Domingo sem bravatas

MARCOS MOCELIN

Marcos Mocelin e sua irmã Camila ao lado do carro número 16 da equipe Ribecar, que acabaria destruído no assustador acidente de ontem.

CASCAVEL – Era para ser um domingo de festa. Era um dos dias mais aguardados dos últimos meses pelos 43 que nos inscrevemos para a primeira etapa do Campeonato Metropolitano de Automobilismo de Cascavel, 29 na categoria Marcas & Pilotos e outros 14 na Turismo 1600. Era para darmos, como sempre damos, importância exagerada a cada curva, a cada erro, a cada ultrapassagem, a um trofeuzinho de quinto ou quarto lugar. Era para contarmos bravatas e celebrarmos, à nossa moda, mais um animado domingo de corridas.

Nada disso aconteceu. Saímos do autódromo todos preocupados, apreensivos, cabisbaixos e repensando uma série de valores. Um acidente como nunca havia visto nas nossas categorias regionais fez o evento parar para não mais ser retomado. Dois colegas de pista envolvidos e levados à UTI hospitalar. Para maioria dos pilotos, dois amigos; no meu caso, um grande amigo de longa data e um garoto que não conhecia, embora o tenha visto e já tenha narrado ao vivo uma corrida da qual participou.

Aconteceu na primeira bateria de Marcas. A da Turismo 1600 já tinha transcorrido, meu carro esteve na pista com meu parceiro Felipe Carvalho, eu tentava disfarçar alguma tranquilidade para encarar a pista na corrida que viria no meio da tarde. Fui para a nova arquibancada do S do Saul acompanhar a disputa. Fui sozinho, de macacão, mesmo. Lá encontrei algumas turmas de amigos – o que mais encontramos em autódromos são amigos, isso é uma coisa legal. Víamos e gravávamos vídeos amadores do que acontecia na pista. Quatro ou cinco voltas depois, surge uma bandeira amarela no posto de sinalização, justificando a correria de alguns dos amigos de ouvido mais aguçado instantes antes.

O acidente aconteceu na curva que dá acesso à reta dos boxes. Marcos Mocelin, que vi algumas vezes no box da equipe Ribecar, tentava ultrapassar César Chimin, com quem passei alguns dias na Flórida na semana anterior. A manobra não aconteceu. O único vídeo disponível até então, produzido pela equipe do Beto Borghesi para a edição da corrida, mostra os dois carros saindo desgovernados para a área de escape e arrebentando violentamente nas barreiras à beira da pista.

A correria até o local foi intensa. Muita gente invadiu a pista, alguns movidos pelo ímpeto de auxiliar no socorro a Marcos e César, outros pelo mero inconveniente de estarem próximos de um episódio trágico. Fui com alguns dos amigos até a mureta que separa os boxes da pista, e dali acompanhamos a atuação de socorristas, comissários e curiosos. Em dado momento, alguém que atuava no atendimento ao Marcos proclamou “código 3!”. Um rapaz que estava ao meu lado, conhecedor dos códigos das situações de emergências, levou a mão ao rosto e compartilhou seus conhecimentos conosco. Concluiu que a situação era mesmo grave, porque se o código fosse 4 significaria a morte do piloto.

A partir daí não se passaram mais que dez minutos até que comunicassem a ocorrência do código 4. Era comunicação interna entre um grupo de trabalho, mas eclodiu em questão de poucos segundos por todo o autódromo. Um vazio indigesto nos dominou. Muitos entregaram-se às lágrimas, ao desespero. Ficamos desnorteados, essa é a verdade. Eu observava tudo aquilo andando sem saber para onde, talvez para o box da minha equipe. Foi quando o panorama mudou.

Algumas dezenas de torcedores que acompanhavam tudo do alambrado externo do autódromo deram início a um aplauso que, penso, acabou tendo participação de todos nós. Um socorrista havia bradado o reestabelecimento dos sinais vitais de Marcos Mocelin. Apesar dos longos minutos sem atividade cardíaca e respiratória, o piloto voltou à vida. Jamais alguém vai confirmar ou negar, mas ouvi que os próprios socorristas já haviam desistido de tentar trazê-lo de volta e que um deles, talvez por desencargo de consciência, empreendeu uma última tentativa de massagem cardíaca. Foi a diferença entre a vida e a morte.

CESAR CHIMIN

César Chimin foi meu anfitrião em Orlando e esteve comigo dez dias atrás em Homestead, na etapa do FARA USA. É o amigo que me telefona dos Estados Unidos em fim de semana de corrida para passar dicas de pilotagem do Escort, modelo com que colecionou vitórias e títulos pelas bandas de cá na década passada.

Os acidentados, cada um numa UTI móvel, foram levados à UTI do hospital Dr. Lima. César, que também desmaiou por conta da violenta batida, sofreu um pequeno edema cerebral, consequência da desaceleração brusca, teve uma costela fraturada e uma perfuração de pouca dimensão no pulmão. Deveria sair ainda hoje da terapia intensiva para o quarto, mas os últimos exames apontaram a evolução de um pequeno edema pulmonar e a determinação é de que permaneça sob observação pelo menos até o fim da semana. Nada que preocupe em demasia, é o que assegura a equipe médica. O caso de Marcos é bem mais grave. Gravíssimo. Teve edemas bem mais sérios, inchaço do cérebro, traumas torácicos e hemorragias. Não recobrou a consciência em momento algum. Um amigo que acompanha o caso no hospital contou que Camila, irmã de Marcos, esteve com ele na UTI e contou que notou movimentos de suas pálpebras enquanto falava com ele. Os médicos que o atendem determinaram 72 horas de prazo, estimativa para que as condições clínicas permitam os procedimentos cirúrgicos.

Há quem diga que o Marcos tenha sido acometido por um mal súbito durante a corrida. É uma tese que faz pleno sentido, sobretudo por não haver qualquer indício de que tenha tentado frear ou fazer a curva. Só quem viu as imagens onboard do carro do César foi o comissariado de prova; não sei se Marcos tinha câmera instalada em seu carro.

Reunimo-nos, os pilotos participantes da etapa, com a direção de prova tão logo as ambulâncias com Marcos e César deixaram o autódromo. A decisão tomada pela maioria, e seguida por todos, foi de que se suspendessem todas as atividades do evento automobilístico. A corrida em que houve o acidente foi cancelada. Para efeito de campeonato, e só para esse efeito, ela não existiu. As segundas baterias da Turismo 1600 (realizada instantes antes) e de Marcas & Pilotos serão repostas, provavelmente na véspera da próxima etapa. É o que menos importa agora.

MARCOS FELIPE MOCELIN

Marcos Mocelin no briefing de sábado à tarde. Dos 43 que estavam ali, é o único com quem jamais conversei: coincidência tão incômoda quanto irrelevante.

Gente ligada às corridas em todos os cantos do Brasil me pergunta a cada pequena porção de minutos sobre a situação dos pilotos. Estou perto dos fatos, afinal, em comparação aos amigos que emanam suas boas energias de todos os lugares pela recuperação dos dois pilotos. Como temos feito nós, ligados diretamente ao automobilismo de Cascavel.

Éramos, repito, 43 os pilotos de automobilismo inscritos na etapa de ontem. 24 carros nas classes A e B da categoria Marcas & Pilotos, cinco deles com duplas de pilotos, outros 10 na Turismo 1600, com quatro duplas e seis inscrições individuais. Fiz questão de examinar as listas, nome por nome. Marcos é o único com quem jamais troquei uma palavra. Fico procurando algum significado para esse tipo de constatação; é coisa que me assusta um pouco, devo admitir, embora sem saber por quê.

Espero ter, ainda, a oportunidade de trocar algumas palavras com o Marcos. Ou de me juntar à sua turma na mesa de truco improvisada sobre uma pilha de pneus de corrida a dois boxes do meu. Agora, sobretudo, a chance de ter conversado com os 43 pilotos da primeira etapa de 2016, a que não acabou, torna-se um evento estatístico dos mais importantes.

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Meu fim de semana em imagens

BLOG

CASCAVEL – Alguns dos amigos já devem ter vindo ao blog atrás de informações sobre o acidente entre Marcos Mocelin e César Chimin, ontem no autódromo de Cascavel, que levou à suspensão das atividades da primeira etapa do Campeonato Metropolitano das categorias Marcas & Pilotos e Turismo 1600. Falarei disso dentro instantes.

Por ora, compartilho com os amigos algumas imagens – maioria delas da lavra da Sandra Zama – que resumem parte do que foi meu fim de semana na Turismo 1600. Tal qual na etapa final de 2015, quando voltei a mexer nesse negócio, com o Ford Escort da Paraguay Racing e suporte técnico da Cezarotto Motorsport.

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O mau tempo deu a tônica ao fim de semana, aponto de adiarem os treinos classificatórios de sábado à tarde, quando não havia visibilidade alguma, para ontem cedo. Fiz a tomada de tempos e fiquei em sexto. Eram dez os carros inscritos. Tinha o terceiro melhor tempo do treino classificatório até a metade, quando houve uma interrupção com bandeira vermelha. O treino foi retomado e o fato é que eu não soube lidar com as quatro condições diferentes de aderência que tínhamos na pista naquele momento. Um trecho estava encharcado, outro estava molhado, outro estava úmido e algumas partes estavam secas. O restante da galera conseguiu melhorar, eu não consegui, despenquei para sexto.

Com a terceira fila do grid, Felipe e eu decidimos que ele largaria para a primeira bateria. O André Bragantini, consultado pelo Felipe, achou que seria o melhor a fazermos. E lá foi o garoto para sua corrida de estreia. Teve até de fazer uma parada nos boxes, algo com o carro que o pessoal da Cezarotto sanou rapidamente para devolvê-lo a pista. O moleque viu a quadriculada em sua primeira corrida. Terminou no mesmo sexto lugar que ocupou no grid.

O complemento desta primeira etapa foi adiado por conta do já acidente na corrida de Marcas & Pilotos. Não havia clima para corrermos depois daquele drama todo – cabe ressaltar que a decisão de não corrermos não teve unanimidade. É provável que a segunda bateria de cada categoria, e no caso da Turismo 1600 vai ser a minha estreia na temporada, aconteça na véspera da próxima etapa, marcada para 3 de abril.

Felipe e eu tivemos, nesta abertura de campeonato, apoio de Grupo Oda, OnLine Gerenciamento Esportivo, Casa Wireless, Inspevel Inspeção Veicular, ABS Sports, Loja Poderoso Timão, Sensei Sushi Bar e Auto Posto Maçarico.

O tesouro de Mr. Vernon

CASCAVEL – É muito provável que eu volte algumas vezes a assuntos inerentes à viagem que terminou hoje cedo, contextos que ainda preciso digerir para ter uma noção do que pode ou não interessar a vocês. Mas isso aqui eu não poderia deixar de compartilhar.

Ontem, último dia dessa primeira peregrinação de 2016 pelos EUA, saí para algumas visitas despretensiosas, devidamente ciceroneado pelo Robson, brasileiro que vive pelas bandas de lá há mais de nove anos. “Gosta de carros antigos?”, perguntou o Robson. “Gosto, mas entendo rigorosamente nada da arte”, respondi.

VERNONAinda em South Beach, ele estacionou no pátio da Ted Vernon Specialty Autos Inc,. Tem cada coisa lá que só vendo. Raridades e beldades para todos os gostos. Mr. Vernon não estava no lugar. Robson contou-me do dia que levou dois de seus fãs ao lugar para conhecerem-no, descreveu a tietagem e a atenção dispensada pelo bigodudo, um ex-pugilista bastante famoso pelas bandas de lá por conta programa sobre carros que apresenta num canal de televisão, salvo engano o Discovery. Imperdoável, também, que eu não soubesse de quem se trata.

Em vídeo amador, compartilho com vocês um pouco do acervo de Mr. Vernon.

No meio caminho surgiu uma joinha que me enganou imperdoavelmente à primeira vista: pensei tratar-se de um exemplar clássico da Porsche. Obviamente não era um Porsche, o que não invalida a visita deliciosa pelas instalações de Ted Vernon. Vendo pelo lado positivo, uma derrapada que serve para corroborar o que disse ao Robson sobre meus conhecimentos acerca dessas máquinas que fazem qualquer um babar.

Pódios brazucas em Homestead

FARA USA - CORVETTE DP.jpg

O belíssimo protótipo Corvette DP de Eric Curran e William Hubbel, dupla que liderou de ponta a ponta a segunda etapa da temporada do FARA USA no Homestead-Miami Speedway.

MIAMI – Foi um fim de semana bem divertido, esse do FARA USA no Homestead-Miami Speedway. Da categoria, falei um pouquinho no último post. Ontem foi o dia da corrida principal, quatro horas de duração, uma porção de brasileiros correndo e três aparições verde-amarelas no pódio.

Como toda boa corrida de longa duração, as etapas do FARA USA têm subdivisão em várias categorias, delimitadas pela configuração técnica de cada carro inscrito. A vitória geral foi do Corvette Daytona Prototype dos norte-americanos (ou estadunidenses, como prefere o bróder Rodrigo Mattar) William Hubbell e Eric Curran, formação imbatível em quase todo o fim de semana.

FARA USA - ALLINE CIPRIANI.jpg

Alline Cipriani, única mulher no grid da Homestead 500 Road Racing, mostrou ser campeã de popularidade entre os torcedores do campeonato. Aliás, o número de pessoas que circulavam entre os carros durante o pré-grid era coisa para a casa de milhar. Ou de milhares. A Ginetta G55 número 15. liderou a prova na classe MP-1B com Ramon Alcaraz, mas parou com problemas mecânicos.

Mas falemos das aparições brasileiras no pódio, que é o que deve interessar aos que vieram a esse post. O Rapha Matos subiu duas vezes (e numa delas levou junto a Julinha, filha de poucos meses de vida), por ter participado com dois carros diferentes – pilotou um no começo da corrida, outro no fim. Assim, o mineiro comemorou a vitória na classe MP-3A ao lado do nativo Jared Wilson, com quem revezou o Mazda Speed da Miami Exotic Autosport, e foi segundo na classe MP1-B, pilotando uma Ginetta G55 no trio com Adolpho Rossi e meu conterrâneo paranaense Paulo Totaro. Outro trio de brasileiros, formado por Júlio Campos, Guilherme Figueirôa e Marcel Visconde, ficou em terceiro na MP-1A com a Lamborghini GT3 da BRT Motorsport. Como tinham voo de volta ao Brasil ainda ontem e saíram do autódromo poucos instantes depois da bandeira quadriculada, os três foram representados no pódio pelo Ricardo Landi, que vai pagar o hambúrguer de amanhã à noite no aeroporto de Fort Lauderdale.

FARA USA - LAMBORGHINI

O Lamborghini GT3 com que o mineiro Guilherme Figueirôa, o paulista Marcel Visconde e o paranaense Júlio Campos conquistaram o terceiro lugar na MP-1A. Esse é um dos carros da extinta GT Brasil que estão aqui nos Estados Unidos. Vi alguns outros na sede de uma oficina que tive a oportunidade de visitar durante o fim de semana.

A Homestead 500 Road Racing, esse foi o nome da corrida, marcou a estreia de Totaro na categoria. Coube a ele largar com a Ginetta número 45. Figurou por bom tempo em quarto na categoria, até que, perto da primeira hora de corrida, estacionou no box do Team Ginetta USA com o pneu dianteiro direito completamente destruído. Naquele momento a equipe considerou ser fim de chance para o trio, por ter ficado a três voltas do Porsche GT3 Cup de Alejandro Chahwan/Facu Chahwan, que liderou de cabo a rabo. Totaro voltou à pista, deu lugar a Rossi depois de mais um turno e, quando Matos assumiu o carro, a equipe estava em terceiro lugar na categoria – a essa altura, Ramon Alcaraz, que chegou a liderar a subdivisão por longo tempo, já havia parado definitivamente com problemas na outra G55, a de número 15. (sim, tinha o ponto depois do número), em que estava inscrito em dupla com a Alline Cipriani. Eram candidatos claros à vitória.

FARA USA - TOTARO E MATOS

Paulo Totaro estreou no FARA USA com pódio, com o segundo lugar na categoria MP-1B. À direita, Rapha Matos, que fez um fim de corrida digno de aplauso – Adolpho Rossi, que integrou o trio, não foi ao pódio, não sei por quê. A simpática modelo é uma das seis que a equipe Hubbell escalou para acompanhar a cerimônia de premiação no pódio.

Bem, o trabalho em equipe permitiu a Matos chegar à fase final da corrida na mesma volta de Paulo Lima, também brasileiro, vice-líder da categoria com outro Porsche GT3 Cup e parceiro do ianque Adam Yunis. Nos dez minutos finais, valendo-se da facilidade que os carros Ginetta oferecem para economia de equipamento e combustível, o mineiro veio se aproximando de Lima à razão de dois segundos e meio por volta. Falei ao chefe de equipe Alan Chanoski que seriam necessárias mais seis voltas – cinco para o Rapha chegar e uma, a última, para passar. Passou na penúltima, só para me contrariar. Foi festa no box da equipe, que deverá ter ainda mais pilotos, vários deles brasileiros, na próxima etapa, dia 3 de abril, também em Homestead.

FARA USA - MARCAO ALLINE RAMON

Ao estilo selfie, a foto de Marco Toledo Piza, um dos mecânicos da equipe, com os pilotos Alline Cipriani e Ramon Alcaraz, parceiros na pilotagem do Ginetta G55 número 15. do Team Ginetta USA.

Tem sido um ano de várias novidades, esse meu 2016. Vir aos EUA foi uma delas, já mencionei isso. Integrar um fim de semana de um campeonato que é pequeno para os padrões daqui, onde existem espetáculos do quilate da Nascar, da Grand-Am ou da Indy, foi experiência interessante, sobretudo porque fazer comparação com os moldes brasileiros é inevitável para qualquer um que trabalhe com corridas. Há muito dos formatos dos americanos que pode e deve ser incorporado ao nosso automobilismo, até com alguma facilidade.

FARA USA - STANDS

Fiz questão de caminhar por baixo da pista e assistir da arquibancada ao fim da reta à última das quatro corridas sprint que antecederam a Homestead 500 Road Racing. A estrutura dos caras é de fazer inveja a qualquer extraterrestre que resolva aterrissar na Flórida.

Uma das grandes sacadas que vi aqui, também já citada, é a realização das minicorridas, sempre depois da tomada de tempos classificatória, em substituição ao que seriam mais treinos livres. Quem quer ir à pista só para treinar, vai só para treinar e pronto. E há os que se inscrevem no evento apenas para disputar essas minicorridas. A prova principal do evento do fim de semana teve na pista 36 carros, se não me engano – a largada e os instantes que a antecederam estão no vídeo aí abaixo. As provas tipo sprint, com duração de 25 minutos, contaram com 52 carros. É uma opção que se tem, também.

Há muito, repito, o que o automobilismo brasileiro importar do automobilismo daqui. Talvez seja questão de querer. Sobretudo quando o assunto em questão é um campeonato de corridas de longa duração, coisa que, com respeitosa exceção ao trabalho dos gaúchos, não existe por lá. E quando existir eu também entro na pista.

Por ora, se me dão licença, vou tentar conhecer mais um pouquinho do mundo daqui. Amanhã embarco para casa, afinal, e não sei quando volto para cá. Mas não vai demorar.

(ATUALIZANDO EM 25 DE FEVEREIRO, ÀS 13h54)

Imperdoável da minha parte, até porque eu tinha conversado com os pilotos durante o jantar da sexta-feira no Olive Garden e sabia da participação deles. Fato é que havia mais uma equipe com pilotos brasileiros na Homestead 500 Road Racing. Marcio Sarot e Pablo Falquete, ambos de Curitiba, mais Rodrigo Alenaz, argentino de Buenos Aires, formaram o trio do Audi TT número 99 da Maranello Racing.

Não foi um fim de semana dos mais tranquilos ou favoráveis para Rodrigo, Pablo e Marcio, que enfrentaram problemas com o motor do simpático carrinho nos treinos e, também, na corrida. Apesar dos contratempos e das voltas que perderam na prova por conta disso, alcançaram o pódio da categoria MP-3A, a mesma que Matos e Wilson venceram. Aliás, um detalhe que chamou atenção na rapaziada da Maranello Racing foi o empenho: mesmo com tudo que deu errado, não desistiram em momento algum. Trabalharam, na pista e no box, para manter o carro na corrida até a última volta. Determinação é isso aí.

AUDI 99

O Audi TT de Sarot, Falquete e Alenaz: apesar dos inúmeros problemas que enfrentou com o carro ao longo do fim de semana, o trio conquistou o terceiro lugar na categoria

 

Um pouco do FARA USA

HOMESTEAD – A temporada do automobilismo, sob meu ponto de vista estritamente pessoal, começou com novidade. Pela primeira vez vim aos Estados Unidos, algo que pretendia ter feito muito tempo atrás. Fiz agora, está valendo, e pelo que vi nesses cinco dias perambulando por alguns pontos da Flórida estou mais do que convencido de que o futuro, talvez próximo, vai ser pelas bandas de cá. Sobre isso, minhas sempre pobres impressões e observações sobre o lado de cá, eu falo outro dia.

HOMESTEAD LUC 1Vim à Flórida a convite do Team Ginetta USA, uma das equipes que disputam o atrativo FARA USA. Para quem não conhece, é um campeonato de corridas de longa duração desenvolvidas nos autódromos da Flórida. A Homestead 500 Road Racing, que dá sequência amanhã à disputa pelo título das quatro categorias que compõem o grid (a última corrida de 2015 foi a primeira etapa da temporada), vai acontecer no Homestead-Miami Speedway, lógico. Não no oval de uma milha que conhecemos das etapas da Indy e da Nascar, no meu caso nesta ordem. O traçado do FARA USA contempla parte desse oval, quase metade dele, e o “infield”, trecho misto construído dentro das duas retas – algo como a pista que a Fórmula 1 utilizava até pouco tempo atrás em Indianápolis.

Passei três dias em Orlando. Windermere, para ser mais preciso. Fui tratado como rei pelo César Chimin e pela Denise, a quem espero retribuir de alguma forma tão logo surja a oportunidade. O César, piloto de corrida de alguns títulos no currículo, me acompanhou a Homestead. E acompanhou, também, o transcurso de um dia inteiro de atividades na pista e nos boxes. Pode ser mais um brasileiro a correr por aqui. Teve até a chance de estrear nesta etapa, mas preferiu conhecer direitinho o evento antes de alinhavar com o próprio Team Ginetta USA um treino para o mês que vem, para se ambientar ao carro. Pneus slick, câmbio sequencial, os freios potentes, tudo isso que representa um pouco de novidade para pilotos que atuam nos campeonatos regionais de Marcas 1.6.

HOMESTEAD BRASILEIROSFosse para eu apostar alguns dólares agora (já estão quase acabando!), eu diria que o César vai ser o próximo brasileiro nesse grid. Hoje cruzei com vários pilotos brasileiros. Os da foto aí acima, por ordem: Alline Cipriani, Guilherme Figueirôa, Marcel Visconde, Ramon Alcaraz, Adolpho Rossi, Paulo Totaro, Júlio Campos e Rapha Matos.

O formato praticado pelo FARA USA é bem interessante. Há clínicas para pilotos iniciantes no automobilismo e para os que já têm alguma bagagem e ainda não competiram na categoria (o César quase se inscreveu…), sessões de treinos isoladas. No caso dos novatos absolutos, o traçado é alterado para esses treinos, eliminando-se a velocíssima curva que traz à reta dos boxes, cujo ângulo de inclinação me assustou quando pisei no autódromo pela primeira vez, ontem à tarde. Esses, os estreantes, fazem só a clínica, ou “Academy”. Só vão correr quando assimilarem bastante e sentirem-se prontos, o que costuma ocorrer em pouquíssimo tempo.

Os treinos também são diferentes do que costumo ver nos campeonatos que acompanho a trabalho ou por lazer. Há, claro, as sessões livres e classificatórias, com as devidas divisões por categorias. São várias dezenas de carros na pista, afinal – a Homestead 500 Road Racing teve quase 60 na pista hoje, e me disseram que é um grid pequeno para os padrões do campeonato. Feita a tomada de tempos, há mais quatro sessões de treinos de 25 minutos. Mas, em vez de saírem à pista um a um para treinar, os pilotos saem para correr. Isso mesmo, quatro corridinhas de 25 minutos, cada, a título de treino. No caso daqui, três no sábado e outra no domingo. Tal qual na prova principal, a formação do grid não acontece na pista, mas no pit lane, e os carros já saem para as voltas de aquecimento em plena formação. No Brasil, a única categoria que faz isso é a Sprint Race, e sei que o Thiago Marques “importou” daqui esse formato. Hoje dei uma circulada pelo pré-grid, digamos assim. De celular na mão, fiz o videozinho aí abaixo.

Vê-se de tudo num grid como esse. Acura Integra, Audi R8 e TT, Backdraft TD, BMW 325, 525, M3 e Z4, Chevrolet Camaro, Corvette DP e Corvette Z06, Ford Mustang, Ginetta G40, G50 e G55, Honda Civic hatchback, CRX e S2000, Lamborghini GT3, Ligier JS e JS 51, Mazda 6, Miata, Mazda Speed 3, Mercedes-Benz C250, Porsche 944, Cayman S e GT3 Cup, Radical RXC Spyder-Ecoboost, Scion FRS, e até um VW Golf GTi são os carros que vão lotar a pista durante as quatro horas da corrida de amanhã. O 500 do nome da prova, aliás, denota a distância em quilômetros, e não em milhas, coisa que eu não esperava encontrar por aqui.

HOMESTEAD CARROSHá bastante, ainda, para compreender a respeito do FARA USA. De momento, e tendo pela frente o dia da corrida principal, uma das conclusões a que chego, sob meus próprios termos, é a de ser mais vantajoso correr aqui do que em um campeonato regional de turismo no Brasil. Sob o ponto de vista financeiro, inclusive e principalmente, e mesmo considerando as coordenadas do mapa múndi.

No dia 3 de abril vai rolar a segunda etapa, aqui mesmo em Homestead. Não descarto a possibilidade de abrir mão de correr em Cascavel (vai ser dia da segunda etapa do Metropolitano de Marcas) para estar aqui de novo. Talvez até para acompanhar a estreia do César e de mais dois ou três amigos.

HOMESTEAD CHIMIN

César Chimin acompanhou atento todo o andamento do evento e recebeu de Adolpho Rossi instruções detalhadas sobre os carros da marca Ginetta.

Giombelli de volta

GIOMBELLICASCAVEL – Vá lá que essa foto seja de quase 25 anos atrás. Sábado à tarde, não há a quem recorrer atrás de algo mais atual. Não tem problema. Ângelo Giombelli conserva a aparência, em que pese o manequim poucos números maior.

A questão que interessa é que Ângelo muda de condição. Sai da lista de ex-pilotos para a de pilotos em atividade. Isso porque vai disputar, em 2016, as seis etapas do Campeonato Metropolitano de Marcas & Pilotos, formando com Wanderley Faust a dupla do Ford Ka número 22 da Sérgio Ferrari Racing Team. Eles vão disputar, também, o Campeonato Paranaense e, posso afirmar, o Festival Brasileiro de Marcas 1.6, que ao que tudo indica terá sua próxima edição em Goiânia – palco da última vitória do Ângelo na Stock Car, em 1994.

A formação da dupla foi confirmada ontem à noite, durante a festa que o Automóvel Clube de Cascavel promoveu na Associação da Rádio Colmeia para premiar os campeões e os destaques da temporada de 2015. Ângelo tem dito há tempos que a história dele nas pistas ainda não tinha sido encerrada. É bom saber que tem razão.

A temporada do Metropolitano vai começar daqui a 15 dias. O grid das categorias A e B, único, tem por enquanto 23 carros confirmados – a lista completa está aqui. Serão pelo menos 25 alinhados na reta principal do Autódromo Zilmar Beux no dia 28.

Mais uma estreia

FC2CASCAVEL – Seguindo os passos do irmão mais velho Caíto, que estreou em 2015, Felipe Carvalho, 22 anos, vai disputar neste ano o Campeonato Metropolitano de Marcas & Pilotos de Cascavel. Ocorre que o Felipe, em situação que não é rara, jamais entrou num carro de corridas na vida. Vai ter a primeira experiência nos treinos de amanhã e sexta no autódromo de Cascavel, pista onde vai participar das seis etapas de 2016.

Para tanto, abdicou do jeitão despreocupado e encarou algo como uma pré-temporada de kart em São José dos Pinhais, tendo seu primo Arthur Lustosa como instrutor. Parece já ter aprendido alguma coisa, à custa da dedicação que empenhou a essa preparação, coisa que surpreendeu bastante gente de seu meio.

Amanhã vai ser o primeiro dia do Felipe acelerando um carro de corridas. A rivalidade em família está instaurada, queiram os irmãos ou não – e para desespero do Caio.