Lágrimas

BLOG CORRIDA - GRID (FG)

CASCAVEL – Mês passado fiz uma maluquice sem tamanho, que já contei aqui. Participei de uma corrida de carros. Mais que o exercício presumível de enxergar sob outro ponto de vista uma situação tão corriqueira para mim, que é uma corrida de carros, foi algo que me deu um fôlego. Tenho brincado com os mais próximos que, quando resolvi correr, estava precisando mesmo fazer alguma maluquice, algo como pular de paraquedas, desacatar alguma autoridade, beber um frasco de Pinho Sol ou correr de carro. Essa última alternativa me pareceu mais palpável, até porque não havia Pinho Sol em casa.

Aquela corridinha mexeu comigo, como já citei, quem está por perto percebeu isso. Foi bom. Mas não chegou as pés de uma outra corrida de carros, a de domingo último. E dessa eu nem participei. Falo da Cascavel de Ouro – aliás, não tenho falado de outra coisa nas últimas semanas. Não vim aqui para contar como foi a corrida. Fiz um pouco disso quando redigi o press release para a assessoria de imprensa do evento, e nesse cometi um erro grave logo na primeira sentença. “A 29ª edição da Cascavel de Ouro revelou o segundo nome de um piloto vencedor a também integrar a galeria de campeões”, foi como comecei o texto, engolindo um elemento importante. “A 29ª edição da Cascavel de Ouro revelou o segundo filho de piloto vencedor a também integrar a galeria de campeões”, era o que deveria ter escrito. Estava com a cabeça no mundo da lua. Imperdoável.

Poderia eleger várias réguas para medir o sucesso da Cascavel de Ouro. Poderia citar o grid com 38 carros, a lista de inscritos abarrotada de 87 nomes que viajaram de cidades de nove estados brasileiros até Cascavel, ou o regulamento tão simples quanto eficaz que ateve a disputa a duplas e trios com seus carros de Marcas 1.6, que abundam em todos os campeonatos regionais do país, ou ainda a transmissão ao vivo pela televisão, algo um tanto excêntrico para uma corrida de quatro horas de duração. Poderia exaltar o fato de Ka, Celta, Palio e Gol terem ocupado as quatro primeiras posições finais da corrida, algo que em momento algum ocorreu quando o Campeonato Brasileiro de Marcas & Pilotos teve seu grid formado por Ford, GM, Fiat e Volkswagen em 1983 e 1984 – meus conhecimentos acerca do tema não vão a tanto, quem observou isso foi o inserindípito fidélico Luiz Alberto Pandini.

Poderia adotar uma série de parâmetros, mas prefiro fiar-me ao mais verdadeiro de todos: as lágrimas. Há coisa mais real nesse mundo que lágrimas? Duvido. No meu modo maluco de ver as coisas, penso ter traduzido os feitos e fatos do último domingo nas lágrimas.

Nas lágrimas do Juraci Massoni, dirigente que comandou, liderou seria o verbo mais correto, um verdadeiro batalhão para que a corrida, ou o evento, tomasse a proporção que tomou. Jura deixou-se flagrar às lágrimas enquanto acompanhava a saída à pista de vários exemplares antigos, enquanto os 38 carros que formariam aquele grid permaneciam postados, imponentes, à frente dos boxes.

Nas lágrimas do Valdir Favarin, que pôde enfim acelerar seu protótipo bimotor no autódromo, durante o mesmo desfile em que, a bordo de um carro de corridas, foi exceção à regra do belíssimo acervo de exemplares de todas as épocas e espécies. De cara para o vento, sem capacete e de macacão, curtindo aquele momento em um templo onde amealhou tantas emoções boas e ruins.

Nas lágrimas do Márcio Sírtoli, tio de piloto, tão fora de si diante do terceiro lugar do sobrinho na corrida. Ninguém dava nada para esses meninos, a resposta está aí, era o que o Márcio bradava, sem disfarçar o choro compulsivo, emocionado com o feito heróico de um trio que, segundo seus urros, era desacreditado.

Nas lágrimas do Cleyton Cezarotto, emocionado que desceu do carro depois de quatro horas de corrida, depois de ter largado lá de trás com um carro que terminou de ser montado minutos antes dos treinos livres da etapa e em dupla com um parceiro, Marcelo Campagnolo, que sequer conhecia até serem apresentados via celular por gentes ligadas à promoção da corrida.

Nas lágrimas do Osires Júnior, locutor de arena da corrida – e essas não presenciei, mas me foram relatadas pelo próprio –, quando a voz embargou diante de determinada mensagem de agradecimento e congratulação encaminhada via rádio a toda a equipe de trabalho.

Nas lágrimas do Michel Giusti, da Sandra Zama, do Tiago Souza, nas de tanta gente que em algum momento rendeu-se a uma energia que eu nunca tinha presenciado ou vivido naquele sítio onde a história de uma corrida de nome forte como a Cascavel de Ouro voltou a ser notada nos quatro cantos do país por quem consome o automobilismo de competição por algum modo.

Nas minhas próprias lágrimas, porque aquilo tudo que estava acontecendo tinha um pouquinho dos meus dedos também, e ali estavam os dedos de um batalhão já citado, e as deixei escapar mais de uma vez, quando um grupo de amigos representados pelo Aloysio, pelo Anderson, pelo Guilherme, pelo Marcos, pelo Leônidas, pelo Wanderley e mais alguns presentes foram injustos com o conjunto da obra e me renderam um gesto do mais gentil agradecimento, ou quando caminhei pelo meio do grid e fiz questão de agradecer um a um os pilotos a quem tive acesso por estarem ali fazendo parte daquilo, ou ainda quando arrumei uma frestinha na grade da mureta dos boxes e, imperceptível, ali do meu mundinho, estendi meu polegar a cada um dos 22 pilotos que receberam a bandeira quadriculada, sobretudo por ver que todos eles cerraram punhos e comemoraram efusivamente, fossem os vencedores ou os últimos colocados, e aquele gesto me foi o bastante para traduzir, pelas minhas próprias réguas, o que foi, de fato, esse domingo de Cascavel de Ouro que nos envolveu por tantos e tantos meses.

Ultimamente tenho dado importância até exagerada a coisas pequenas. Não que a Cascavel de Ouro tenha sido pequena, dizer isso seria de uma tolice sem tamanho. É que foi necessário ocorrerem duas corridas de automóveis, uma em setembro e outra domingo, estando dentro da pista em uma e grudado à mureta de boxes ou na sala de imprensa e nas áreas vip da outra, para eu voltar a ver um pouco de sentido em coisas e pessoas. Ando meio chato, essa é a verdade.

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6 pensamentos sobre “Lágrimas

  1. Lagrimas rolaram de verdade e de muita gente mesmo … quando se faz alguma coisa … qualquer coisa com muita vontade e AMOR termina sempre assim, sendo vencedor ou nao termina com o sentimento de missao cumprida ….
    Parabéns novamente a todos pelo belo espetaculo.

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