Despedida na pista

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No último fim de semana de autódromo no ano, troquei de novo a cabine de narração por um carro de corrida. Desta vez foi o Gol da Paraguay Racing, o carro de condição mais competitiva que já guiei numa pista. A foto é do bonachão Fernando Conto.

CASCAVEL – Meu fim de temporada nesse mundo de corridas não poderia ser diferente. Bem, claro que poderia, mas tentei fazer com que fosse assim e deu certo. Com a agenda de narrações fechada (ou quase fechada, já que ontem à tarde narrei a etapa final da Sprint Race para a transmissão de TV), voltei a Interlagos. As anotações e arquivos de sempre ficaram em casa. Em seu lugar, levei os macacões, as luvas, o capacete e uma vontade monstruosa de me divertir na pista. Ah, também levei a namorada, o que fez uma diferença e tanto – ótima companhia e ótima pessoa, a Rita.

Desta vez minha participação no Paulista de Marcas & Pilotos foi pela Paraguay Racing, equipe que nasceu aqui em Cascavel no começo do ano passado e que, com uma pontinha de intervenção minha, foi parar em 2016 no grid da Copa Petrobras de Marcas. Odair dos Santos e Thiago Klein me confiaram o carrinho que levou o Thiago ao bicampeonato da classe A no Metropolitano de Marcas, um VW Gol a que apliquei meu número de sempre, o 66, e a logo da Inspevel – Inspeção Veicular de Cascavel, que sempre me dá uma força quando me meto a tentar acelerar em algum lugar. Joacir Alves tem sido outro grande parceiro nessas minhas andanças e aceleranças.

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O Odair dos Santos, culpado pelo convite para eu estar com a Paraguay Racing em Interlagos, esteve no pódio das duas corridas da categoria Light na etapa final do Paulista de Marcas.

Bem, vamos às coisas da pista. Ansioso e imediatista que sou, tinha tudo para começar o fim de semana bem irritado. No primeiro treino livre, na sexta-feira, cumpri duas voltas lentas, para que tudo no carro atingisse uma temperatura adequada. Quando fui abrir a terceira, já com alguma pretensão de acelerar, a brincadeira a acabou. Uma quebra de motor, evento até então inédito no meu parco currículo. Fiquei fora do treino e os meninos da Paraguay Racing trataram rapidamente de substituir o motor em tempo para o segundo treino, que viria à tarde. Era para me irritar, mas não me irritei. Acompanho esse negócio há tempo suficiente para saber, sem hipocrisias, que carros de corridas quebram com uma naturalidade até incômoda.

Entre o treino e outro do Paulista de Marcas, mais uma oportunidade inédita: a de ir para a pista com um monoposto. Fiz um treino com o carro do Igor Costa na Fórmula 1600. A ideia inicial era, aproveitando a passagem por Interlagos, participar da etapa final da categoria formando dupla com o Igor. Conversei um pouco a respeito com o Juka Gandelim, chefe de equipe da Jukamotors, que me abriu essa possibilidade diante da intenção do Igor de fazer só uma das duas corridas. A verdade é que não me entendi bem com o carrinho da categoria, que é muito gostoso, apesar da posição desconfortável no cockpit. Decidi que seria arriscado largar tendo o histórico no formulinha limitado a um treino de meia hora – treino que, no meu caso, foi marcado por uma série de rodadas e saídas de pista. O carrinho é manhoso, isso é fato; e só hoje cedo soube, do próprio Juka, que quando fui para a pista o carro estava praticamente sem freios, o que pode justificar um pouco do excesso de erros. Ainda vou experimentá-lo mais algumas vezes, combinei isso com o Juka. Numa dessas pode sair uma participação em 2017, sim.

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O Rodrigo Ruiz me flagrou treinando com o F-1600 da Jukamotors. A Rita nem sabia que eu estava na pista naquele momento com um carrinho tão manhoso quanto divertido, que já está na pauta de 2017.

À tarde, com o Gol da Paraguay Racing de coração novo, voltei à pista. Minha melhor volta no treino veio em 2min07s011 – o que me fez ganhar uma aposta na turma sarrista aqui de Cascavel, que duvidava de qualquer coisa abaixo de 2min08s. O navegador digital indicava, a certa altura, o fechamento de uma volta em 2min06s7, mas tive de abortá-la na subida do Café por conta de uma interrupção do treino. Vi a bandeira vermelha no posto 18, tirei o pé e fui direto para os boxes certo de que voltaria em seguida à casa dos 2min06s. Jamais voltei em todo o fim de semana.

A tomada de tempos, no sábado de manhã, foi uma decepção completa. Nada abaixo de 2min10s, o que me deixou em 32º no grid. Caramba, menos de 20 horas antes eu subia o Café pronto para virar em 2min06s7. Bem, o que tinha era uma 16ª fila no grid, e assim fui para a corrida do sábado. Como tenho dito aos amigos mais próximos, foi uma corridinha bem boa se levado em conta o meu baixo futebol. Mesmo com uma dificuldade na redução de quinta para quarta marcha, que já havia dado as caras nos treinos e que levou a rapaziada da equipe a uma série de tentativas de solução – até o câmbio foi trocado. Foi complicado, porque a cada volta, sobretudo no fim da reta dos boxes, eu tinha alguma certeza de que a quarta não entraria. Tinha de frear muito cedo, na tentativa de segurar o carro no freio. Bem longe do ideal.

Enfim, ultrapassei, fui ultrapassado, errei, defendi, ataquei – em boa parte pelo ótimo rendimento do carro que os meninos do Muriel Stumpf me entregaram – e terminei em 19º na geral. Fui ao pódio em terceiro na Novatos, a minha classe, com vitória do Ale Peppe e segundo lugar do Erik Mayrink, que garantiu o título. Fui ao pódio em Interlagos! Bem, azar dos fotógrafos que estavam registrando a premiação. Molhei as lentes de muitos deles com champanhe. A câmera GoPro dividiu a gravação da corrida em dois arquivos, como estou sem nenhum programa de edição aqui postei os dois isoladamente no YouTube.

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À moda da casa, consegui ir ao pódio nas três pistas em que corri em 2016 – Curitiba, Cascavel e agora Interlagos. O lacre na foto não deixa dúvidas quanto à autoria: mais uma do Rodrigo Ruiz.

O único compromisso do domingo seria a segunda corrida da etapa final do Paulista de Marcas, que já tinha definido seus campeões na véspera – Wanderson Freitas/Edgard Amaral na categoria Super, Nelson Fortes na Light, Mayrink na Novatos. A pista estava bem mais escorregadia que no sábado. Desta vez largamos com o sol a pino, por volta do meio-dia, diferente da largada em fim de tarde da primeira prova. Demorei um pouco para me habituar a isso e, verdade seja escrita, tive um começo de prova excessivamente conservador. Fui bundão, mesmo, e isso me custou uma série de posições. Comecei a assumir meu ritmo na segunda volta e passei a buscar algumas das posições perdidas.

Na quarta volta, momento que acabaria levantando um monte de interrogações na base do “e se?”: ultrapassei o João Lemos na reta Oposta e assumi, por alguns instantes, o terceiro lugar na categoria Novatos, que tinha 11 carros. Na freada do Laranjinha, uma saída de pista. Não consegui reduzir de quinta para quarta marcha e deixei que o carro rolasse direto pela área de escape, onde consegui engatar uma terceira para voltar à pista. Todo o miolo de Interlagos é contornado em terceira marcha com os carros de Marcas 1.6. Na descida do Mergulho, a quarta entrou normalmente; na freada da Junção, a tentativa de nova redução para terceira deu em nada. Fui para a grama. Até consegui voltar, mas já não tinha mais nada de embreagem. Subir a reta e, impossibilitado de mudar marchas, estacionei o carro na grama pelo lado interno do S do Senna. Foi foi de corrida. O Francisco Paiva Júnior terminou em primeiro e o João Lemos em segundo, só que o Juninho acabaria punido por um toque com o Mayrink e a vitória ficou com o Lemos, com quem dividimos o box 4 durante o fim de semana. Disse ao Lemos, um português que mora no litoral paulista, que teria conseguido me manter à frente dele se a embreagem não quebrasse. Ele assentiu. E se? E se? Bem, carros de corridas quebram, às vezes por puro capricho, às vezes porque não os tratamos com o devido carinho. Talvez tenha sido culpa minha. Nunca vou saber.

O tal programa de edição de vídeo vai ser uma necessidade para 2017… De novo, tenho de pingar o material de domingo em dois vídeos. O primeiro tem 26min15s, mas a largada, mesmo, está depois dos 23min10s. Todo o restante é dispensável – formação de grid, volta de apresentação, essas coisas. O segundo vídeo traz os últimos momentos da minha participação, e tem longos minutos de absolutamente nada. Peguei os arquivos brutos para postar, a câmera só foi desligada quando o carro foi levado ao box pela rapaziada do resgate.

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Comemorando o pódio de sábado com a Rita e o bróder Leandro Romera, um doido que no dia seguinte me colocou para pilotar um Mercedes-Benz C250 Turbo. A foto é do Cláudio Kolodziej.

Um dos grandes parceiros do fim de semana foi o Leandro Romera, piloto dos bons, que tem equipes na Copa Petrobras de Marcas e no Mercedes-Benz Challenge. Esteve em Interlagos nas duas corridas finais do Paulista de Marcas & Pilotos me orientando pelo rádio. É o que chamamos de coach, no automobilismo. Funciona bem. Romera foi um dos meus parceiros na Cascavel de Ouro, naquela ocasião dividimos o carro com o Paulo Salustiano e coube a ele, Romera, me guiar via rádio, também. No último domingo, o Romera me confiou uma outra missão, já depois da nossa corrida: guiar um carro do Mercedes-Benz Challenge. Hã?

Pois é. Havia um grupo de convidados no autódromo e a incumbência da RSports, equipe do Romera, era levá-los para algumas voltas pela pista com os carros C250 Turbo. Eram dois carros. Ele assumiu um e me colocou no outro. Absorvidas as devidas instruções, lá fui eu para a pista com um daqueles carros que estou acostumado a ver nas corridas que narro pelo Bandsports, ora ao volante, ora no banco da direita, dando instruções à rapaziada que tinha seu primeiro contato com uma pista de corridas. Levaria a Rita para umas voltas ao fim da atividade, mas a bandeira quadriculada veio antes e a experiência da minha loira em uma pista de corridas ficou limitada às voltas em que o bróder Marcelo Gomes levou-a no safety car.

E assim terminou meu 2016 no automobilismo.

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A melhor ideia que tive foi a de convidar a Rita para ir comigo a Interlagos. A presença dela fez o fim de semana, que já seria bom demais, ficar ainda melhor. Mais uma pintura do Fernando Conto, essa foto.

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