“O filho do Dener”

 

PORSCHE CUP 1

Equipe de trabalho reunida no grid de largada na véspera da etapa decisiva do campeonato de 2011. O Dener gosta muito de produzir essas fotos que requerem envolvimento de todos do time.

CASCAVEL – Não, o título que você leu não trata de nenhuma analogia boba ao campeonato que o Dener criou. Eu já explico. Antes, que se esclareça: essas linhas beiram a fraude por vários motivos.

 

 

Primeiro, por ser um texto relativo a uma data e escrito na véspera. Segundo, porque não estou em Cascavel, como indica o início da postagem. Enquanto vocês meia dúzia que me leem passam por aqui, estou em algum ponto do trajeto rodoviário que vai me levar a ver o noticiário do fim da tarde em algum hotel do interior paulista, que ainda nem sei qual é, do caminho ligo para alguém e pergunto – escrevi antes por saber que estaria na estrada, as ferramentas de postagem programada do blog ajudam bastante nessas horas. Terceiro, porque escrevo sobre um momento que não vivi, do qual sequer estive perto ou tomei conhecimento em tempo hábil.

Mas há um fato, e esse merece registro. Hoje, 16 de abril, o Porsche GT3 Cup Challenge Brasil completa 10 anos. Foi nesse dia, em 2005, que 11 carros alinharam em Interlagos formando o primeiro grid da história da categoria – seriam 12, mas Omilton Visconde Júnior foi impedido pela agenda pessoal de tomar parte da etapa inaugural. Totó Porto ganhou as duas corridas da primeira corrida da história, num grid formado basicamente por carros brancos, que a muitos pares de olhos pareceu ser uma maluquice monstruosa do Dener Pires e do Beto Keller – nunca conheci o Beto.

Chega a ter simbologia eu programar isso aqui para ser publicado enquanto estou na estrada a caminho de Mogi Guaçu justamente para a narração de uma etapa do Porsche GT3 Cup, corridas que vão acontecer no sábado e serão transmitidas ao vivo pelo portal Terra. É o sétimo ano em que estou com a rapaziada da categoria. Nunca sequer tinha visto uma corrida quando em 2009, durante a etapa brasileira do WTCC, um rapaz veio falar comigo, era início da tarde de domingo e eu estava com uma fome gigantesca – almoçar em domingo de corrida é utopia. “Você é o locutor? Prazer, eu sou o Dener, do Porsche Cup”, ele se apresentou. Minha reação foi a mais imbecil que o momento poderia comportar: “Você deve ser o filho do Dener. Leio sobre o Dener desde que era moleque”. Eu, no lugar do Dener, teria me mandado à merda, mas ele é um tanto mais polido que eu e deu sequência à conversa.

Trabalhei como locutor de arena nas cinco primeiras edições do WTCC no Brasil contratado pelo Toninho de Souza, todas elas aconteceram em Curitiba, aquela era a quarta e tínhamos os Porsche na programação preliminar pela primeira vez. “Meu narrador acabou me deixando na mão e vi que você já conhece todos os pilotos”, foi como ele abriu o convite para eu trabalhar com ele – era convite válido para um dia, em princípio. Na verdade não conhecia piloto algum – tinha, sim, decorado os nomes pela cor e pelo número de cada carro, é isso que um narrador faz. A ideia inicial dele jamais funcionaria: providenciar a gravação da narração para o público do autódromo e usá-la na edição para o programete que mostraria a etapa em compacto na Band, apenas para São Paulo. Já tinham acontecido, naquele dia, uma corrida do Porsche Cup e uma do WTCC, eram duas de cada no evento. “Você já gravou a primeira?”. “Não, mas na primeira a gente dá um jeito depois”, ele respondeu. Sugeri que abortasse a ideia e que esperássemos o evento terminar para tratar do assunto com a devida ponderação, falo sob o ponto de vista técnico.

Assim foi feito. Evento encerrado, fomos nós dois para o ônibus da Master TV. Jorge Guirado estava por lá e assinou atrás do meu cheque. “Dener, sai do vício de sempre a põe sangue novo. O Luc pode não ser o cara que você procura, mas eu no seu lugar colocaria gente nova nesse microfone. Seu campeonato está crescendo”, falou, enquanto descia as escadas do ônibus para voltar a Cascavel. “Luc, a coisa está na sua mão”, arrematou, já lá de fora.

Enfim, narrei o VT das duas corridas na íntegra, que alguém editou depois para caber no horário que o Dener tinha na Band paulista. Nunca vi essa transmissão. Dener e Max Wilson foram os comentaristas. “Como é que o cara pilota tanto com esse tamanho?”, era o que eu pensava olhando o Max, nanico como eu e com quem obviamente ainda não tinha amizade. Eu saber quem era o piloto quando aparecia a imagem do carro impressionou o Dener; para mim era coisa normal, esse tipo de trabalho depende disso, como já comentei. “Vi que você ligou pra sua família avisando que não iria embora hoje, não tenho como agradecer por isso, mas obrigado mesmo”, disse o Dener, depois da nossa gravação, e me impressiona lembrar com tamanha precisão de tudo que aconteceu naquele dia, coisas que não significam nada a ninguém. Estava feliz por ter ajudado. “Quanto te devo?”, ele arrematou. Deve? Como assim, deve?

Não fazia a menor ideia de quanto o Dener me devia, até porque não devia nada; ele apresentou uma situação, a do narrador que o deixou na mão, sei lá quem era, eu respondi que o socorreria. Não pensei em cobrar; honestamente, não imaginei que aquela conversa avançaria além daquele domingo. “Não deve nada, imagine”. “Não combinei antes e agora estou na sua mão”, ele respondeu, rindo, “mas faça um preço justo e se programe para estar em São Paulo na data tal, tenho outra etapa nesse dia”, arrematou. Max viu que eu não tinha ideia de quanto pedir e que o Dener não quis pôr preço no que eu havia feito e interveio, coberto de razão: “Dou uma sugestão: pensem no assunto e resolvam por telefone amanhã”. Assim foi feito. Sim, e recebi um cachê por isso.

Me estendi até demais para descrever minha entrada na categoria, devo ter aborrecido você que leu até aqui, mas confesso que a cada linha fui revivendo as cenas e os momentos daquele domingo, do dia em que falei ao “filho do Dener” para ficar tranqüilo que não o deixaria na mão sem pensar em receber dinheiro em troca por isso. E foi ali que começou essa nova fase do meu trabalho, e hoje vivo de narrar corridas do Porsche GT3 Cup e de outros campeonatos também. O Dener não sabe, mas eu vivia um turbilhão profissional naquela época em que nos conhecemos. Fazia três ou quatro meses que tinha tomado um pé na bunda no jornal onde trabalhava depois de 17 anos de casa – a direção havia mudado pouco tempo antes e os pensamentos meus e dos novos donos não eram exatamente compatíveis –, não sabia direito como repor aquela rotina e aquela renda, estava literalmente procurando um rumo na vida.

O “filho do Dener” me deu esse rumo.

*** (Quando comecei a escrever isso aqui, a ideia não era abrir o meu querido diário como acabo de fazer, mas falar do campeonato, que cresce ano a ano, que ganhou o Brasil e o mundo, que já teve suas corridas em Interlagos, Jacarepaguá, Curitiba, Santa Cruz do Sul, Velopark, Buenos Aires, Estoril, Algarve, Barcelona, Velo Cittá, e mais novidades vêm por aí; a ideia era comparar o que vi em 2009 com o que temos hoje em cada evento, lembrar algo legal das jornadas às barbas da F-1, do WTCC e do WEC, falar da criatividade do Dener e da impressionante capacidade dele de pensar em um monte de coisas ao mesmo tempo e dar resposta a todas elas; a ideia era falar de um monte de coisa, enfim. Peço minhas desculpas a quem veio aqui imaginando que seria esse o conteúdo. A esses, indico o bom blog do parceiraço Luiz Alberto Pandini, jornalista que esteve junto do Porsche GT3 Cup desde o início e que há de esmiuçar esses contextos com o conhecimento de causa que só ele tem. Acabou sendo até melhor.)

PORSCHE CUP 2

Também de 2011, mas da primeira etapa, a histórica foto com 48 carros da marca compondo a grafia da palavra “Porsche” na reta principal do Estoril. Tínhamos 47 carros. História para outra ocasião.

 

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2 pensamentos sobre ““O filho do Dener”

  1. Que baita história! Parabéns Dener, Porsche Cup e parabéns para você também Luc, afinal, já faz parte da história da categoria!

  2. LUC se postara no seu blog a etapa 2 da porsche cup em mogi guaçu?se sim dez vou ver e passar para o pen drive e as provas da mercedez benz challenge que se nara tão bem quando se disponibilizara no seu blog o video inteiro das corridas?abração luc, ótima quarta feira

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