Domingo sem bravatas

MARCOS MOCELIN

Marcos Mocelin e sua irmã Camila ao lado do carro número 16 da equipe Ribecar, que acabaria destruído no assustador acidente de ontem.

CASCAVEL – Era para ser um domingo de festa. Era um dos dias mais aguardados dos últimos meses pelos 43 que nos inscrevemos para a primeira etapa do Campeonato Metropolitano de Automobilismo de Cascavel, 29 na categoria Marcas & Pilotos e outros 14 na Turismo 1600. Era para darmos, como sempre damos, importância exagerada a cada curva, a cada erro, a cada ultrapassagem, a um trofeuzinho de quinto ou quarto lugar. Era para contarmos bravatas e celebrarmos, à nossa moda, mais um animado domingo de corridas.

Nada disso aconteceu. Saímos do autódromo todos preocupados, apreensivos, cabisbaixos e repensando uma série de valores. Um acidente como nunca havia visto nas nossas categorias regionais fez o evento parar para não mais ser retomado. Dois colegas de pista envolvidos e levados à UTI hospitalar. Para maioria dos pilotos, dois amigos; no meu caso, um grande amigo de longa data e um garoto que não conhecia, embora o tenha visto e já tenha narrado ao vivo uma corrida da qual participou.

Aconteceu na primeira bateria de Marcas. A da Turismo 1600 já tinha transcorrido, meu carro esteve na pista com meu parceiro Felipe Carvalho, eu tentava disfarçar alguma tranquilidade para encarar a pista na corrida que viria no meio da tarde. Fui para a nova arquibancada do S do Saul acompanhar a disputa. Fui sozinho, de macacão, mesmo. Lá encontrei algumas turmas de amigos – o que mais encontramos em autódromos são amigos, isso é uma coisa legal. Víamos e gravávamos vídeos amadores do que acontecia na pista. Quatro ou cinco voltas depois, surge uma bandeira amarela no posto de sinalização, justificando a correria de alguns dos amigos de ouvido mais aguçado instantes antes.

O acidente aconteceu na curva que dá acesso à reta dos boxes. Marcos Mocelin, que vi algumas vezes no box da equipe Ribecar, tentava ultrapassar César Chimin, com quem passei alguns dias na Flórida na semana anterior. A manobra não aconteceu. O único vídeo disponível até então, produzido pela equipe do Beto Borghesi para a edição da corrida, mostra os dois carros saindo desgovernados para a área de escape e arrebentando violentamente nas barreiras à beira da pista.

A correria até o local foi intensa. Muita gente invadiu a pista, alguns movidos pelo ímpeto de auxiliar no socorro a Marcos e César, outros pelo mero inconveniente de estarem próximos de um episódio trágico. Fui com alguns dos amigos até a mureta que separa os boxes da pista, e dali acompanhamos a atuação de socorristas, comissários e curiosos. Em dado momento, alguém que atuava no atendimento ao Marcos proclamou “código 3!”. Um rapaz que estava ao meu lado, conhecedor dos códigos das situações de emergências, levou a mão ao rosto e compartilhou seus conhecimentos conosco. Concluiu que a situação era mesmo grave, porque se o código fosse 4 significaria a morte do piloto.

A partir daí não se passaram mais que dez minutos até que comunicassem a ocorrência do código 4. Era comunicação interna entre um grupo de trabalho, mas eclodiu em questão de poucos segundos por todo o autódromo. Um vazio indigesto nos dominou. Muitos entregaram-se às lágrimas, ao desespero. Ficamos desnorteados, essa é a verdade. Eu observava tudo aquilo andando sem saber para onde, talvez para o box da minha equipe. Foi quando o panorama mudou.

Algumas dezenas de torcedores que acompanhavam tudo do alambrado externo do autódromo deram início a um aplauso que, penso, acabou tendo participação de todos nós. Um socorrista havia bradado o reestabelecimento dos sinais vitais de Marcos Mocelin. Apesar dos longos minutos sem atividade cardíaca e respiratória, o piloto voltou à vida. Jamais alguém vai confirmar ou negar, mas ouvi que os próprios socorristas já haviam desistido de tentar trazê-lo de volta e que um deles, talvez por desencargo de consciência, empreendeu uma última tentativa de massagem cardíaca. Foi a diferença entre a vida e a morte.

CESAR CHIMIN

César Chimin foi meu anfitrião em Orlando e esteve comigo dez dias atrás em Homestead, na etapa do FARA USA. É o amigo que me telefona dos Estados Unidos em fim de semana de corrida para passar dicas de pilotagem do Escort, modelo com que colecionou vitórias e títulos pelas bandas de cá na década passada.

Os acidentados, cada um numa UTI móvel, foram levados à UTI do hospital Dr. Lima. César, que também desmaiou por conta da violenta batida, sofreu um pequeno edema cerebral, consequência da desaceleração brusca, teve uma costela fraturada e uma perfuração de pouca dimensão no pulmão. Deveria sair ainda hoje da terapia intensiva para o quarto, mas os últimos exames apontaram a evolução de um pequeno edema pulmonar e a determinação é de que permaneça sob observação pelo menos até o fim da semana. Nada que preocupe em demasia, é o que assegura a equipe médica. O caso de Marcos é bem mais grave. Gravíssimo. Teve edemas bem mais sérios, inchaço do cérebro, traumas torácicos e hemorragias. Não recobrou a consciência em momento algum. Um amigo que acompanha o caso no hospital contou que Camila, irmã de Marcos, esteve com ele na UTI e contou que notou movimentos de suas pálpebras enquanto falava com ele. Os médicos que o atendem determinaram 72 horas de prazo, estimativa para que as condições clínicas permitam os procedimentos cirúrgicos.

Há quem diga que o Marcos tenha sido acometido por um mal súbito durante a corrida. É uma tese que faz pleno sentido, sobretudo por não haver qualquer indício de que tenha tentado frear ou fazer a curva. Só quem viu as imagens onboard do carro do César foi o comissariado de prova; não sei se Marcos tinha câmera instalada em seu carro.

Reunimo-nos, os pilotos participantes da etapa, com a direção de prova tão logo as ambulâncias com Marcos e César deixaram o autódromo. A decisão tomada pela maioria, e seguida por todos, foi de que se suspendessem todas as atividades do evento automobilístico. A corrida em que houve o acidente foi cancelada. Para efeito de campeonato, e só para esse efeito, ela não existiu. As segundas baterias da Turismo 1600 (realizada instantes antes) e de Marcas & Pilotos serão repostas, provavelmente na véspera da próxima etapa. É o que menos importa agora.

MARCOS FELIPE MOCELIN

Marcos Mocelin no briefing de sábado à tarde. Dos 43 que estavam ali, é o único com quem jamais conversei: coincidência tão incômoda quanto irrelevante.

Gente ligada às corridas em todos os cantos do Brasil me pergunta a cada pequena porção de minutos sobre a situação dos pilotos. Estou perto dos fatos, afinal, em comparação aos amigos que emanam suas boas energias de todos os lugares pela recuperação dos dois pilotos. Como temos feito nós, ligados diretamente ao automobilismo de Cascavel.

Éramos, repito, 43 os pilotos de automobilismo inscritos na etapa de ontem. 24 carros nas classes A e B da categoria Marcas & Pilotos, cinco deles com duplas de pilotos, outros 10 na Turismo 1600, com quatro duplas e seis inscrições individuais. Fiz questão de examinar as listas, nome por nome. Marcos é o único com quem jamais troquei uma palavra. Fico procurando algum significado para esse tipo de constatação; é coisa que me assusta um pouco, devo admitir, embora sem saber por quê.

Espero ter, ainda, a oportunidade de trocar algumas palavras com o Marcos. Ou de me juntar à sua turma na mesa de truco improvisada sobre uma pilha de pneus de corrida a dois boxes do meu. Agora, sobretudo, a chance de ter conversado com os 43 pilotos da primeira etapa de 2016, a que não acabou, torna-se um evento estatístico dos mais importantes.

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9 pensamentos sobre “Domingo sem bravatas

  1. Força e Fé tudo vai dar certo , muito assustador esse tipo de coisa e raro no nosso esporte mas infelizmente acontece …

  2. Tive o prazer de correr com o Cesar e Ruy, inclusive há alguns anos atrás, qdo fui participar de uma corrida do paranaense em Cascavel, o Cesar me chamou pro churrasco na casa dele na sexta feira que antecede o evento, mesmo sendo um rival nas pistas, tinhamos uma amizade muito legal fora. Gosto muito dele e estou aqui na torcida para que dê tudo certo ao Cesar e Marcos também. Faz muitos anos que parei de correr, mas tenho um carinho enorme por alguns amigos de Cascavel, inclusive pelo Cesar. Espero que esse tipo de acidente não se repita e que estarei orando por melhoras à eles. Grande Abraço a todos.

  3. Na torcida pela recuperação dos dois. É o que nos resta. Automobilismo é esporte de risco diz o chavão. Como mero fã de corridas te pergunto: dá para melhorar a segurança desses carros para minorar “danos” em acidentes graves assim?

    • O que dá pra fazer, é colocar mais pneus como barreira nas curvas. E os que tem estão cheio de terra, mesma coisa de nada. Podem ver in loco no S, em Cascavel.

  4. Força e fé para todos os familiares dos dois. Deus está no controle de tudo.
    Estudei com o Marquinhos no colégio e ainda não me caiu a ficha chega doer o coração de pensar em tudo isso.
    Marquinhos, força a sua família e os seus amigos precisam de você!!!
    #VamoCara #VocêÉForte!!

  5. Vamos juntos estar orando pela recuperação dos pilotos. Que Deus os abençoe! Parabéns a equipe que os socorreram e a todos envolvidos nos procedimentos de saúde para recupera-los. Abraço a Luc Monteiro.

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