A Truck, a CBA, o Facebook

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Buscar meios para viabilizar o maior número possível de caminhões na pista é o principal desafio da organização da Fórmula Truck até a primeira corrida, anunciada para 19 de março. A foto é do Rodrigo Ruiz.

CASCAVEL – A maior polêmica do automobilismo brasileiro nos últimos meses, talvez anos, está protocolarmente encerrada. Mesmo não tendo havido até agora nenhum comunicado oficial, sabe-se que a Confederação Brasileira de Automobilismo concordou em renovar, por mais uma temporada, o contrato com a empresa de Neusa Navarro Félix para promoção do Campeonato Brasileiro de Fórmula Truck. É o suficiente para dizer que a novela terminou, como afirmou o colega Américo Teixeira Júnior em seu Diário Motorsport? Não é como vejo. Pode-se sim, para validar o termo empregado pelo Américo, definir como uma novela as circunstâncias que levaram à renovação do contrato de promoção do campeonato. A situação chegou ao conhecimento público, o que deu margem para virar assunto de debates longos e inúteis nas redes sociais da internet.

Foi na tarde de 30 de janeiro que a CBA distribuiu comunicado informando que iria contratar empresa para promover e organizar o campeonato de caminhões – na nota, em ato falho, a entidade usou o nome “Fórmula Truck”, que pertence à Racing Truck, empresa que tem Neusa e os filhos como proprietários. A resposta veio na mesma moeda. Um comunicado emitido no dia seguinte, em que a direção da categoria frisou os direitos assegurados por registro sobre a marca “Fórmula Truck” e manifestou ainda estar lidando com a questão de filiação da categoria, uma vez que o calendário de etapas distribuído a equipes e à imprensa uma semana antes determinava a realização de etapas na Argentina e no Uruguai. “O campeonato deixou de ser brasileiro e passou a ser sul-americano”, concluía aquele trecho da nota. A Truck considerou passar a promover suas corridas através de uma liga e, uma vez tendo desistido disso, focou na possibilidade de ter o caráter desportivo do campeonato, agora sul-americano, gerido pela Codasur.

A chancela da Codasur, por protocolo, passaria também pela CBA. Trocando em miúdos, não haveria campeonato sem anuência da CBA, e esse passou a ser o foco, já correndo o início de fevereiro. A Truck enviou no dia 3 a papelada protocolar para participar da, digamos, concorrência. Era uma das duas propostas recebidas pela CBA, a assinatura da outra é protegida por cláusulas de confidencialidade. A outra ponta da conversa tinha o pernambucano Waldner “Dadai” Bernardo, do Conselho Nacional de Velocidade da CBA, que no mês que vem vai assumir a presidência da entidade – venceu a eleição do mês passado por 10 votos a 7 do paranaense Milton Sperafico.

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A foto produzida pela Luciana Flores na etapa de Cascavel do ano passado mostra Neusa Navarro recebendo uma homenagem da CBA das mãos de Rubens Gatti, presidente da Federação Paranaense de Automobilismo.

As duas semanas que se seguiram foram de ajustes dos termos; havia, afinal, uma série de exigências por parte da CBA, e de igual forma havia uma série de condições apresentadas pela Truck. Por parte da entidade, condições tratadas intramuros acerca de patrocínios, transmissão de televisão, administração, inscrições, relação com os pilotos. A empresa formalizou compromisso quanto à quase totalidade da lista. Em um dos itens, que diz respeito à participação da promotora como dona de equipes, Neusa apresentou argumentos que foram aceitos pela CBA. Os dirigentes veem conflito de interesses no fato de Neusa ser promotora do campeonato e manter uma equipe, a ABF, embora não haja lei desportiva alguma que a impeça disso. A CBA concordou com a sequência da prática – com a qual, aliás, a Fórmula Truck convive desde que nasceu. O contrato está confeccionado, tem vigência de um ano e será assinado logo após o feriadão entre a CBA e a Racing Truck.

Tomando-se por base o calendário de eventos que a Fórmula Truck anunciou no dia 25 de janeiro, faltam 23 dias para a primeira largada do ano. É o apertadíssimo prazo de que a direção da categoria dispõe para costurar um acordo com as ditas equipes independentes. A posição de várias delas é de que, diante das definições tardias, não há como viabilizar presença na pista sob o ponto de vista comercial. Falar em protelar o início do campeonato seria mero exercício de especulação, embora qualquer tabela de datas sempre apresente o asterisco de sujeição a alterações. E de especulação os perfis de Facebook de quem acompanha as corridas de algum modo já estão cheios.

“Não existe uma divisão da categoria. A Fórmula Truck era e continua a ser única. Mais de cem pilotos e várias equipes passaram pela categoria nestas mais de duas décadas. Uns entram, outros saem, mas a Fórmula Truck continua firme e nunca teve outra essência além daquela inicial, dada pelo fundador Aurélio Batista Félix”, dizia o comunicado de 31 de janeiro. É no que quer crer a considerável comunidade automobilística do Brasil. Arrebatar de volta os pilotos e as equipes que anunciaram debandada é a necessidade que urge. É possível? Claro que é. Juntos tudo é possível, já preconizava o slogan político do início dos anos 80. Há arestas a aparar? Há, talvez não sejam poucas, e essas são da conta de Neusa, de seus filhos sócios e dos pilotos e equipes, que precisam de uma merecida trégua dos especialistas de Facebook enquanto resolvem a vida. E que talvez devam manter a condução do assunto sob saudável discrição. Cá de longe, só me reservo o direito de torcer para que ao fim das contas dê tudo tão certo quanto possível. É com o que posso contribuir de momento, com a minha torcida.

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O calendário anunciado pela Fórmula Truck na última semana de janeiro estipula oito corridas do Campeonato Sul-Americano no Brasil, uma no Uruguai e outra na Argentina. A foto é do Ruiz, também.

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3 pensamentos sobre “A Truck, a CBA, o Facebook

  1. Um caso típico de dupla falta de noção, D. Neuza pensando que por ter etapas na Argentina e no Uruguai poderia fazer um campeonato com a CODASUR sem a chancela da CBA, e o Sr. Clayton, achando que uma entidade esportiva reguladora poderia dispor da marca “Formula Truck” registrada pela empresa da família Navarro-Felix e entregá-la a outro promotor.
    É assustador mas não surpreende, ambos não conhecem as regras do jogo e pensam que tudo podem.

  2. Discordo apenas quando diz que as discussões nas redes sociais são inúteis. Elas têm uma força gigantesca, que ninguém conseguiu medir ainda, mas todos sabem que é enorme. Em palestra recente do Prof Delfim Netto, ouvi dele que as redes sociais em breve decidirão qualquer eleição no mundo. Senti isso ao coordenar a campanha do Milton Sperafico à presidência da CBA. Usamos muito as redes sociais e o resultado é imediato. Se a eleição dependesse da comunicação, o Milton teria ganho de lavada, pois contava com a maciça porção da opinião pública, gerada pelas mídias sociais. Derrubamos candidatos, geramos reações imediatas às ações, denunciamos, propusemos ações, fizemos os adversários mudarem de postura e atitude, a coisa é palpável. É impressionante a força gerada no que nos parece, a primeiro olhar, uma mera discussão entre teimosos.

    • Meu caro Alan, é importante não confundirmos as coisas. Avalizo cada vírgula do seu comentário sobre o conceito das discussões nas redes sociais, que veio formulado com o brilhantismo de sempre. Aqui eu me refiro, e talvez não tenha me expressado com a devida clareza, à forma com que várias das pretensas discussões a que tive acesso foram conduzidas, e nesse ponto reafirmo: foram de uma inutilidade assustadora.

      Você seguramente terá notado que não tomei parte dos debates das últimas semanas. Há quem defina isso como ficar em cima do muro, ser chapa-branca, adjetivos afins; há quem defina isso como não se meter onde não é chamado. Acho que fico em cima do muro entre as duas definições…

      Abração, e grato pela audiência nobre.

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