Dadai: “Desafio é planejar e executar”

CASCAVEL – Faltam menos de 40 dias para a Confederação Brasileira de Automobilismo ter novo titular na cadeira da presidência. Formando em Engenharia de Produção, empresário dos ramos de entretenimento e sistemas de acesso e pagamentos e pai de kartista, Waldner Bernardo, presidente da Federação de Automobilismo de Pernambuco, sucederá seu conterrâneo Cleyton Pinteiro, que está no cargo desde 2009 e finaliza seu segundo mandato. “Dadai”, apelido pelo qual Bernardo é conhecido, obteve 10 dos 17 votos válidos na eleição de 20 de janeiro, em que teve como adversário o empresário e ex-piloto paranaense Milton Sperafico. Num rápido bate-papo com o blogueiro, Dadai esquivou-se de avaliar o saldo da gestão de Pinteiro, sinalizou com o surgimento breve de novas competições no automobilismo brasileiro e indicou, diante da entrevista, que seu compromisso é o de dar respostas a partir da gestão da CBA pelos próximos quatro anos:”Falar e apontar erro é fácil, difícil é fazer e executar”.

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Eleito por 10 votos a 7 à presidência da CBA, Waldner Bernardo assumirá o cargo em março preferindo não comentar a gestão de Cleyton Pinteiro: “Prefiro falar dos próximos quatro anos”

BLuc – A disputa pela presidência da CBA configurou a campanha mais acirrada da história da entidade. Que balanço o senhor faz desse processo?

Dadai – Muito positivo. Pela primeira vez se pode discutir com a comunidade do automobilismo vários assuntos de interesse comum, além de que pela primeira vez uma associação de pilotos teve direito a voto.

 

BLuc – Houve relatos sobre federações votando no senhor em troca do perdão de dívidas junto à CBA. Em que circunstâncias legais ocorreram negociações nesse sentido?

Dadai – Não só desconheço, como o próprio estatuto da entidade não permite esse “perdão”.

 

BLuc – Quais serão suas providências mais urgentes quando assumir a presidência?

Dadai – A nomeação de nossas comissões já mostrará que teremos pessoas extremamente competentes. Não temos uma e nem duas providencias, temos várias, e todas serão tratadas com a mesma importância.

 

BLuc – Como o senhor avalia os oito anos da gestão de Cleyton Pinteiro na CBA?

Dadai – Prefiro falar dos próximos quatro anos…

 

BLuc – Até por ser candidato de situação, o senhor não assumiu grandes compromissos relativos a mudanças. Quais as maiores deficiências do automobilismo brasileiro que o senhor aponta?

Dadai – Responderemos com trabalho. Falar e apontar erro é fácil, difícil é fazer e executar. Esse é o nosso desafio, planejar e executar .

 

BLuc – Considerando kart, arrancadas, rali, velocidade na terra e velocidade no asfalto, quais as modalidades que necessitam de um trabalho mais intenso?

Dadai – Todas têm demandas diferentes e seus respectivos presidentes de comissão terão que identificar e apontar as soluções.

 

BLuc – A velocidade no asfalto é a que tem maior projeção de mídia. Não é de hoje que todas as categorias de nível nacional têm suas etapas mostradas na televisão. Alguns campeonatos regionais também já vêm providenciando o televisionamento de suas corridas. Não seria também uma boa providência para corridas de outras modalidades?

Dadai – Sem dúvida. Porém a transmissão em TV é uma questão comercial. Extremamente necessária, porém comercial. Cabe aos promotores viabilizar estas questões. Temos recebido projetos sobre este assunto e vamos analisá-los. A CBA, como promotora do kart, viabilizou na última edição da Copa Brasil transmissão de algumas finais, graças a parcerias de iniciativa privada.

 

BLuc – Em termos reais, como está o relacionamento da CBA com os promotores de campeonatos de automobilismo regionais e nacionais? Existem situações críticas à espera de solução?

Dadai – Só posso dizer isso após assumir e efetivamente começar a ter esta relação com estes promotores.

 

BLuc – O senhor tem algo em mente em termos de empreender uma gestão diferente de todas as anteriores? Há algo que tenha sempre faltado ao automobilismo brasileiro e que possa ser viabilizado agora?

Dadai – Como falei na primeira questão, nossas comissões trarão gratas supressas, isso será o retrato de como pretendemos gerir.

 

BLuc – Como sua diretoria vai trabalhar no que diz respeito aos problemas dos autódromos? Há situações bem distintas, como taxas consideradas exorbitantes em Interlagos, possibilidade de desativação em Pinhais, a recente interdição de Guaporé pelos bombeiros e, em linhas gerais, uma deficiência de infraestrutura em grande parte dos autódromos brasileiros.

Dadai – Um de nossos desafios é convencer o poder público que automobilismo não é só esporte, mais sim negócio, turismo, geração de empregos. Quando nossos governantes entenderem que provas nacionais e até estaduais geram receitas em suas respectivas cidades e tratarem o esporte como negócio, poderemos sim discutir esses “problemas” de nossos autódromos.

 

BLuc – O Brasil quase ficou sem piloto na Fórmula 1 e isso despertou a discussão sobre a escassez de categorias de base no automobilismo nacional. É o discurso corrente, de que há duas décadas havia os estágios do kart, da F-Ford, da F-Chevrolet e da F-3 e hoje o piloto sai do kart e, a menos que migre para categorias de turismo, salta direto para a F-3. O que fazer quanto a isso?

Dadai – O problema já está no acesso ao kart, nosso esporte é caro e isso dificulta o acesso. Justamente aí é que entra o projeto das escolas, que tem que ser difundido e implementado em todo país. Este trabalho não vai aparecer a curto prazo, ele leva tempo, já estamos trabalhando há algum tempo na implementação de uma Fórmula 4 no Brasil, nos moldes da FIA, de forma concreta e sustentável.

 

BLuc – Uma das queixas mais contumazes dos pilotos diz respeito às taxas de inscrição nas provas e de emissão de carteiras, consideradas altas. É um patamar que pode ser revisto?

Dadai – Luc, vamos separar uma coisa da outra. Quem cobra a taxa de inscrição não é a CBA, e sim os promotores ou organizadores dos eventos. Hoje os custos para se fazer uma prova são vários, os patrocínios estão cada vez mais difíceis. Precisam ser custeados aluguel de autódromo, equipe médica, cronometragem, sinalização, resgate, direção de prova, e por aí vai… Todas estas pessoas envolvidas recebem por seus trabalhos, não tem como ser diferente.

Já com relação às filiações, 50% do valor pago pelos pilotos ficam com as FAUS, e os outros 50% ficam com a CBA, que hoje disponibiliza seguro para todos os seus pilotos. Dou um exemplo prático: para 2017 a carteira PGC-B foi anunciada pela CBA ao valor de R$ 510,00. Como de praxe, as FAUS cobram o mesmo valor da CBA, então esta filiação vai para no mínimo R$ 1.020,00. Mesmo que você considere o valor total e divida isso por 10 etapas, o que daria um valor de R$ 102,00 por etapa, e um piloto fosse a uma seguradora e tentasse fazer um seguro para cada etapa que ele for correr no ano, eu não tenho dúvidas de que ele pagaria muito mais. Ou seja, o benéfico deste valor existe! (Nota do blog: a tabela completa de valores para emissão da Cédula Desportiva Nacional, que chamamos de “carteira de piloto”, está na página 109 do Código Desportivo do Automobilismo, disponível nesse link aqui)

 

BLuc – Até que ponto, no seu entender, a crise financeira dos últimos anos atingiu de fato o automobilismo brasileiro?

Dadai – Não só o automobilismo como todos os segmentos! 100% que atingiu.

 

BLuc – Voltando à disputa pela presidência da CBA… Foi voz corrente durante esse processo que os pilotos de competição deveriam ter participação maior na escolha de dirigentes. O senhor concorda? Considera a possibilidade de promover mudanças estatutárias que permitam, por exemplo, o voto direto aos pilotos? Não seria um mecanismo justo também para definição do presidente de uma federação estadual? A CBA teve mais ou menos 10 mil filiados. A ABPA tem 200, dos quais acho que 36 se preocuparam em votar… Você mesmo é piloto, que eu sei. Você se filiou à ABPA? Alguma vez você já quis saber da eleição de seu clube ou federação onde você fez a sua filiação? Sabes quantas associações no mundo têm pilotos participando? Nenhuma, só aqui no Brasil. Também desconheço qualquer outra confederação que tenha promovido esta abertura. Quanto às mudanças estatutárias, o presidente não tem esse poder, só quem pode mudar é a Assembleia Geral, com o voto das FAUS e da ABPA. Quanto às federações estaduais é a mesma coisa, os clubes que são votantes é que podem propor isso a suas federações.

 

BLuc – Há perspectivas concretas para o surgimento breve de novas competições no Brasil?

Dadai – Sim, acredito que em 2017 teremos pelo menos mais uma categoria nova em nosso automobilismo.

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Dadai nega que tenha havido perdão de dívidas de clubes em troca de votos na eleição para a presidência da CBA: “Desconheço, e o estatuto não permite”

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Fala, Fogaça!

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CASCAVEL – Pode ser chover no molhado, como tanta coisa o foi. Mas vale a tentativa.

O Djalma Fogaça, conhecido e reconhecido como um dos sujeitos com menos papas na língua do automobilismo, vê-se agora em mais uma condição nesse mundinho das corridas: o de pai de piloto. Não é daqueles pais de piloto que vão ao box do lado enfiar a mão na cara do pai do outro piloto, ou que brada aos quatro ventos que o filho é o novo Senna. É pai de piloto, apenas. Do Fábio, que tem dentro de casa uma privilegiada escola de automobilismo.

E é como pai de piloto que Djalma exerceu em seu perfil no Facebook seu lado síndico. Primeiro, movido por uma batida em que Fábio acabou envolvido.

“Isso é muito fácil de resolver, é só a CBA querer”, sugeriu Djalma. “Hoje em dia eles obrigam todos os carros a terem câmeras onboard . Agora eu pergunto, pra quê, se para você mandar verificar sua própria câmera tem de pagar 500 reais?”, questiona, emendando: “Agora é esse o intuito do negócio, as câmeras servirem pra fazer um caixa à CBA?”.

Horas mais tarde, Djalma promoveu outra válida discussão no Facebook. Reproduzo parte dela aqui.

“O automobilismo nacional tem um câncer chamado queima de largadas, batidas sem o menor propósito. Não adianta acusar um ou outro, isso é bobagem e só arruma inimizades de graça. Vou dar uma sugestão para as queimas de largada, e tem como fazer isso eletronicamente: é só controlar o apagar da luz vermelha que está no painel de qualquer carro de corrida hoje em dia, com o pedal do acelerador. Quando o piloto aplicasse mais de 50% do curso do acelerador antes de apagar a luz vermelha, imediatamente apareceria o número do carro ao diretor de prova, que tomaria as atitudes necessárias. Pronto, ‘tá resolvido. O que não é justo, por exemplo, é um piloto que larga em 10º chegar ao final da reta disputando freada com o nego que largou em 20º”, ilustrou.

Bem, temos cá duas questões bem palpáveis. Uma resume-se exatamente a isso, a uma questão: pagar para checagem de um item, no caso a câmera, de uso obrigatório? Questão que, como muitas, outras, deve ficar sem resposta. O outro ponto transcende o questionamento. Propõe a solução para um problema que vai contra o princípio do esporte. Queimar largada é mau exemplo. A solução indicada pelo Djalma não deve custar mais que mil reais. Essa, sim, deveria ser obrigatória em todas as categorias, até para que a margem de erro de comissários desportivos seja reduzida. É de se supor que não vão dar ouvidos à sugestão do Djalma. Custa caro, hão de alegar, enquanto contam os reais amealhados de quem pediu para ter checadas as imagens de suas câmeras onboard.

Acompanhar o Djalma pela internet tem sido interessante. Não só pelos debates que ele propõe como também pelos causos impagáveis que resgata. Rir é preciso, afinal, quando se vive e convive com tanta coisa ruim.

Cleyton Pinteiro: “Não temos poder de polícia”

Cleyton Tadeu Correia Pinteiro, que abriu no início do ano seu segundo mandato como presidente da Confederação Brasileira de Automobilismo, milita no esporte há quase 40 anos. Tomou contato com o meio em 1974, como piloto de kart em Pernambuco – nasceu em Recife, onde vive. Desde então, enfileirou atuações como presidente do Kart Clube, vice-presidente da Federação Pernambucana, diretor da CBA para o Norte/Nordeste, três mandatos na presidência da Federação Pernambucana e outros dois na vice-presidência da CBA, até ser aclamado ao posto máximo da entidade pela primeira vez em 2009.

Empresário do ramo de perfuração de rochas e torcedor do Botafogo, o dirigente de 65 anos, que nunca exerceu cargo político fora do automobilismo – e garante que jamais vai pleitear algum –, aceitou conversar com o blog sobre algumas das questões mais frequentes da atualidade no automobilismo brasileiro. Mantendo uma postura protocolar, esquiva a CBA da missão de promover campeonatos frisando o caráter administrativo e regulador da entidade, atribui o fim de competições a dificuldades comerciais e admite que seu grupo nada mais tem a fazer que solicitações quanto à improvável construção de um novo autódromo no Rio de Janeiro. “Não temos poder de polícia”, alega.

Abaixo, a íntegra da entrevista com Pinteiro.

BLuc – Depois da assembleia que o aclamou a mais um mandato na CBA, o senhor enalteceu as categorias de base do automobilismo. A que o senhor se referia, exatamente?
Pinteiro – Ao trabalho que vem sendo realizado no kart, com a abertura das homologações e a obrigatoriedade de todas as peças serem intercambiáveis, os custos deverão ser reduzidos. Temos também uma iniciativa única no sul do país, onde os monopostos da CBA forma cedidos à FAU gaúcha, após aprovação em assembleia, para a implantação de uma categoria de baixo custo que prioriza o acesso de pilotos vindos do kart. O próprio CDA foi alterado com a criação de uma licença PEC – Piloto Escola de Competição. (Nota do blog: “FAU” é como são chamadas as federações de automobilismo; CDA é o Código Desportivo do Automobilismo)

BLuc – O que pode haver de planos concretos para o automobilismo de base nos próximos quatro anos?
Pinteiro – Do ponto de vista desportivo é o que respondi antes. Do ponto de vista administrativo a CBA contratou uma empresa de recursos humanos, a GI GROUP, e está promovendo uma verdadeira reestruturação administrativa e técnica em seus quadros de oficiais de competição. É uma ação interna que trará excelentes resultados a médio/longo prazo.

BLuc – A Fórmula 3 vive um momento difícil nos principais campeonatos pelo mundo, e aqui tem sido assim já há algum tempo – em janeiro, o Brazil Open teve apenas 6 carros no grid. Qual é a saída para ressuscitar a F-3 no Brasil?
Pinteiro – Como foi muito bem colocado por você, o momento mundial não é favorável. A promoção das categorias hoje depende da captação de recursos e se esses recursos não forem captados a inviabilidade da categoria é notória. A CBA é um órgão técnico regulamentador, e não promotor de eventos. Até temos capacidade para promover eventos. O kart nacional é todo promovido pela CBA. Se necessário o faremos, mas isso não é o foco da entidade.

BLuc – E como o senhor avalia o momento atual do kart brasileiro?
Pinteiro – Em ascensão, com a criação da Copa das Federações, as novas homologações, o fortalecimento dos estaduais. Penso que teremos nos próximos anos um nível técnico desportivo ainda melhor.

BLuc – E quanto ao Brasileiro de Endurance? Os promotores da Top Series tentaram reativar a categoria e se viram obrigados a desistir. Há algum novo formato viável para 2013?
Pinteiro – Sim, inclusive já está no calendário da CBA. Serão utilizadas provas tradicionais, como as de Guaporé, Cascavel, Londrina, Tarumã e Interlagos.

BLuc – Copa Fiat, Fórmula Futuro, Spyder Race e Top Series encerraram suas atividades. As duas últimas, inclusive, antes do término da última temporada. Qual tem sido a principal dificuldade enfrentada pelos promotores?
Pinteiro – Exatamente o que foi colocado numa pergunta anterior, a dificuldade de captação de recursos no mercado.

BLuc – Temos observado que o prometido autódromo em Deodoro tem virado motivo de chacotas. O senhor ainda vê alguma possibilidade de que seja concretizado?
Pinteiro – A CBA, via Departamento Jurídico, utilizou-se de todas as possibilidades jurídicas possíveis para fazer valer as decisões favoráveis à não desativação de Jacarepaguá e posteriormente à construção de Deodoro, porém não temos poder de polícia. Se as decisões jurídicas foram desrespeitadas não foi por falta de esforços da CBA. Existe, sim, um cronograma previsto, e iremos cobrar que seja cumprido, só não temos como garantir que será cumprido.

BLuc – Com poucas exceções, a situação dos autódromos brasileiros é preocupante. Poucos oferecerem infraestrutura e condições de segurança compatíveis com o automobilismo de hoje. É um panorama reversível, esse?
Pinteiro – Sim, porém é necessário que os detentores dessas praças, que em sua maioria são o poder público, entendam que o automobilismo é um esporte extremamente lucrativo para as cidades onde se realizam eventos. Geração de empregos diretos e indiretos, utilização dos mais variados serviços como hotelaria, restaurantes e afins, retorno de imagem… São tantas as variáveis benéficas que um evento de porte nacional traz que justificam plenamente uma ação mais efetiva nesta praça e um investimento real. Só para ilustrar, o maior evento de São Paulo é a Fórmula 1, onde para cada real investido pelo poder público retornam R$ 3,50. É ou não viável? A CBA não detém o controle nem a posse dos autódromos. Caberia, sim, ao poder publico olhar com mais profissionalismo esta situação.

BLuc – Então não é verdadeira a informação que o GP do Brasil gera prejuízo financeiro para o automobilismo nacional?
Pinteiro – De maneira alguma, pois qualquer país do mundo gostaria de ter um GP de F-1.

BLuc – Com relação aos processos de eleições das federações e da CBA, o senhor considera válido o estudo de um sistema em que o piloto, que é o ingrediente principal da receita, tenha direito a voto?
Pinteiro – Os pilotos têm como participar deste processo sim. Basta se filiar a um clube e eleger o presidente deste clube, pois são eles que elegem o presidente da FAU e assim por diante. Não é CBA que tem que mudar isso, teríamos que mudar toda a legislação desportiva vigente. Este processo é idêntico para todas as confederações e federações existentes no Brasil. Caso exista uma mudança e ela seja regulamentada com certeza mudaremos para atender a legislação nacional.

BLuc – Pelo formato atual, o voto de um estado com pouca ação automobilística tem o mesmo peso do voto de grandes centros do esporte, como São Paulo, Paraná ou Rio Grande do Sul. Seria o momento de rever essa relativização?
Pinteiro – Era desta forma e foi alterado, em assembleia e com a anuência de todas as FAUs. Seria justo um voto de trabalhador que recebe um salário mínimo valer menos que o voto de um megaempresário?

BLuc – Qual foi, em sua avaliação, o principal ponto negativo de seu primeiro mandato na presidência da CBA?
Pinteiro – Perdemos um bom tempo para organizar a casa, e isso demandou mais tempo do que esperávamos.

BLuc – E o principal ponto positivo?
Pinteiro – Todo o processo de reestruturação que está sendo feito. Isso é semelhante a obras de saneamento, elas não aparecem, mas são de suma importância a longo prazo. O legado que está sendo implementado é para médio/longo prazo.

BLuc – Quantos pilotos filiados a CBA contabiliza hoje?
Pinteiro – Somos mais de 12 mil. O Off-Road e o kart cresceram bastante, e não há redução significativa em outras categorias.

BLuc – As observações que constatamos dos pilotos em geral, sobretudo dos que não integram as categorias top nacionais, são de que a CBA seria basicamente uma entidade que pratica a burocracia e a cobrança de taxas para emissão de carteirinhas.
Pinteiro – A CBA é um órgão técnico desportivo que regulamenta o esporte a motor em quatro rodas no Brasil. Em qualquer parte do mundo, o piloto tem que ser habilitado para competir. Antes esse controle não era tão efetivo, as carteiras eram apenas emitidas sem o devido cuidado. Hoje nos preocupamos com todo o processo de filiação, o próprio CDA foi alterado para garantir que apenas pilotos com relativa condição técnica possam disputar sua respectiva categoria. As escolas de pilotagem desde 2012 estão sendo mais exigidas, existe hoje uma regulamentação específica para tal.
As questões de segurança nas pistas vêm sendo tratadas por uma comissão específica, através da CNA (Comissão Nacional de Autódromos), estamos fazendo um mapeamento da real situação de cada praça e vamos já em 2013 ter caderno de encargos para que as praças possam receber as categorias nacionais, com as devidas necessidades e adequações para cada evento. Em 2012 foram realizadas em diversas categorias palestras educativas sobre substâncias proibidas, o controle antidoping através da Comissão Médica será muito mais efetivo em 2013. Desde 2012, a análise de todos os regulamentos técnicos e desportivos não fica apenas sobrecarregada ao CTDN (Conselho Técnico Desportivo Nacional). As propostas enviadas pelos promotores são analisadas por todo o conselho, que é composto pela CNV, CNVT, CNA, CNK, CNR (comissões nacionais de Velocidade, Velocidade na Terra, de Arrancada, de Kart e de Rally) e pelo próprio presidente do CTDN. Ou seja, em seu papel de cunho técnico e desportivo a instituição vem nos últimos anos gradativamente implementando novos processos, normatizando suas ações e garantindo a igualdade de competição nas categorias, porém este tipo de trabalho de bastidores, que é extremamente necessário, não aparece. Só que sem ele as disputas na pista ficam comprometidas.

BLuc – Em que frentes a CBA aplica a receita com emissão destas cédulas?
Pinteiro – Os balanços estão disponíveis em nosso site, coisa que antes não acontecia.

BLuc – São mesmo do senhor as decisões que partem da CBA? Há mais nomes que, em termos práticos, tenham tanto peso quanto o presidente no momento das decisões?
Pinteiro – Temos uma gestão participativa, temos comissões atuantes em todas as modalidades. Não sou centralizador, demando ações e as coordeno e cobro os resultados, sempre dentro de uma coerência. Cada pessoa dentro de nossa gestão tem seu papel e sua importância, hoje as comissões trabalham de forma integrada com suporte jurídico e administrativo.

BLuc – O senhor tem algum ídolo no automobilismo?
Pinteiro – Sim, Chico Landi.

A carteira do João

PORTO ALEGRE – O Joãozinho Gonçalves, que é comandante-capitão-tio-brother-camarada, está aqui no Rio Grande amado para disputar, daqui a pouco, as corridas do Audi DTCC no autódromo de Tarumã. É legal voltar a Tarumã, fazia quase cinco anos que eu não pisava no autódromo.

Depois das corridas, João terá de voltar voando (outro trocadilho besta; minha fase não é das melhores) a São Paulo, onde tem um compromisso no domingo. Ocorre que ele e o Marçal Melo, com quem forma dupla no Audi DTCC, também vão formar dupla, semana que vem, na segunda etapa do Brasileiro de Gran Turismo, em Curitiba. Para poder correr com o Ginetta G50, o João terá de se submeter a um exame de pilotagem no domingo, em Interlagos. Exigência da CBA, ele explicou.

Nada demais, a Confederação Brasileira de Automobilismo não pode e nem deve, de fato, liberar qualquer um para pilotar carros de corridas. Esse negócio machuca, às vezes mata, todos sabem. Mas confesso que a exigência me causa estranheza por alguns motivos, a saber. Primeiro, João participou do mesmo campeonato, o de Gran Turismo, em 2011, à época tratado como Itaipava GT Brasil, pela mesma categoria, a GT4, e com um modelo exatamente igual, um Ginetta G50. Conquistou duas pole-positions, em Interlagos e em Jacarepaguá. Seu parceiro era o Caê Coelho. A dupla esteve no pódio quatro vezes e terminou o campeonato em nono lugar.

Seria, à minha leiga compreensão, uma credencial mais que suficiente para poder correr em Curitiba sem despender o dia de amanhã ao tal teste. Mas tem mais. João, há pouco mais de dois anos, integra o time de instrutores da escola de pilotagem do Beto Manzini. Sim, senhores, o moço é professor de pilotagem, o que torna o vestibular de amanhã algo um tanto contrassensual. Para não extrapolar a cota de trocadilhos toscos da semana, poupo-os da história de ensinar o padre a rezar missas.

Isso tudo sem contar o vasto e vitorioso currículo que esse moço chamado João Henrique Gonçalves construiu nas pistas de kart. Que está devidamente esmiuçado no vídeo aí abaixo, que ele próprio, bastante caprichoso, produziu.

Pinteiro vai a Cascavel

CARUARU – No paddock do Autódromo Internacional Ayrton Senna, cruzo com Cleyton Pinteiro, presidente da Confederação Brasileira de Automobilismo. Que sempre tem algo a me perguntar, parece. Na última vez que o havia visto, perguntou se eu narraria Brasileiro de GT ou Top Series, resposta que eu ainda não tinha. Agora, pediu a quantas andam os trabalhos de reforma do autódromo de Cascavel.

Disse a ele o que sabia, que o prefeito Edgar Bueno garantiu-nos, quinta-feira à noite, não haver motivo para preocupação quanto à conclusão dos trabalhos em tempo hábil para que Cascavel receba, em 5 de agosto, a sexta corrida da temporada da Fórmula Truck. “Tem havido algumas cobranças quanto a isso”, manifestou o Cleyton.

O dirigente antecipou que estará em Cascavel na próxima semana para uma vistoria ao canteiro de obras. Já marcamos um rabo-de-galo para depois do autódromo.

Bacalhau com batatas (5)

ESTORIL – Dia desses, depois de conversar com o Carlos Montagner lá no Velopark, comentei aqui o novo sistema de pontuação negativa atribuída aos pilotos de automobilismo do Brasil em suas cédulas conforme as infrações cometidas durante treinos e corridas, tal qual ocorre com as carteiras de motoristas.

Cometi, ao que tudo indica, um erro de interpretação do que me explicou Montagner sobre o Artigo 138 do Código Desportivo do Automobilismo. Quem me alertou para isso foi o Sérgio Berti, que está aqui no Estoril como diretor de provas do Porsche GT3 Brasil. A contagem de pontos não é zerada um ano depois da primeira infração computada, e foi isso que escrevi no post do início do mês. Na verdade, considera-se sempre a pontuação acumulada nos últimos 12 meses, contando-se de qualquer data.

Trocando em miúdos: tal qual ocorre com a CNH que todos portamos – alguns de nós não a têm mais, na verdade… -, os pontos de cada infração são considerados por um ano. E ai de quem totalizar 25 pontos nesses 12 meses. Gancho irreversível de 90 dias.

A pontuação no prontuário do piloto, segundo reza o tal artigo 139, segue a seguinte tabela: um ponto para advertência verbal, dois pontos a cada advertência por bandeira ou por escrito, três pontos a cada multa ou punição com acréscimo de tempo ao total do competidor em uma competição, quatro pontos por exclusão do briefing e seis pontos por exclusão ou desclassificação de uma prova.