes Universitários, um festival de música promovido pelo centro acadêmico de História. Participei no ano passado e acabei vencendo, o que me valeu uma câmera fotográfica digital e uma estadia num parque aquático, que nunca aproveitei – demorei para correr atrás dos devidos comprovantes e, quando tentei reclamar meu prêmio, o curso de Turismo, que gerenciava a permuta, já tinha falido.

Queria muito participar do Acordes. Tanto para tentar ganhar de novo quanto para atender ao convite gentil feito pelo Leodefane, o mesmo sujeito que acabou me levando para o mundo do jornalismo há duas décadas, hoje professor universitário. Iria interpretar “Suspicious minds”, do Elvis, ou “Skyline pigeon”, do Elton John, era uma dúvida cruel. Mas a peleia vai acontecer no dia 24, e nesta data vou narrar minhas primeiras corridas de carros fora do país, na Argentina, onde o Porsche Cup vai correr pela primeira vez.

Inscrevi a Juli, que vai cantar qualquer coisa da Paula Fernandes – ela falou o nome da música, agora não lembro. Tomara que ela ganhe. O primeiro lugar vale um laptop, e o meu já dá sinais de que a aposentadoria forçada está próxima.