Onze carros e um segredo

briefing

Pilotos e preparadores durante o briefing de ontem à tarde com o diretor de provas Marcus Ramaciotti. O box número 1 poderia estar bem mais povoado, é verdade. Esses trinta e poucos nomes serão pesquisados na história do automobilismo daqui a alguns anos.

SÃO PAULO – Bem, não há segredo algum. Apenas aproveitei o número para estabelecer uma analogia boba com o nome de um filme, coisa típica de jornalista mediano – alguns têm um talento um tanto louvável para esse tipo de trocadilhos, e esse definitivamente não é o meu caso.

Não há segredo, mas há onze carros. Os onze que vão formar hoje à tarde o grid da primeira edição das 8 Horas de Interlagos. Ou Endurance Interlagos, para mencionar o nome correto da prova, que é restrita a carros da categoria Marcas & Pilotos 1.6. O regulamento técnico segue o do Campeonato Paulista, que tem alguma diferença aqui e ali em relação aos de campeonatos como o Goiano, o Mineiro, os Metropolitanos do Paraná e o Gaúcho – embora eu já tenha ouvido que a categoria Marcas 1.6 deixa de existir no Rio Grande do Sul.

Ontem à tarde, durante os treinos livres, vim postando em minha conta no Instagram  os resultados de cada sessão, postagens que eram compartilhadas em outras redes sociais. Eram onze os carros na pista no primeiro treino, e foi desse que participei. Marcelo Costa, Fernando Fortes e Alexandre Papazissis, meus parceiros na prova, fizeram um treino, cada, também. Alguém comentou a postagem no Facebook perguntando se eram só onze carros, e respondi que não, que fomos onze no primeiro treino, mas que haveria mais.

Não é de hoje que venho acompanhando, ainda que de longe, a preparação para as 8 Horas de Interlagos, ou Endurance Interlagos. Precisamente desde julho, quando a realização do evento nos foi anunciada durante o briefing de uma etapa do Paulista de Marcas & Pilotos, da qual vim a Interlagos para participar em dupla com o Caíto Carvalho. Um dos empecilhos enfrentados pelo Interlagos Motor Clube, dilema eterno do nosso automobilismo, esteve atrelado ao calendário sempre dúbio de eventos em Interlagos. Os organizadores só puderam confirmar poucos dias antes do Natal que a corrida aconteceria hoje, 18 de fevereiro. É pouco tempo para se levar a efeito uma corrida de potencial.

Mas fizeram. Contararam pilotos, equipes, parceiros, fornecedores. Formataram uma regra, viabilizaram o apoio da Pirelli para os pneus e da Boxter para um subsídio no combustível, atenderam com paciência de Jó e dedicação de uma mãe a todo tipo de dúvida que apresentamos. Aldo Piedade Júnior, um dos pilotos que participam da prova, prestou algo como uma consultoria ao clube. Eram ele e sua irmã Erika, na verdade, minhas referências para tratar de tudo que fosse relativo ao evento. Na terça-feira pela manhã falei com o Aldo (acho que só eu o chamo assim, tudo mundo diz Júnior). Quantos carros já temos? Eram doze inscrições efetivadas e quase o mesmo número de um procedimento que ele me definiu como pré-inscrições. Largamos com 20?, insisti. Acho que com um pouquinho mais que isso, ele respondeu.

Vim a São Paulo tendo em mente que estaria, em alguns momentos da corrida, dentro de um dos 21 ou 22 carros das 8 Horas de Interlagos. Mas não sabia dos episódios que vinham se sucedendo desde minha última conversa com o Júnior. Por uma série de fatores que se somaram, talvez sem que houvesse um motivo principal, os pilotos começaram a avisar que não viriam para a corrida. Não poderiam. Haveria outro compromisso. O carro não estava pronto. Foram várias as justificativas. Isso acontece bastante, em qualquer âmbito. Causou estranheza, pelo menos a mim, que tenha acontecido por atacado em um prazo de tão poucos dias. Haveria aí algum segredo para justificar o título infame do post? Não sei dizer.

Tenho o péssimo hábito de me imaginar na condição dos outros em algumas situações. Foi o que fiz ontem, me imaginei na posição do Cláudio, do Élcio, do Júnior, da Erika, do Marcão. Materialista que sou, o que me ocorreu prioritariamente nessa suposição foi o balanço financeiro – conheço um pouquinho desse negócio de promover corridas e, mesmo sem acesso a dados, vi com clareza que a prova daria, dará, prejuízo aos promotores. Fosse eu no lugar deles, imaginei, amargaria algumas indisposições, mas passaria a mão no telefone e falaria com piloto por piloto, equipe por equipe, exporia os motivos e cancelaria a corrida, ou adiaria sua realização, sei lá.

Isso se fosse eu. Não sou eu, para alívio dos quase 40 participantes. O Interlagos Motor Clube optou por honrar com tudo com que havia se comprometido. Assumiu todos os custos decorrentes da realização do evento. Aldo Júnior pediu a palavra ontem, ao fim do briefing dos pilotos. Falou em nome dos promotores. Disse que o sentimento era de uma certa tristeza por não termos hoje um grid tão povoado e colorido como todos, eu inclusive, imaginamos alguns meses atrás. Deixou-nos bem claro que dinheiro não é a preocupação para agora, esse a gente trabalha e ganha outro, o sentimento é esse. É o fim de uma história? Negativo. Começa hoje mesmo o trabalho para a segunda edição do evento, que deve sair no começo de 2018. Existe uma expectativa de que para o ano que vem o calendário de eventos seja liberado e definido com antecedência bem maior, não sei exatamente por qual motivo. Pode até ser que a edição seguinte das 8 Horas de Interlagos valha como etapa de abertura do Campeonato Paulista de Marcas & Pilotos, é algo que ainda será discutido com quem de direito.

Imagino, gosto muito de imaginar, que daqui a alguns anos as pessoas que consomem o automobilismo de competição vão pesquisar o início da história das 8 Horas de Interlagos, e nas ferramentas de busca do futuro vão encontrar os onze carros de hoje, com os nomes de seus pilotos, quem terá vencido, quantas voltas terão sido completadas, tudo isso. E os mais afeitos ao tema saberão explicar aos mais novos, que talvez nem tenham nascido, que o começo dessa história foi um tanto complicado, que houve uma série de fatores que acabaram por limar alguns carros do nosso grid, e particularmente devo ficar bastante feliz por saber que meu nome estará lá, na lista do futuro, entre os trinta e tantos que participaram no longínquo 2017 da primeira edição da corrida.

Os promotores honraram seu compromisso para conosco e prepararam uma grande festa. A nós, participantes, cabe apenas honrar nossa presença aqui e fazer da corrida de daqui a pouco exatamente isso: uma grande festa do automobilismo, que vai começar às quatro da tarde e terminar à meia-noite. Algo para ser lembrado no futuro.

celta-66-01

Marcelo, Fernando, Alexandre e eu estamos entre os onze de Interlagos. Vamos revezar esse carrinho aí, o simpático Celtinha da Tuta Racing-Leandro Motorsport. E vamos para o pódio.

Anúncios

6 pensamentos sobre “Onze carros e um segredo

  1. A se pensar … prova de 6 horas com as duplas que disputam o paulista , logo a segunda edicao contaria pontos para o campeonato. (Podendo ter um terceiro piloto opcional)Prova seria realizada em um final de sabado do paulista . Comecando 15 e terminsndo 21. Apenas sugestao.

  2. Bem. Não sou muito de comentar posts mas me vem a cabeça o seguinte. Final de Janeiro uma etapa do Paulista, 15 dias aproximadamente depois uma corrida de 3 horas em Piracicaba para depois 8 horas aqui.
    Não seria muito gasto um em cima do outro?
    Como por exemplo a Phoenix do Picollo que corre lá e aqui, não ficariam os pilotos dele meio no vermelho precisando escolher uma corrida ou outra?
    Não sei apenas uma suposição.

  3. Pingback: Copo meio cheio – BLuc

  4. Valeu Luc!!!
    Obrigado pelo belo texto, bem esclarecedor e totalmente verdadeiro.
    O que vale é que todos que participaram, de alguma forma, se divertiram muito! Inclusive nós da organização.
    A princípio realmente ficamos chateados pois fizemos tudo pela Categoria Marcas Paulista mas entendemos e respeitamos a atitude de cada um, que todos fiquem tranquilos com suas consciências, né?
    Vamos pra próxima!!! Fim de Março tem segunda Etapa do Paulista! Acelera aí!!!!

    • Ontem mesmo, no posto de combustíveis onde encontramos a galera do automobilismo aqui em Cascavel, um dono de equipe comentou comigo que, dado o número de carros na pista, a corrida deve ter sido horrível. Felizmente pude responder-lhe que havia sido o contrário. Foi uma corrida interessantíssima. Falo, claro, sob o ponto de vista de quem estava participando. Mas foi a mesma impressão que colhi de vários amigos – e também de alguns torcedores que não conheço – durante o sábado, lá no autódromo. Vamos para a edição de 2018. Vai ser ótima. Abraço, Claudio, e obrigado mais uma vez pelo nível de compromisso da equipe promotora.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s