O pódio recusado

MATTHEIS

GUARULHOS – Não lembro qual foi a corrida. Talvez os Mil Quilômetros de Interlagos, ou 500 ou 300 Quilômetros de Interlagos. Alguns quilômetros de Interlagos, com certeza. E em 2009, quase certeza. A memória já não anda lá aquela maravilha toda.

Mas era Interlagos e a vitória foi do Audi TT, ou do Lamborghini Gallardo, ou do Ford GT, talvez até do Dodge Viper Competition Coupé – caramba, cadê minha memória? – de Xandy Negrão e seu filho Xandinho. Que estavam inscritos em trio. Andreas Mattheis, o grande Andreas, além de responder pela preparação da máquina foi, seria, um de seus pilotos. Mas, por uma questão de estratégia que não auscultei como deveria, visto que durante uma locução de arena a partir de determinado recinto fechado o coitado do locutor não tem informação de praticamente nada além de imagem de pista e cronometragem, Andreas não pilotou o carro na corrida. Havia treinado, parece, mas não correu. Estava lá, prontinho, de macacão, capacete ao alcance, mas durante a corrida não foi para a pista.

E depois da corrida, quando chamei o trio pelo sistema de som para que ocupasse o degrau mais alto do pódio, Andreas recusou-se a subir. Subiram pai e filho, não o Andreas. Xandy, abusando da irreverência que todo mundo conhece, até fez uma piada impublicável a plenos pulmões para que o parceiro integrasse a solenidade de premiação, mas a recusa foi mantida. “Não corri, não tenho o que fazer no pódio”. Sem nada de mágoa, bem pelo contrário, ouvi depois de gente da equipe que partiu do próprio Andreas, com a corrida em andamento, a decisão de manter na pista quem lá estava na máquina azul da Medley Sports. Pelo bem da equipe, abriu mão de correr. Não foi o primeiro que conheço a fazer isso. O Dener Pires, hoje diretor do Porsche GT3 Cup, também já abriu mão de participar de determinada prova de longa duração por igual estratégia. E Andreas, naquele início de noite em Interlagos, não foi ao pódio. Atitude extremamente decente, diria eu. Atitude óbvia para qualquer um que preze o bom senso, rebateria você, e eu daria razão a você.

Lembrei dessa historinha hoje, por acaso, e resolvi compartilhá-la com vocês. Quando topar de novo com o Andreas, vou cumprimenta-lo por aquilo. Poderia tê-lo feito quinta-feira à noite, quando dividimos o elevador. Mas não lembrei daquele dia na quinta-feira. Lembrei hoje.

E quando encontrar de novo o premiado piloto e chefe de equipe, vou perguntar-lhe se o carro da Medley Sports naquela corrida de Endurance em Interlagos era alemão, americano ou italiano.

ATUALIZANDO EM 25 DE MAIO, ÀS 21h37:

Depois de publicar o post, fui aos sites de busca da internet atrás de saber qual era o carro da equipe naquela corrida. Antes de encontrar a informação, que por certo está lá em algum lugar, notei a data de nascimento do Andreas e soube, com imperdoável atraso, que completou 60 anos ontem. Trabalhando nos boxes do Mercedes-Benz Challenge em Interlagos. O terceiro lugar do Rodrigo Hanashiro na corrida de hoje, que teve 40 carros no grid, não deixou de ser um bom presente.

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O rali de Nenhures

NENHURES – Não faço a mínima ideia de que dia seja, ou de quanto tempo falta para o jantar. Sequer tenho ideia se minha última refeição foi jantar ou almoço, e há pouco me deram uma substância que me deixou entorpecido.

Sem sustos, não estou sequestrado. Pelo contrário, dei um bico no calendário da mesa do escritório, catei a família pelos suspensórios e vim tirar uns dias de folga em Nenhures, nome com o qual nós mesmos batizamos o lugar onde estamos, e honestamente até agora não sei o nome da cidade onde viemos parar. Nem quero saber, a menos que tenha queixas e queira catar o prefeito pelos colarinhos. Não terei. E Nenhures não deve ter prefeito.

O caminho para Nenhures, pelo menos o que me falaram que era o certo, foi a primeira grande diversão de 2013. Deve haver outros caminhos mais civilizados, duvido que mais divertidos. Sobretudo porque trilhamos o nosso ontem, dia de chuva nos arredores nenhurenses (isso está ficando perigoso), isso me permitiu exercitar uma até então desconhecida habilidade na condução off-road.

A estreia como ralizeiro foi salva por dois cidadãos nenhurenses que por ali passavam, num veículo de tração animal, no instante em que a tração dianteira perdeu para a aderência do encharcado solo arenoso. Deram uma força, conseguimos movimento, parei em raro piso firme pra voltar a pé e agradecê-los pessoalmente. Um deles é corintiano, notei pela camiseta. Enfim, é pena o Rali Dacar começar já nesta semana, se fosse na outra eu iria ali pra cima do continente e tomaria parte com nosso modesto sedan.

A dupla do empurrão não foi nossa única companhia no desafiador trajeto entre sei lá onde e Nenhures. Antes, houve as vacas. Quanto riso e quanta alegria com as vacas. Do meio delas saí depois de longos instantes com um forte palpite no número 39 – sou um tanto afeito a jogatinas, vocês sabem –, mas em Nenhures não há casas lotéricas ou bancas do jogo do bicho. Uma constatação boa, afinal já detectamos um ramo inexplorado por aqui, pode ser a senha para darmos um bico em Cascavel e nesse negócio de corridas e música e virmos tocar a vida aqui em Nenhures.

Agora, se me dão licença, vou devolver o blog às moscas e correr ali tentar outra daquelas substâncias entorpecentes. São legais, vêm com um guarda-chuvinha ou uma rodela de limão na borda do copo, você pode escolher.

Cigano do Brasil

CURITIBA – Eis que estamos no quarto do hotel, Kaká Ambrósio e eu, zapeando a televisão enquanto não termina o infame Zorra Total, procurando algo para ver até a hora do tal UFC. Que não sabemos onde vai ser, e nem a que hora começa, e nem onde é. E nem quem vai lutar com o Cigano.

Horas atrás, lá no aeroporto de Congonhas, brinquei com o Júlio Campos, que me perguntou se seria hoje a luta do Cigano. Brinquei com ele pelo Twitter, perguntando quem é Cigano e o que é luta. Não sabia, de fato, mas pressupus que sim, que seria hoje, já que no início do ano, janeiro ou fevereiro, vazou na mídia a história do currículo do adversário do Cigano postado na Wikipedia, já considerando a vitória sobre o Cigano na luta de maio. Foi disso que lembrei, que a luta aconteceria em maio, a chance de ser hoje era quase total.

Já em Curitiba, o cidadão que sentou-se a meu lado ligou pra alguém, imagino que sua esposa, e pediu para gravar o UFC, porque hoje o Cigano lutaria. Dúvida dirimida, enfim. E, mesmo não entendendo picas do UFC, sei quem é Cigano, claro, afinal há pouco tempo ele foi aclamado à condição de Júnior Cigano do Brasil, lembrei agora que é Júnior.

O Kaká parou na MTV, onde estão Herbert Vianna e seus blue caps, todos vestidos de vermelho da cabeça aos pés, cantando e tocando músicas da Legião Urbana. Haveremos de achar o UFC, quero ver a luta do Júnior Cigano, que não sei o que vale, nem sei se vale algo, parece-me que esses combates sempre valem título mundial.

Não vou arriscar juízo de valor sobre o MMA, que é a modalidade, já que UFC é o evento, isso foi repetido a tamanha exaustão que consegui aprender. Só o que não me entra na cabeça é a disposição que os praticantes têm de subir a um ringue, o tal octógono – que já definiram como quadrado de oito lados –, e tomar soco e pontapé na cara em nome do espetáculo. Isso machuca.

Artes marciais, eis uma coisa que me causa certo fascínio. Anos atrás acabei acompanhando por mais de uma hora uma sessão de treinamentos de uma equipe de kung-fu, não sei se leva esse hífen, a habilidade com movimentos e o lido com as armas próprias da modalidade me deixaram atônito, a exigência de treinamento e de disciplina é extrema. Judô é outra modalidade que aprecio, em que pese a implicação de um confronto para que seja consumado, mesmo quem toma um nocaute, no caso um ippon, sai do tatame sem lesões, reverenciando o contexto. Não há o culto ao sangue.

Aí, como trabalho como automobilismo, alguém haverá de me alertar que as corridas também machucam, até matam. A diferença, a mim, é muito evidente. Automobilistas não levam para seu cotidiano as particularidades das corridas. Normalmente, por saberem o que é a prática do automobilismo, evitam abusos em ruas e estradas e espaços públicos. Rachas e cavalos-de-pau na rua, coisa de gente retardada, não são praticados por pilotos de competição, salvo lamentáveis exceções. Por outra via, fã de corridas costuma ser mais insuportável que quem aprecia os combates.

Ao que percebo, praticantes de esportes que primam pelo espancamento do oponente são os que andam em locais abarrotados de gente com os braços em formato de asa de xícara, fazendo questão de esbarrar em todo mundo, sempre dispostos a mostrar quem é o melhor galo de briga do pedaço. Têm a estupidez e a arrogância estampadas no olhar. Praticam tudo que vai contra os princípios da boa convivência calçados no que entendem ser argumento, de que as virtudes do espancamento são advindas do esporte, e esporte é vida.

Meros devaneios sem importância.

Quando tenho tempo para conversar comigo mesmo, e me acho ótima companhia, costumo aplicar minhas sempre superficiais análises aos motivos do MMA. Estão muito além, ou muito aquém, da minha compreensão. Ao Luc Júnior, com seus cinco anos e meio, já reservo a consulta de institutos que ensinam o judô, ou o kung-fu, esse esporte tão bonito em que os grandes mestres não têm necessariamente de espancar ninguém. Boxe, MMA e afins não são coisa para ele.

De qualquer modo, vou torcer pelo tal Cigano. Apesar de ele ser o Cigano do Brasil.

É a cara do Clóvis

SÃO PAULO – Dia desses contei o caso interessante do Vytor Zeidan, que deu uma volta a pé pelo autódromo de Brasília com a bandeira do Corinthians campeão, numa forra à provocação feita por Piquet em Interlagos. Está aqui, para quem não leu.

Vytor é capitão do departamento de Comunicação da Fórmula Truck. Em sua sala, mantém sempre a postos uma camisa menos despojada que seu estilo habitual, sempre conveniente para reuniões ou gravações do material de vídeo que vai para o site da categoria.

Desde o começo do ano, quando a Grelak Comunicação passou a assinar a assessoria de imprensa da categoria, os colegas do Vytor passaram a observar que a tal camisa “é a cara do Clóvis”. Associação óbvia ao Clóvis Grelak, titular da nossa agência.

No sábado, para não haver mais dúvidas, trataram de imprimir o rosto do Clóvis e anexá-lo à peça. E não é que ficou a cara do Clóvis, mesmo?

A vingança do Zeidan

CASCAVEL – Um dos momentos épicos das pistas de corridas em 2011 aconteceu em Interlagos, momentos antes do GP do Brasil da F-1. Era dia da penúltima rodada do Brasileirão de Futebol e o Nelson Piquet, na última das voltas que deu com o carro de seu primeiro título mundial, sacou de um compartimento qualquer uma bandeira do Vasco da Gama, seu time. Nelson é vascaíno da gema, ou da gama, ou só vascaíno. Tirou onda com a cara dos corintianos presentes, já que o Corinthians tinha a chance de ser campeão brasileiro naquela mesma tarde e era o Vasco quem tinha a chance de impedir a festa alvinegra.

Alguns corintianos, meu caso, riram da audácia. Minha observação, mais a título de provocação aos tontos que defendem Piquet e crucificam Senna – sim, acredite, há quem despenda tempo à briga -, foi a de que aquele gesto era uma homenagem a Ayrton, tão acostumado a empunhar bandeiras depois das vitórias, tal. Não se iludam, eu gosto mesmo é de tirar onda, e mexer com as viúvas de Senna também é um passatempo que me atrai.

Mas eu falava de Piquet e da bandeira do Vasco. Ri do ato, muitos também riram. Mas houve os que não riram. E os que prometeram vingança. E é aí que entra em cena o Vytor Zeidan, parceiro lá da Fórmula Truck que dá um fino trato a todo o trabalho da área de comunicação. Vytor admite que direcionou a Nelson, da poltrona de casa, adjetivos que só se dispensam a políticos larápios – e arrisco que a construção “políticos larápios” não redunda.

“O cara tirou onda com a bandeira do Vasco na pista onde o Senna ganhou corridas. Naquele dia o Corinthians não foi campeão, ficou para a última rodada, e essa última rodada aconteceria no mesmo dia da última etapa da Fórmula Truck. Eu já sabia como dar o troco ao Piquet”, conta o Vytor, que é o sujeito mais corintiano que já conheci, por assim dizer.

No domingo seguinte àquele GP do Brasil, como todos sabem, o Corinthians foi campeão brasileiro depois de um empate sem gols com o Palmeiras. E o Vytor cumpriu a promessa que fizera a si próprio de, com a bandeira do Corinthians nas mãos, dar uma volta a pé, correndo, pela pista do autódromo de Brasília. Que leva o nome de Nelson Piquet.

Não há registro fotográfico da vingança do Vytão, o que é um pecado.

O Milton no Hoje

Faz dias, ou meses, que estou para publicar aqui uma história sobre o Milton Serralheiro, uma traquitana que ele inventou e usou quando corria na Fórmula A. Para isso, até já fiz uma consulta ao Rodrigo Mattar, sobre um dado que anotei em algum lugar que não lembro, vou ter de perguntar de novo.

Enfim, não é só esse causo que está enroscado na minha correria. Algumas entrevistas que já combinei e não preparei, também. De qualquer modo, eu falava do Milton, que hoje ganhou destaque no jornal “Hoje”, em matéria assinada pelo parceiro Fábio Donegá. Essa aí, só clicar para ampliar.

Convivi algum tempo com o Milton nas pistas, bastante tempo fora dela, mas o tempo de pista foi suficiente para me dar um feedback que eu deveria ter passado ao Fábio, se ele tivesse perguntado: a imprecisão das datas e outros dados. Praticamente todas as datas citadas no texto estão distorcidas, culpa da memória ruim do Milton, que não é uma boa fonte, e principalmente de ele nunca ter dado muita bola para informações tão precisas. Gosta, mesmo, é de contar bravatas.

Poderia, deveria, ter relatado ao Fábio a história do dia em que bateu num barranco e ficou sem cabeça, ou do garotinho de colo que o reconheceu na pista em Londrina pelo estilo da frenagem em determinada curva, quando mudou o layout do carro depois de anos.

Dessa do fogo no mato, honestamente, eu não lembro.

ATUALIZANDO EM 31 DE JANEIRO, ÀS 9h40:
Aí que o “Hoje” de hoje traz mais um pouco da sapiência inútil do Milton, que sempre sonhou ser dirigente de automobilismo para instituir regras que, em sua cabeça, funcionariam muito bem. Uma delas, que não está na matéria do Donegá, é fazer com que num grid que tenha, por exemplo, 26 carros, larguem 13 no sentido da pista e outros 13 na contramão…

"Para, para, para!"

“Para, para, para!”.

Parar o quê, se estou só escrevendo meu modesto press-release e tomando meu café em São Paulo, um dia antes da viagem ao Rio?

É uma ordem estranha, sobretudo quando vem de um policial militar que desce correndo, arma em punho, da viatura parada bruscamente em frente à minha casa – em se tratando de São Paulo, já expliquei por aqui o lance da “minha casa”.

Pararam duas viaturas, uma em cada extremo da pequena rua no bairro Interlagos. Depois chegou mais uma, logo eram quatro. Pedro, Natália e Zoraide, meus anfitriões, saíram para tratar da vida, estamos aqui eu e os cães. E presenciamos, eu e os cães (como latem!, chega a irritar), a prisão dos dois marginais que tratavam de limpar a casa do vizinho do lado.

São organizados, os ladrões. Estacionaram em frente à casa do vizinho um Palio, que dali sairia abarrotado com tudo o que o furto pudesse render. Não contavam com o atendimento ágil da Policia Militar.

Armas não me assustam, é um erro de postura perigoso, e claro que me meti lá no meio da confusão. Só tive participação direta quando ouvi do policial a recomendação de não fotografar os ladrões, que chegaram num Palio de lateral amassada e estão indo embora agora no compartimento de carga de um Palio Adventure, bem mais novinho e com direito a motorista particular.

Ao longo da vida a gente vai experimentando sensações. E a de parabenizar um policial por um trabalho bem feito, acabo de tirar a prova, é muito boa.

ATUALIZANDO EM 5 DE SETEMBRO, ÀS 12h42:
O vizinho que mora sozinho na casa invadida acaba de chegar, trazido por um amigo. Uma equipe da PM ainda está ali, fazendo vistorias, laudos ou sei-lá-o-quê no dito Palio verde.