Há 20 anos

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CASCAVEL – “Senna tenta fazer as pazes com a vitória no GP de San Marino”. Foi esse o título com que abri uma das páginas do caderno de esportes do jornal O Paraná na edição de 1º de maio de 1994. Não fui pesquisar, lembro do título. Foi um texto frio, e do texto não lembro, que escrevi na noite de 27 de abril, quarta-feira. Aquela semana que antecedeu o GP da morte em Imola foi de uma agenda extremamente estrangulada para mim por conta de coisas do automobilismo que passavam bem longe de Imola.

Com um ano e poucos meses de lido com as coisas das corridas nas páginas do jornal, onde trabalhava desde fevereiro de 1992, meu convívio direto com corridas resumia-se às poucas etapas do Campeonato Paranaense de Automobilismo que havia acompanhado no autódromo aqui de Cascavel. Já tinha um certo entrosamento com os pilotos daqui, começava a conhecer alguns de fora, procurava noticiar tudo que fosse possível sobre as corridas do Brasil tomando como base os press-releases que, em temos pré-internet, chegavam por telex, por fax, por correio.

Estava entrando no meio, entrosamento que para o nível aqui do Paraná evoluiu bastante em 1993, sobretudo pela influência do Milton Serralheiro, à época piloto de corridas. Era na verdade uma quase cobrança do Milton, a quem muita gente que conheço deve os primeiros passos que deu em alguma coisa na vida, talvez nem sempre no caminho correto. Foi assim comigo nas corridas. Foi ele, o Milton, o cara que me obrigou a ir atrás dos pilotos para saber quem era quem e corrida de quê, que me colocou num kart e me fez treinar e correr por quase dois anos para ter noção do que era ser piloto de corridas, o que me permitira escrever e falar, à época só escrever, “com mais propriedade”, segundo ele próprio dizia.

A correria alucinante daquela última semana de abril também foi obra do Milton. 1º de maio era o dia da abertura do Paranaense, corridas de Speed Fusca, Marcas, Fórmula A e Endurance no ainda mambembe autódromo de Curitiba. “Vamos comigo, você tem que estar nas corridas, não pode ficar escrevendo de casa”, intimou o Milton. Era uma chance de ouro, aquela. Seria coisa inédita pisar em uma pista de corrida que não as de Cascavel. O empecilho que eu tinha para isso: não havia ninguém disponível ou disposto a me substituir no fechamento do esporte do jornal. Tempos sem internet, impossível fazer tudo de longe.

A saída foi providenciar material suficiente para fechar as páginas de quinta-feira, de sexta, de sábado e de domingo antes de embarcar na perua Quantum do Milton, com a então esposa dele, a Neide, e o Toco, filho caçula, à época um pirralho de sete ou oito anos, a caminho de Curitiba. Não havia verba do jornal para a viagem, claro, até porque a ida a Curitiba, ou Pinhais, como queiram, beirava a insubordinação pelos costumes da empresa. Mas fui, tinha hospedagem na casa de seu Juvenal e de dona Natália, os pais da Neide, o Milton deu uma força também.

Eu tinha 16 anos e era doente por corridas de F-1, havia deixado de assistir apenas duas até então desde que comecei com essa mania em 1989 – a do Japão, em 1989 mesmo, porque não consegui acordar na hora certa, e a da Itália, em 1992, porque a turma do grupo de jovens da igreja armou um almoço não sei onde e acabei trocando a F-1 pelo almoço. Minha mãe achou estranhíssimo. Mas, naquele fim de abril, a cabeça estava só nas corridas de Speed Fusca, de Marcas, de Fórmula A e de Endurance. O Milton corria em duas delas, a Speed e a Fórmula A, e tinha acertado um contrato de patrocínio com o cunhado, que representava várias marcas internacionais de máquinas. O carro de Fórmula A foi levado a Curitiba com o layout básico e um pintor contratado pela Latino Americana Import-Export, a empresa de Jair, o cunhado, aplicaria as logos dessas marcas. Adesivos eram um luxo inimaginável para a época, e a pintura das logos consumiu boa parte da madrugada de sexta-feira, e lá ficamos todos nós, plantados ao lado do carro, acompanhando o trabalho meticuloso do pintor embrulhados em cobertas. Fazia um frio de rachar.

O carro foi para a pista na sexta de manhã com a tinta ainda fresca e as logos aplicadas ganharam, digamos, efeitos de velocidade. As bordas de cada desenho acabaram borrando a carenagem, e assim a carenagem ficaria até o carro ser vendido dois ou três anos depois. E era dentro do cockpit daquele Fórmula A número 1 – o Milton tinha sido campeão paranaense em 1993 – que eu dormia no domingo pela manhã, quando outro monoposto, com o número 2, explodiu em um muro na Itália e mudou a maneira como o Brasil passou a se portar no automobilismo mundial. O carro estava no parque fechado depois do warm up e o Milton pediu que eu e o Amarildo Silva, seu mecânico, revezássemo-nos ao lado do carro para garantir que ninguém iria mexer, sei lá qual era o temor. Tinha ido dormir bem tarde no sábado, estava com sono e meu turno de vigia compreendeu aquela soneca providencial.

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“O Senna bateu”, me disse a Neide, quando voltei aos boxes de Curitiba. Mentalmente, ao mesmo tempo em que tirei sarro de mim mesmo pelo título da matéria na página de esportes do meu jornal, fiz a conta dos 30 pontos que Schumacher abriria de vantagem no campeonato. Não atinei para a gravidade da coisa, apesar de ter visto a situação toda por uma pequena TV em preto e branco com tela de 14 polegadas naqueles boxes capengas do velho autódromo de Curitiba. Era um grande fã de Senna, tinha começado a acompanhar corridas porque ele ganhou as três primeiras a que assisti; aquele sujeito é imorrível, é o que devo ter pensado.

Bem, Milton ganhou a corrida da Speed Fusca. Na da Fórmula A, era pole-position e liderava com meia pista de vantagem sobre o segundo colocado quando escapou um fio da bobina do carro número 1 perto da curva do Pinheirinho, ele desceu do carro e teve de descascar o fio com o dente para reconectá-lo e voltar à corrida – terminou em quinto e a vitória foi do Valter Siqueira, quase certeza que a única da carreira dele na categoria. E fazer o dente de ferramenta custou ao Milton mais de 800 pratas em tratamentos no consultório odontológico da doutora Gislaine.

Foi momentos antes da corrida da Fórmula A que tive dimensão do tamanho do estrago. Escalando uma torre de madeira mais capenga ainda para filmar a corrida, também a pedido do Milton, encontrei o pessoal da TV Record e perguntei se havia mais notícias sobre Senna. Cabrini havia acabado de anunciar sua morte cerebral na Globo. Agradeci e continuei minha escalada. Parece que o cérebro da gente se condiciona a não processar informações indesejáveis. Foi só depois de uns 20 minutos, já com a corrida em andamento, que me caiu a ficha – cacete, se teve morte cerebral é porque morreu.

A viagem de volta a Cascavel, que consumiu a madrugada de segunda-feira, foi de choro. O pessoal da redação estava preocupado com como eu poderia estar mal, todo mundo sabia o quanto eu gostava de F-1 por causa de Senna, era um grande torcedor do cara – que, ouvi tempo depois, tinha viagem marcada a Cascavel para negociar fazendas com um latifundiário daqui. O jornal não circulava às segundas-feiras e, para os parcos recursos que tínhamos à mão, produzi uma página até bem-feitinha para a edição de terça, 3 de maio. A morte de Senna foi manchete daquela edição. “Brasil chora inconformado a morte de Ayrton Senna”, foi o título da capa, puxei de memória também – vou tentar resgatar com o pessoal do O Paraná aquelas edições. Uma manchete editorialista, segundo definiu o chefe Toninho Sbardelotto ao defender o assunto na reunião de pauta da primeira página com o editor Idjalmas Bertollo, que não concordava em dar como manchete um assunto de dois dias antes.

É tudo que me passa pela cabeça quando lembro do 1º de maio de 1994 e seus desdobramentos. Viagem, pintura de um carro, soneca, discussão e editoração fora do padrão. Seria forçoso, até errado, tentar dizer que Senna fez parte do início da minha trajetória. Não fez.

Mas foi o cara que me colocou no caminho desse negócio de corridas de carros. 

Highlights

CASCAVEL – Nada de Mônaco/1984, até porque o confronto direto no principado não chegou a acontecer. A primeira grande batalha entre Ayrton Senna e Alain Prost na Fórmula 1 aconteceu em 1985, no GP de San Marino. O vídeo aí abaixo mostra bastante do duelo. Mostra, também, que Senna tinha uma pilotagem encardida, no bom sentido do termo.

A corrida em Imola foi a terceira do Mundial de 1985. Prost havia vencido no Brasil e batido em Portugal; Senna, que tinha parado com pane elétrica em Jacarepaguá, vinha da histórica vitória no Estoril. Eles dividiam a vice-liderança com nove pontos, três atrás de Michele Alboreto, segundo colocado nos dois GPs.

Senna, que em San Marino obteve sua segunda pole-position, liderou até a volta 57, quando abandonou com o tanque de combustível da Lotus vazio. Foi quando surgiu a Ferrari de Stefan Johansson em primeiro, mas o sueco também ficou sem gasolina e parou instantes depois. O primeiro lugar caiu no colo de Prost, que ganhou a corrida. Só que a festa do francês durou pouco – com a McLaren um quilo e meio abaixo do peso mínimo, ele foi desclassificado. Elio de Angelis, que tinha combustível suficiente na Lotus, foi declarado vencedor.

Thierry Boutsen, da Arrows, foi o segundo colocado, mais de uma volta atrás do italiano. Patrick Tambay, com a Renault, ficou em terceiro. A corrida marcou a primeira participação de Senna no GP de San Marino – em 1984 ele não havia conseguido classificar a Toleman para o grid, única vez que ocorreu em sua carreira.

Na íntegra: Porsche GT3 Brasil 2014, 1/9

CASCAVEL – A décima temporada do Porsche GT3 Cup Challenge Brasil começou em Portugal e, mesmo com a transmissão ao vivo de todas as corridas de 5 de abril pelo Terra e com sua exibição em VT pela Band, sempre tem um ou outro reclamando comigo que não viu a etapa. O que me leva a atestar a utilidade do “Na íntegra” aqui no blog. Até pensei em desativar essa sequência de postagens, mas vou mantê-la.

Portanto, reproduzo aqui as corridas que narrei tendo o Beto Pandini como comentarista, tal qual foram exibidas durante aquele sábado pelo Terra.

Vamos primeiro com as duas corridas que compuseram a etapa das categorias Challenge e Sport, que tiveram momentos históricos. Tom Filho e Raulino Kreis Júnior revezaram as vitórias e os segundos lugares numa tarde em que o que preocupou foi o acidente com Rodrigo Souza – apesar da imagem impressionante, o Rodrigo saiu praticamente ileso do carro.

Agora as corridas da categoria Cup, vencidas pelo Constantino Júnior – que está cheião de ânimo para ser o terceiro bicampeão da história da categoria.

A maioridade da Truck

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CASCAVEL – Qualquer um que frequente ou acompanhe o ambiente da Fórmula Truck, assiduamente ou não, há de conhecer bem as duas figuras aí da foto. Renato Martins, ainda recordista de vitórias e de participações em corridas da categoria, foi seu primeiro campeão, em 1996, ano em que pilotou um Scania. Voltou a ser campeão em 2006, já com um Volkswagen. Parou de correr em 2012 e, desde o ano passado, atém-se ao comando de sua equipe, a RM Competições, que tem cinco caminhões no grid e lidera a temporada atual com duas vitórias de Leandro Totti. Ao lado do Renato está o Orlei Silva, também aqui de Cascavel, fotógrafo da Fórmula Truck desde sempre.

E por que cargas d’água publicar uma foto do Renato e do Orlei? O blog virou coluna social ou coisa do gênero? Não, nada disso. É que Renato e Orlei são os dois únicos participantes do ambiente da Fórmula Truck que estiveram em absolutamente todos os eventos da história da categoria – inclusive nas quatro etapas realizadas em 1995 em caráter de demonstração, que levaram a Truck a ser homologada pela CBA como Campeonato Brasileiro de automobilismo.

E apesar dessa trajetória toda já estar às portas da casa de duas décadas, a história da categoria sob a condição oficial, como Campeonato Brasileiro de Fórmula Truck, atinge sua maioridade hoje. Foi no dia 28 de abril de 1996 que 13 caminhões foram alinhados no grid de largada do Autódromo Internacional Nelson Luiz Barro, na gaúcha Guaporé, para a primeira etapa do primeiro campeonato. Não encontrei aqui nenhuma foto daquela corrida, mas aí estão os participantes na linha de chegada, momentos antes da largada histórica, todos com o Aurélio Félix, criador da Truck.

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E como teria sido a corrida? Não tenho qualquer lembrança, e é possível que os gaúchos que lá estiveram em 28 de abril de 1996 possam rememorar algumas coisas aí na área de comentários. Mas o #DataLuc foi buscar os resultados daquele primeiro evento, disputado em rodada dupla com soma de tempos – o sistema de etapas em rodadas duplas vigorou até o campeonato de 2000. Ei-los, os resultados:

Grid de largada – primeira bateria: 1º) Renato Martins (SP), 1min43s108; 2º) Sérgio Drugovich (PR), 1min45s883; 3º) Vignaldo Fízio (SP), 1min46s802; 4º) Wagner França (SP), 1min47s572; 5º) Vanderlei Souza Brito (PR), 1min48s218; 6º) Tiago Brison (PR), 1min48s447; 7º) José Zapelini (SC), 1mn48s655; 8º) Pedro Rodrigues Alves (MS), 1min49s382; 9º) Eduardo “Macarrão” Fráguas (SP), 1min49s835; 10º) Clóvis Navarro (SP), 1min50s257; 11º) Gilberto Hidalgo Gimenez (SP), 1min50s963; 12º) Gino Pica (SP), 1min51s875; 13º) Francisco San Martin (SP), 1min52s964; média do 1º: 107,537 km/h.

Grid de largada – segunda bateria: 1º) Renato Martins (SP); 2º) Sérgio Drugovich (PR); 3º) Vignaldo Fízio (SP); 4º) Wagner França (SP); 5º) Vanderlei Souza Brito (PR); 6º) Tiago Brison (PR); 7º) José Zapelini (SC); 8º) Pedro Rodrigues Alves (MS); 9º) Eduardo “Macarrão” Fráguas (SP); 10º) Clóvis Navarro (SP); 11º) Gilberto Hidalgo Gimenez (SP); 12º) Gino Pica (SP); 13º) Francisco San Martin (SP).

Resultado final – após 26 voltas: 1º) Renato Martins (SP), 46min02s290; 2º) Sérgio Drugovich (PR), a 3s644; 3º) Vignaldo Fízio (SP), a 1min20s971; 4º) Gilberto Hidalgo Gimenez (SP), a 1min47s178; 5º) Wagner França (SP), a 1min47s825; 6º) Francisco San Martin (SP), a 1min55s100; 7º) Eduardo “Macarrão” Fráguas (SP), a 2min44s754; 8º) José Zapelini (SC), a 1 volta; 9º) Tiago Grison (PR), a 2 voltas; 10º) Pedro Rodrigues Alves (MS), a 4 voltas; 11º) Vanderlei Souza Brito (PR), a 5 voltas; não completou: Clóvis Navarro (SP), a 12 voltas; melhor volta: Martins, na 3ª, 1min43s879, média de 106,739 km/h.

E a propósito da foto que abre o post, ela me rendeu um dinheirinho. Falei ao Orlei em Curitiba que precisaria de uma foto de dois personagens da Fórmula Truck e que tinha certeza de que ele pediria a outro fotógrafo para produzi-la. Ele duvidou, claro, e pagou para ver. Até poderia ter montado tripé e acionado disparador automático da câmera, essas coisas, claro. Mas concluiu que não valia a pena ter todo esse empenho para economizar a conta de um almoço. Sorte minha.

Nomes e cores: Sprint Race Brasil

CASCAVEL – Começaram ontem, em São Paulo, as disputas da terceira temporada da Sprint Race Brasil. A categoria mantém, pelo terceiro ano, a transmissão de suas etapas em VT pelo Bandsports – continuo na narração das corridas, e as da primeira etapa serão exibidas nos próximos dias.

A Cíntia Azevedo esteve em Interlagos e, na pura camaradagem, descolou para o blog fotos de todos os carros, já para a rapaziada tomar contato com a nova cara da categoria – carros que, aliás, passam a ser empurrados por usinas V6, com potência próxima dos 265 cavalos, bem mais que os 220 que desenvolviam até o ano passado. A aerodinâmica dos carros mantidos pelo Thiago Marques também traz algumas mudanças. A categoria fica mais rápida neste ano, enfim.

A primeira corrida da etapa de Interlagos teve vitória de Yuri Cesário na geral. Luca Milani, terceiro colocado, ficou com a vitória na categoria GP. Na segunda prova, Yago Cesário, irmão e parceiro de Yuri, ficou com a vitória, com Daniel Daroz levando o primeiro lugar da GP ao terminar em quinto na classificação geral.

Enfim, vamos aos carros que compuseram essa primeira etapa de 2014 – não sem antes lembrar que a segunda, dia 18 de maio, levará a categoria a Santa Cruz do Sul.

4 – Luiz SANTOS/Matheus BIRIBA – categoria Pró / São Paulo (SP)-Goiânia (GO)

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7 – Adriano AMARAL – categoria GP / São Paulo (SP)

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8 – Marco GARCIA – categoria Pró / Curitiba (PR)

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10 –Daniel DAROZ/AllineCIPRIANI – categoria GP / Jundiaí (SP)-São Paulo (SP)

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14 – Gustavo TRUNCI – categoria GP / São Paulo (SP)

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15 – Caíto VIANNA – categoria Pró / Campinas (SP)

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16 – Yuri CESÁRIO/Yago CESÁRIO – categoria Pró / Goiânia (GO)

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22 – Raphael REIS/Ítalo LEÃO – categoria Pró /Goiânia (GO)-Brasília (DF)

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27 – Gustavo FRIGOTTO – categoria Pró / Curitiba (PR)

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39 – Eduardo SERRATO/Marcelo RODRIGUEZ – categoria GP / Curitiba (PR)-Campinas (SP)

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44 – Kau MACHADO/Adriano GRIECCO – categoria GP / Curitiba (PR)-São Paulo (SP)

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73 – Adibe MARQUES – categoria Pró / Florianópolis (SC)

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77 – Roberto MILANI/Luca MILANI – categoria GP / São Paulo (SP)

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79 – Flávio LISBOA – categoria Pró / Curitiba (PR)

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94 – Gustavo KIRYLA – categoria Pró / Curitiba (PR)

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O Luciano de verdade

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CASCAVEL – Já devo ter contado essa história quase uma centena de vezes a quem pergunta, normalmente com estranheza, por que uso algo como nome artístico em minha apresentação nas narrações de corridas e, nessa carona, em tudo. Até em cartão do banco já consegui que gravassem “Luc Monteiro”, o Torrão Ciotti já viu o cartão do Santander e não me deixa mentir.

“Luc”, primeiro, é apelido desde a adolescência, obra e graça do Milton Serralheiro, por conta de um joguinho eletrônico em que ele era viciado e em que, depois de quebrar um recorde dele, gravei “LUC”, já que o dispositivo só aceitava três letras.

Mas apelido é coisa que se trata à mesa de bar, em círculos mais restritos, claro. Não se o leva a um trabalho em televisão. Não se o levaria.

Em determinada transmissão do Porsche GT3 Cup Challenge pelo Speed Channel, isso era 2009 ou 2010, não lembro direito, mas lembro que o comentarista, que também não lembro quem era – não tenho lembrado de muita coisa ultimamente – abriu determinada intervenção dizendo “Luciano, blablablá”. Claro que também não lembro o que disse o comentarista naquela ocasião, e tenho agora a impressão de que o dito cujo fosse o Eduardo Homem de Mello.

Luciano. Na hora, naquela hora, e esse é um exercício que procuro manter em todas as transmissões, me transpus à condição de telespectador. Qualquer telespectador de uma transmissão de corrida de carros que ouve o comentarista tratar o narrador como “Luciano” lembrará, de imediato, do Luciano do Valle, foi o que pensei naquele momento.

Eu não podia ser Luciano. A vaga de Luciano, nobre, já estava ocupada. E na corrida seguinte combinei com o operador de GC, geração de caracteres, que me creditasse como Luc Monteiro, e combinei também com o comentarista, acho que já não era o Edu, que me chamasse de Luc. Não há nenhum outro Luc, não em transmissões esportivas no Brasil, pelo menos.

E um dia, voltando ao assunto, alguém me perguntou por que sou “Luc Monteiro” nas narrações. Não lembro quem foi o primeiro que me perguntou isso – não tenho lembrado de muita coisa ultimamente. Expliquei isso, essa cascatinha que você acabou de ler e que tem lá seu fundo de verdade. Lembro, sim, de ter respondido que quando o comentarista me chama de “Luciano” o telespectador poderá ser involuntariamente induzido a lembrar do “Luciano de verdade”, essa foi a expressão que usei. E em quase uma centena de outras vezes, sempre que inquirido sobre o uso de um apelido que na verdade é meio besta, citei o “Luciano de verdade”. Uma coincidência que até curto, tenho de admitir, ser homônimo de um dos caras que fizeram história – e que história! – tendo como pano de fundo esse ofício onde começo a engatinhar.

Conversei poucas vezes com Luciano do Valle, umas duas, no máximo três. Soube que ele sabia da minha existência em 2013, na última etapa brasileira da Indy no Anhembi, corrida narrada por ele na Band. Houve duas corridas preliminares, Mercedes-Benz Grand Challenge e Brasileiro de GT, as duas narradas por mim na mesma Band. E alguém que tinha envolvimento direto com a transmissão toda do evento me contou que Luciano, o de verdade, fez tal comentário sobre aquelas transmissões preliminares da manhã, algo que penso não ser cabível compartilhar aqui, que significou bastante para mim e que não creio significar nada para mais ninguém.

Egocêntrico que sou, guardo para mim aquelas poucas palavras do Luciano que me foram trazidas casualmente por certo interlocutor. E o orgulho inegável de uma coisa pequena para o mundo e grande para mim, a de ter sido o cara que narrou, naquele domingo no Anhembi, corridas preliminares da corrida que o Luciano de verdade narrou.