A primeira chuva

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O grid das Três Horas de Piracicaba, corrida que abriu a disputa da Copa ECPA de Endurance. Haverá outras três etapas, intercaladas com o campeonato de provas curtas . A foto – como todas as do post – é do Adilson Zavarize. 

CASCAVEL – Meu sentimento era de vergonha, não há termo mais adequado. Meu ritmo na pista era ridículo, pensei, quando minha tentativa quase desesperada de manter o carro na pista encharcada do Esporte Clube Piracicabano de Automobilismo fez-se acompanhar da mensagem via rádio: “Está muito bom, você é o mais rápido da pista nesse momento”. Hã?

Falo, claro, da minha participação nas Três Horas de Piracicaba, corrida do último sábado que abriu a temporada da Copa ECPA de Endurance. Corri a convite do Guilherme Reischl, um gaúcho que conheci no ambiente do Porsche GT3 Cup. Revezei com ele, nos treinos e na corrida, a guiada do GM Celta da Phoenix Competições, equipe do Luisinho Piccolo e da Cris Lima. Era o Guilherme quem falava comigo ao rádio. E era acordo nosso que as conversas via rádio tratariam apenas da nossa categoria na prova, a Turismo B.

Jamais havia corrido na chuva. Para não dizer que a experiência foi totalmente inédita, fiz um treino de meia hora com pista molhada em Cascavel no ano passado, com o Ford Escort da Paraguay Racing. Era o treino livre em que meu então parceiro Felipe Carvalho iria para a pista, ele recuou diante do aguaceiro e pedi a vez para saber como era dirigir naquela condição. Mais a título de curiosidade, mesmo. No caso do último sábado era diferente. Havia uma disputa real em transcurso, o Guilherme já tinha cumprido a primeira hora de corrida, buscávamos uma recuperação depois de um problema na chave geral do carro que não nos permitiu completar uma volta sequer na tomada de tempos, largamos do rabo da fila.

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Manter o carro na pista sem rodadas no aguaceiro de Piracicaba não deixou de ser algo digno de nota. Sobretudo porque eu jamais havia corrido com pista molhada – e a chuva veio bem no meu turno

Fiquei com ele no rádio durante essa primeira hora. No pit stop invertemos as posições, claro. A primeira vez que acionei o rádio de dentro do carro foi para dizer que estava começando a chover – o tom de voz foi de quem dizia “fodeu!”. E foi inútil, o Guilherme deve ter percebido a água antes mesmo de mim. Com a pista já encharcada, a mensagem seguinte dele me pegou totalmente de surpresa. Em que mundo eu seria o mais rápido da pista? Os outros da Turismo B teriam ido embora do autódromo? Concluí na hora que deveria ser um truque dele na tentativa de me manter calmo. Ele sabia que eu jamais havia pilotado na chuva. Deve ter roído as unhas.

Eu sabia, por ter ouvido os outros dizerem, que um bom tempo de volta com pista molhada vem na casa de 1min35s. O Alfano no painel do carro indicava que eu estava virando acima de 1min50s. Não havia como ser o melhor ritmo da categoria, pensei. “Continua assim, você ainda é o mais rápido”, ele falou depois. Caramba, esse cara ficou maluco? “Nessa volta você foi o segundo mais rápido”. Depois da corrida a doce Rita, que me fez agradável companhia durante todo o fim de semana, confirmou a veracidade das informações que estavam me passando. Minha namorada, para quem não conhece. Ela estava monitorando a cronometragem ao lado do Guilherme. E, com a água vindo cada vez mais forte, meu drama particular aumentou: o parabrisa ficou completamente embaçado. “Luc, vira pra direita”, escutei pelo rádio. Guilherme viu que eu estava passando direto pela curva ao fim da reta dos boxes. A visibilidade era abaixo de zero. Foram instantes que o Luís Piccolo, coordenador geral da Phoenix Competições, a nossa equipe, definiu como “voo por instrumentos”.

Entrei na pista já com uma hora de corrida, depois do primeiro turno do Guilherme, e minhas três primeiras voltas não baixavam da casa de 1min23s. Muito pouco, na véspera eu já tinha feito voltas na casa de 1min20s. Até então a preocupação era só a de manter a calma para buscar repetir em sucessão as voltas de 1min20s. Foi quando São Pedro abriu as comportas. Via gente rodando e atravessando em todos os pontos da pista. Assumi o ritmo mais cauteloso possível, o que talvez ajude a justificar as voltas acima de 1min50s – não rodei nenhuma vez, o que também pode valer em minha defesa.

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Os dois GM Celta da Phoenix Competições, com que fizemos dobradinha em Piracicaba. Luisinho Piccolo, Cris Lima e toda a rapaziada da equipe deram um show de comprometimento.

Questionei o Guilherme sobre a possibilidade de uma parada extra para desembaçar o parabrisa, que estava completamente opaco. Àquela altura eu já guiava procurando pelos acrílicos das portas os limites da pista. Ele disse que parar ou não estava a meu inteiro critério e frisou que até então estávamos indo bem. Liderando na nossa categoria, inclusive, o que também achei bastante estranho. Respirei fundo e avisei que só pararia se ele chamasse ou se batesse o carro. “Beleza”, foi a resposta dele.

Foi quando passando pela reta dos boxes – e até ali o ritmo era lento, porque o início daquele trecho tem VHT, uma substância usada para competições de arrancada que, com chuva, faz da pista um verdadeiro sabão – consegui notar no PSDP a placa indicando que o safety car estava na pista. Avisei que iria aproveitar para entrar. Entrei. Guilherme considerou pagarmos ali a segunda e última parada obrigatória de cinco minutos, estratégia abortada tão logo encostei. Piccolo notou que o pneu dianteiro esquerdo do carro estava muito baixo – 21 libras, para ser mais preciso. Encheram o pneu, meteram um químico no parabrisa e fui para a pista. Quando desceu a bandeira verde de novo já estávamos na segunda metade da corrida. Pilotei por mais uns 15 ou 20 minutos e devolvi o carro ao Guilherme, para que completasse a corrida. E completou.

Minha parada extra nos boxes deveria ter sido feita uma volta depois, já com o pelotão todo reagrupado. Quando parei – conseguir acertar o estreito acesso aos boxes sem bater o carro, diante da visibilidade nula, foi uma façanha – os carros ainda estavam bem distribuídos pela pista. Com isso perdemos uma volta, que pode até nos ter custado a vitória. Nunca saberemos. Terminamos em segundo lugar, com vitória de João Moraes, Ricardo Pinto e Francis Piedade, inscritos com o outro Celta da Phoenix. Dobradinha para a equipe. Fizemos muita festa.

O ECPA tem uma pista curta, de 2,1 mil metros. Um traçado que achei divertidíssimo, bem mais que o de Interlagos. Comentei isso com um amigo também ligado às corridas e só não apanhei dele porque estávamos longe um do outro. Mas gostei, mesmo. E na próxima oportunidade que tiver volto a Piracicaba para buscar a casa de 1min19s, quem sabe 1min18s. Por ora, atenções voltadas às 8 Horas de Interlagos. A corrida vai ser daqui a 11 dias e ainda nem sei com quem e por qual equipe vou participar.

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No fim das contas, eu e o Guilherme saímos de Piracicaba com um segundo lugar na Turismo B e várias lições de pista assimiladas. Logo eu volto lá para arriscar mais uma participação.

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