Sangue cascavelense no box da Williams

Com o atraso de sempre, vai lá um pequeno e insuficiente registro de uma valorosa atuação cascavelense no GP do Brasil de Fórmula 1, domingo lá em Interlagos.

Juraci Massoni, com quem convivi anos a fio no ambiente das corridas aqui em Cascavel, atua pelas bandas de cá como diretor de provas, como comissário, como o que precisar. É, como dizem, pau pra toda obra. No fim de semana passado, trabalhou pela primeira vez na comissão técnica da F-1, lá em Interlagos.

Uma experiência revigorante, segundo relatou ao ex-piloto Guinho Biberg quando encontraram-se em Congonhas para a viagem de volta. Jura estava encarregado de aferições no Williams de Rubens Barrichello, de quem conseguiu um boné devidamente autografado, seu troféu do fim de semana. Consta que recebeu, também, o convite da CBA para ser comissário efetivo.

Se bem o conheço, terá dificuldades para isso, mas vai recusar o convite. Tem empresas e uma vida para tocar, afinal.

Bom saber que o automobilismo de Cascavel esteve representado de alguma forma na F-1. E Juraci Massoni é, acima de tudo, figura de bom trânsito nas searas das corridas. Tem paciência de Jó – se o vi irritado uma vez, foi muito, ainda estou tentando lembrar de algum episódio. Encampou como poucos a questão automobilística em Cascavel, sobretudo nos anos 90, quando empurraram-lhe no colo o abacaxi representado pela presidência do Automóvel Clube.

Sempre que Juraci está num assunto, como tema ou como participante, acabo lembrando do episódio de 25 anos atrás, o acidente envolvendo vários carros na primeira volta de uma corrida de Hot-Dodge, no autódromo de Cascavel. O próprio aparece no vídeo aí abaixo, entre 1min36s e 2min13s, manifestando suas impressões ao então novato João Carlos Gallo (lembram?), da TV Tarobá.


E eu não lembrava que a Band, à época, era “Ban”, como delata a canopla do Gallo.

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O desabafo do Djalma

O vídeo aí abaixo, que estranhamente está sem o áudio, mostra a volta de Danilo Dirani durante o treino classificatório da Fórmula Truck na etapa da semana passada em Curitiba. Foi a volta que garantiu ao piloto sua terceira pole na categoria – em 2010 ele esteve à frente no grid das etapas do Rio e de Londrina; em 2009, ano de sua estreia na categoria com um Volvo, não foi pole nenhuma vez.

A parte que interessa para o contexto de ora, em se tratando do vídeo, dura 15 segundos, entre os 2min13s e os 2min28s. Houve até quem achasse divertida a comemoração de Djalma Fogaça, dono e chefe da equipe. Djalma, Danilo e toda a equipe haviam vivido, momentos antes, uma carga descomunal de estresse – o piloto cravou a volta mais rápida da primeira fase do treino classificatório e, antes do início da Superpole, que devolve os oito melhores à pista para uma caça à pole partindo da estaca zero, teve sua desclassificação anunciada. Largaria em último.


Falei hoje com Djalma a respeito. Perguntei o que lhe passou pela cabeça quando jogou fones, boné, tudo para longe, quando chutou o tambor de lixo. “Aquilo foi um ‘chupa’ bem grande, do tamanho do mundo”, confirmou o ex-piloto.

O intervalo entre as duas fases da tomada de tempos foi mais longo que o habitual. Isso porque, anunciada a punição a Danilo, o chefe de equipe correu à torre para cobrar explicações dos comissários desportivos. Que puseram-se a analisar a situação e anularam a punição, mantendo o piloto da Ford na disputa pela pole, da qual acabaria saindo vencedor.

“Foi um desabafo, sim, a um comissário que fez uma relação com os carros que, na cabeça dele, tinham excesso de fumaça. O que me chamou a atenção foi que, antes da classificação, ele passou no meu box e ameaçou alguns integrantes da equipe, já avisando que iria desclassificar. Só que, pra mim, ele não falou. Isso porque se diz meu amigo. Amigo nessa situação é a casa do caralho”, definiu Djalma, em palavras ásperas.

A desclassificação de Dirani, anulada momentos depois, deu-se pela alegada emissão de fumaça em excesso, uma análise feita pelos comissários técnicos. É uma regra que vale para durante as corridas, também. “Está claro que podemos fazer fumaça, sim, o que não pode é ter um excesso de fumaça, e isso não tínhamos”, esclarece Djalma. “Quando os comissários desportivos acataram o regulamento, fui perguntar a ele o porquê de ter colocado nosso Truck na lista. Rapidinho, ele falou que não foi ele. Covardia”, queixou-se.

Djalma, em nenhum momento, citou o nome do comissário técnico a quem acusa. Eu não estive em Curitiba – aliás, não vou a uma corrida da Truck desde a etapa de Goiânia, em 2009 –, também não fui atrás de saber quem eram os comissários. E fez questão, embora suspeito para abordar o assunto pela óbvia condição de interessado direto, de elogiar a postura dos comissários desportivos na anulação da desclassificação. “E parabéns aos comissários que estavam na torre, que corrigiram um erro que nem deles era. Voltar atrás em certas ocasiões tem mais mérito que apontar o acerto”, filosofou.

Danilo não só conquistou a pole como ganhou a corrida de domingo, o que definiu como resultado mais importante de sua carreira – e estamos falando de um piloto campeão sul-americano de Fórmula 3 (narrei quatro vitórias dele em 2003, nas rodadas duplas de Londrina e Cascavel) e com passagens pela Fórmula 1 como piloto de testes da BAR. Para a DF Motorsport, o resultado pôs fim a um hiato de cinco anos – a última vitória do time havia acontecido na penúltima etapa de 2006, em Tarumã, com o próprio Djalma ao volante. A parceria do time com Danilo Dirani será mantida. “Só ele está confirmado, pode haver mudanças”, revela o chefe da equipe, que neste ano também é defendida pela gaúcha Cristina Rosito.

Djalma Fogaça é uma das figuras que mais admiro no automobilismo. Tem uma história sólida e digna de um livro e não costuma temperar seu discurso com mimos políticos. Lembro bem da entrevista que ele deu ao pessoal do site Carros e Corridas, essa aqui. Falou o que tinha para falar.

E devo a ele, ainda, a edição uma entrevista que me concedeu uns dois anos atrás para uma revista. Acabou não sendo publicada, a revista.

"A regra não é clara", por Edu

Vivo em autódromos pelo Brasil. Novidade nenhuma quanto a isso. Frequentar autódromos, a exemplo de absolutamente todas as outras coisas, traz atribulações. No meu caso, sempre bastante trabalho a executar. Mas também há recompensas aprazíveis. Entre elas, a convivência com pessoas que fizeram e fazem e viveram e vivem o automobilismo. Dar exemplos seria indução fácil ao pecado da omissão. Portanto, atenho-me ao nome do único doutor automobilístico, expressão em que pensei agora e que não sei se já foi usada por alguém, que interessa para o contexto de ora.

Eduardo Homem de Mello é das pessoas que tenho orgulho de citar. “Sou amigo do Edu”, digo na roda de cerveja lá no posto, e os colegas que acompanham o automobilismo exclamam “ooooh!”. Não é exatamente assim que acontece, nem perto disso, também inventei isso agora, mas Edu é, sim, uma referência irrefutável quando o assunto em questão tem a ver com corridas de carros. E de motos também.

Conversar com Edu nos bastidores do autódromo – e citá-lo assim não é uma tentativa forçada de demonstrar alguma intimidade, é por “Edu” que todos o chamam – não deixa de ser uma escola. Um curso sobre o mundo das corridas, e que ele não me leia, caso contrário pode desembestar de cobrar pelas aulas que inadvertidamente dá. Esse viveu e vive e fez e faz o automobilismo. Hoje, é verdade, mais fora da pista do que dentro dela, onde atém a permanência do sobrenome às atuações do filho Cássio na Copa Montana.

Num bate-papo recente, Edu falou-me sobre uns rabiscos que tinha escrito a esmo. Pedi para que mandasse-mos por e-mail, assim o fez. Li, liguei para ele, pedi para publicar suas considerações aqui no mambembe BLuc, ao que não apresentou qualquer objeção.

Bom para mim, ao menos. Não é todo dia que se pode preencher uma falta de assunto, ou de disposição para escrever sobre qualquer coisa, com considerações assinadas por Eduardo Homem de Mello. Ei-las, ipsis litteris.

A REGRA NÃO É CLARA

Há algum tempo o telespectador mais atento tem notado algumas situações embaraçosas que o narrador Téo José e eu temos enfrentado durante as transmissões das corridas da Fórmula Truck na Band e Bandsposrts, em decorrência das determinações equivocadas no cumprimento de punições impostas aos pilotos.

Infelizmente a interpretação da regra não é clara, pois permite mais de uma interpretação e quase sempre intuitiva, prejudicando pilotos e confundindo as informações levadas por nós aos milhares de fãs da categoria por todo o Brasil.

Sem entrar no mérito da questão, deixando de lado quem está certo ou errado, é seguro que este tipo de situação duvidosa não pode ocorrer em categoria alguma, muito menos em uma categoria do porte da Fórmula Truck, cuja importância está muito acima da aplicação de punições duvidosas ou incorretas e que muitas vezes determinam o resultado final de uma corrida.

A análise e a punição de uma situação desportiva são feitas pelos Comissários Desportivos e não pelo Diretor de Prova, como equivocadamente algumas pessoas imaginam.

Ao Diretor de Prova cabe apenas ordenar o cumprimento da pena e outras dezenas de atribuições que não vêm ao caso agora, mas é certo que ele não é o responsável pelos equívocos ocorridos ultimamente e com uma certa constância.

Faz muito tempo que venho defendendo a tese e sugerindo às autoridades do automobilismo que convidem ex-pilotos para integrar o time de comissariado das corridas de um modo geral e não só da Fórmula Truck, pois quem nunca sentou em um carro de corrida jamais poderá julgar com maior justiça uma situação de atitude antidesportiva.

Se no futebol temos ex-juízes de futebol comentando a arbitragem, ex-goleiros julgando a atuação dos que ainda estão em atividade, ex-jogadores também contribuindo para uma análise mais clara do jogo, ex-piloto comentando corridas na TV (como é o meu caso), por que então não ter ex-pilotos julgando situações tão delicadas e perigosas como as que vêm ocorrendo no esporte e que, como eu disse muitas vezes, determinam o resultado equivocado de uma corrida?

Na etapa de São Paulo da Fórmula Truck nesta temporada 2010, um verdadeiro festival de absurdos ocorreu durante a prova e eu informando o que estava no regulamento e o corpo diretivo tomando decisões contrárias ao que diz a regra, justamente por ter mais de uma interpretação no regulamento.

Cada categoria tem regras e características próprias e para tal existe o que chamamos de “Regulamento Particular”. A aplicação, o cumprimento das regras e as punições impostas estão devidamente descritos e devem ser obedecidos com a mais absoluta fidelidade.

Nos casos omissos deste regulamento e demais regras comuns ao esporte, deve ser consultado e obedecido o CDA (Código Desportivo do Automobilismo), uma espécie de bíblia onde ao se analisar toda e qualquer dúvida ele se sobrepõe a todos os outros regulamentos existentes, é soberano por sua importância.

Destaco a seguir duas regras essenciais à realização das corridas de Fórmula Truck:

1) Excesso de fumaça: o acerto da mistura de combustível deve ser rigorosamente aplicado pelos técnicos das equipes para que o motor não libere nenhuma fumaça pelo escapamento. Caso isto ocorra, o piloto é chamado ao box para reparar o defeito, cumprindo assim uma punição justa constante claramente no regulamento particular da categoria.
2) Excesso de velocidade no radar: Para maior segurança a categoria restringe a velocidade dos caminhões em um determinado trecho do circuito. No ponto de maior velocidade da pista é colocado um radar e o piloto chega naquele trecho a mais de 200 km/h e é obrigado a reduzir sua velocidade para 160 km/h . O excesso de velocidade é passível de uma punição chamada drive-through, com o piloto sendo obrigado a passar pelos boxes, ou área determinada pela Direção de Prova, em velocidade reduzida.

O texto do artigo 6.5 do regulamento particular da categoria, disponibilizado no site da Confederação Brasileira de Automobilismo, diz o seguinte: “Após todos os pilotos completarem 1/3 (um terço) da prova, o Pace Truck entrará obrigatoriamente na pista (corrida neutralizada), por no mínimo 2 (duas) voltas, com os carros de apoio (serviço), para limpeza e retirada de veículos da pista, sendo permitido a entrada dos caminhões no Box, inclusive para pagamento de penalidades por excesso de velocidade e fumaça.”

Ao interpretarmos o texto acima chegamos à conclusão que um erro absurdo foi cometido na etapa de São Paulo, quando foi permitido que o piloto Leandro Totti entrasse durante a permanência do Pace Truck na pista na área designada para cumprimento de uma punição por queima de relargada.

Percebam que no texto do artigo 6.5 é permitida a entrada do caminhão nos boxes, inclusive para pagamento de duas penas somente, excesso de velocidade no radar e fumaça, sendo omisso no que diz respeito à punição por queima de largada e/ou relargada.

Por esta e outras confusões geradas pelas atitudes confusas dos Comissários, peço desculpas aos telespectadores e tomo a liberdade de me desculpar também em nome do Téo José, que narra o que vê no monitor e no que informo a ele baseado na escuta da comunicação de rádio entre direção de prova e organização.

Além disso, fazemos consultas online sobre regulamento, estatísticas, resultados, etc., tudo com o intuito único de levar ao telespectador a informação com a maior precisão e invariavelmente nos deparamos com informações desencontradas como na corrida em questão.