De pai para filho

mello-2

Edu caiu de cabeça no mundo das corridas há umas quatro décadas. Acabou arrastando o filho Cássio para o mesmo caminho. Hoje e amanhã os dois correm em dupla em Homestead 

SÃO PAULO – Eduardo Homem de Mello é, assumidamente, um dos maiores contadores de vantagens que conheço. Sujeito sem papas na língua para quaisquer situações. “Ranzinza para alguns, polêmico para muitos, insuportável para a maioria, mas acima de tudo um ser humano fantástico!”, segundo a autodefinição que ilustra uma de suas redes sociais. Proclama aos quatro ventos (por que dizem “quatro ventos”?) ser tetracampeão mundial de um campeonato paulista, justificando que ninguém mais no mundo conquistou tais títulos. Faz sentido. Para ele, pelo menos.

Conheci o Edu a partir do trabalho que exerceu por cerca de 15 anos como comentarista nas transmissões da Fórmula Truck. Nunca dividimos a cabine de transmissão da Truck, quando eu cheguei para narrar algumas corridas ele já havia saído, mas já fizemos essa dobradinha de microfones em alguns outros campeonatos. Não tive competência suficiente, nesses anos todos, para me indispor com o Edu ranzinza, polêmico e insuportável. Nem ele e nem eu fazemos questão.

Edu é um daqueles sujeitos que dizem e fazem o que lhes dá na telha. Como piloto de corridas, sempre mandou aplicar a seus capacetes a pintura listrada de François Cevert – no começo do ano, aliás, ele me presenteou com uma das peças de seu acervo particular, é o capacete que protege minha cabeça oca quando participo de uma corridinha aqui, outra ali. Neste fim de semana o Edu realiza um sonho que, sem eufemismos, me causa uma invejinha: vai correr ao lado do filho, Cássio, que foi campeão da DTM Pick-up, além de vice-campeão e recordista de vitórias da Stock Júnior. Lembro de ter narrado participações dele na Stock Car Light na década passada, também. Andava meio afastado das corridas.

Eles vão revezar a pilotagem de um Ginetta G55 durante a programação da Miami 500, no Homestead Motor Speedway, prova válida pela liga Fara USA. Integram o Team Ginetta USA, equipe liderada pelo brasileiro Adolpho Rossi. Correr em dupla com o filho vai tornar o Edu ainda mais insuportável. Paciência, é por uma boa causa.

Há uma porção grande de pilotos do Brasil participando do evento, sei que a lista passa pelos nomes de outros amigos, como Vinicius Margiota, Beto Monteiro e Elias Azevedo, pelo menos. Que todos eles se divirtam bastante. Na próxima eu volto lá para participar da festa com eles.

mello-1

O G55 do Team Ginetta USA que Eduardo e Cássio Homem de Mello vão pilotar em Homestead na etapa deste fim de semana do Fara USA

Uma nova tentativa

f3-1GOIÂNIA – A fase crítica que o Sul-Americano de Fórmula 3 viveu no início da década suscitou mudanças. À míngua, a categoria passou por uma reestruturação técnica e logística pela Vicar Promoções e, desde 2014, trocou a chancela continental para se tornar a Fórmula 3 Brasil.

As medidas deram certo. O grid triplicou e chegou a apresentar 18 carros na soma das classes A e Light. Nada mau. Só que os rumos voltaram a ser tensos. Na etapa de ontem e hoje em Goiânia eram cinco os pilotos inscritos. Dennis Dirani alinhou com um sexto carro para que houvesse o mínimo exigido na pista.

Bem, novas mudanças fizeram-se necessárias e a Vicar acaba de anunciar um novo pacote de mudanças para o campeonato de 2017. A equalização dos motores pela JL Indústria, num formato como o já praticado na Stock Car e na Copa Petrobras de Marcas, está entre elas.

Providências são bem-vindas. Seria doloroso para o automobilismo ver acabar a única categoria de monopostos que sobreviveu às duas últimas décadas.

f3-2

 

Brasileiro à moda mineira

fest1

O bâner de divulgação do Festival Brasileiro de Marcas & Pilotos apresenta, sob efeito de estilização, os carros dos pilotos mineiros Wilton Pena, Gustavo Mascarenhas e Leandro Freitas

GOIÂNIA – Em menos de um mês, salvo eventuais desclassificações em série como as de 2015 em Guaporé e a consequente apresentação de recursos, o automobilismo conhecerá o campeão do 8º Festival Brasileiro de Marcas & Pilotos.

Os regulamentos técnico e desportivo estão disponíveis nesse link aqui. Há um outro link, esse aqui, com o RPP, sigla óbvia para regulamento particular da prova, que informa o formato da disputa, com tomada de tempos de 15 minutos e três baterias de 25 minutos mais uma volta, cada. Critérios de desempate e outras particularidades estão esmiuçadas ali, também. Detalhes que me chamaram atenção, até porque foi também atrás disso que acessei o regulamento: a taxa de inscrição no Festival Brasileiro é de R$ 1.500 e os pilotos que fizerem o pagamento na conta bancária indicada até o próximo dia 28 terá desconto de R$ 100 nos treinos livres da sexta-feira, 2 de dezembro – logo, os treinos livres serão cobrados à parte pelos promotores.

O grid em Curvelo é limitado a 56 carros. Quando se fala em grid máximo é inevitável pensar numa repescagem prévia para definir os participantes eliminados antes das baterias. Não vai acontecer, o que é uma pena, apesar dos campeonatos regionais da categoria terem bons grids hoje – Goiânia, Cascavel e Curitiba, com seus Metropolitanos, além dos estaduais de São Paulo e do Rio Grande do Sul, proveriam carros suficientes para a repescagem que supus.

(Aliás, quando foi a última vez que uma prova de automobilismo no Brasil teve repescagem? Lembro da final nacional da Copa Corsa de 1995, em Interlagos. Algo do gênero depois disso?)

A primeira edição do Festival aconteceu em Cascavel, em 2009. O campeão foi um piloto da cidade, Marco “Tico” Romanini. No ano seguinte, a competição teve duas fases, nas pistas de Curitiba, em Pinhais, e Tarumã, na gaúcha Viamão. Régis Boessio, gaúcho de Canoas, arrebatou o título. Curitiba recebeu o Festival em 2011, com título de Marcel Sedano Rodrigues, catarinense de Porto União. Outros dois paranaenses de Cascavel foram campeões em seguida: Luiz Fernando “Xuxo” Pielak, em 2012 em Curitiba, e Leandro Zandoná, em Guaporé, no ano seguinte. Em 2014, a edição de Curitiba teve empate triplo na pontuação e os critérios de desempate apontaram o goiano Gabriel Corrêa como campeão – foi o terceiro título consecutivo da cascavelense Ferrari Motorsport, equipe dos irmãos Edson e Jackson Ferrari. No ano passado, novamente em Guaporé, Analino “Choka” Sirtuli ficou com o título em mais uma edição do campeonato em Guaporé.

Mais informações a respeito do Festival Brasileiro de Marcas & Pilotos podem ser extraídas do site da Federação Mineira de Automobilismo ou de uma chamada telefônica ao número (31) 3271-5840. O site e o telefone só não são capazes de acabar com a única dúvida que eu tenho a respeito do evento: vou ou não vou?

marco-romanini-3

Paranaense de Cascavel, Marco Michelon “Tico” Romanini pilotou um dos carros da Stumpf Preparações e foi o campeão da primeira edição do Festival Brasileiro de Marcas & Pilotos, em 2009

A minha Cascavel de Ouro

CASCAVEL – Já mencionei aqui em outra ocasião que não tenho vergonha de expor as bobagens que faço quando entro numa pista de corridas. Não seria diferente numa ocasião tão especial quanto participar de uma Cascavel de Ouro.

Sequer sabia que nosso carro, o Gol número 88 da equipe Speed Car, tinha uma câmera interna instalada. Tinha, por obra e graça da Cíntia Azevedo, do Velocidade Curitiba. Recebi por e-mail os arquivos de vídeo da Cíntia e me comprometi comigo mesmo a publicá-los independentemente de qual fosse o grau de insuficiência técnica da minha, digamos, pilotagem.

Como só quem tem paciência para ver as imagens onboard é quem está onboard – ok, o torrônico Marcelo Gomes também tem –, pedi à Cíntia que selecionasse apenas as voltas que compreenderam a minha participação na corrida. Foram exatamente 21, segundo me revelam os mapas da Cronoelo, boa parte delas sob intervenções do safety car. A melhor do meu turno veio em 1min22s694, bem acima da mais rápida da corrida, que o Thiago Klein cravou em 1min18s232, recebendo por isso um bônus de mil dinheiros. Tomar quase quatro segundos e meio da melhor volta, em que pese o atenuante de não ter participado dos treinos por conta de uma viagem a trabalho, é coisa que incomoda bastante. Mas prometi não me fazer esse tipo de cobrança e preciso assumir o hábito de cumprir minhas promessas. A experiência toda foi bem divertida, que no fim das contas é o que vale. Para o ano que vem revejo e duplico minhas metas.

O material da Cíntia veio fragmentado em três partes por conta dos limites dos mecanismos de transferência. Vi cada vídeo três vezes antes de postar. Ficou bem nítido para mim, também vai ficar para quem se prestar a ver, que a zebra na saída do Bacião me amedronta bastante, sei que eu saiba exatamente por quê. As da entrada do Retão e da entrada da reta dos boxes assustam, também. Por que raios tenho esse receio de usar as zebras, se elas estão lá justamente para isso, para que as usemos?

Seguem os vídeos, pois. Sei que vão resultar em zombarias e dicas valiosas.

Luc Parade

CASCAVEL – Já me meti a fazer muita coisa na vida. Bem ou mal, muitas delas foram adiante de algum modo. Já ataquei como poeta, jornalista, caricaturista, kartista, cantor de dupla sertaneja, mestre de cerimônias, narrador, piloto. Tudo isso já aconteceu por algum tempo nos meus menos de 40 anos de vida, algumas coisas com maior aptidão, outras com menos, outras com quase nenhuma.

Teve coisa em que me meti e que sequer saiu do papel. Ou da sala de ensaios. Nenhum de vocês sabia, até hoje, que fui vocalista de banda de rock. Aos que vão perguntar qual era a banda, já antecipo que sequer lembro o nome de todos os músicos e que a banda não chegou a ser batizada. A escolha do nome era um drama que acompanhava os pouco mais de dez ensaios que fizemos.

Brasília, 2008. Foi onde e quando recebi, às portas do hotel onde estava hospedado durante a segunda etapa do Telefónica Speedy GT3 Brasil – que no ano seguinte se tornaria o Itaipava GT Brasil -, um telefonema do Christian, que já conhecia por ser o guitarrista da banda que acompanhava a dupla Lincon & Luan. E era, é, filho da dona do bar de Cascavel que eu frequentava a época, o 90 Graus. Christian tocava sertanejo para ganhar uns cobres, mas seu grande barato era o rock. Reuniu uns amigos, resolveram que iriam formar uma banda, mas precisavam de vocalista. Ele contou que tinha um baixinho que ia sempre ao 90 Graus e que “cantava pra caralho” (foram as palavras que o baterista me narrou dias depois). Liga pro cara, decretaram. O Christian ligou. Atendi em Brasília.

Não costumo me assustar diante de novidades assim e aceitei a missão. Quando cheguei de viagem, já havia um repertório de umas dez ou doze músicas pronto. Eu teria de aprender todas elas, em inglês. “Everything about you”, a peça de hoje na série que tento retomar aqui no blog, era uma delas.

Bem, a banda não decolou. Maioria de nós sugerimos o nome 90 Graus, mas alguém foi atrás de pesquisar e já existia essa banda, embora eu dela nunca tenha ouvido falar. E minha atuação como vocalista durou até determinado ensaio, lá mesmo no 90 Graus, que era acompanhado por uma cantora. Culpa do Axl Rose. Dias antes, enquanto tocava “Sweet child o’mine” no som do boteco, sinalizei ao Christian que a colocasse no repertório. Foi feito. Bela pretensão, a minha, de alcançar a extensão vocal do Axl. Na primeira tentativa, naquele ensaio, vi que não daria pé para mim e, como que para descontrair, joguei o microfone no colo da tal cantora. Que sabia a letra de cor e foi até o fim, surpreendendo os caras da banda. Perdi o posto ali.

Foi pena a banda não passar dos ensaios. Aqueles caras são muito bons.