Cleyton Pinteiro: “Não temos poder de polícia”

Cleyton Tadeu Correia Pinteiro, que abriu no início do ano seu segundo mandato como presidente da Confederação Brasileira de Automobilismo, milita no esporte há quase 40 anos. Tomou contato com o meio em 1974, como piloto de kart em Pernambuco – nasceu em Recife, onde vive. Desde então, enfileirou atuações como presidente do Kart Clube, vice-presidente da Federação Pernambucana, diretor da CBA para o Norte/Nordeste, três mandatos na presidência da Federação Pernambucana e outros dois na vice-presidência da CBA, até ser aclamado ao posto máximo da entidade pela primeira vez em 2009.

Empresário do ramo de perfuração de rochas e torcedor do Botafogo, o dirigente de 65 anos, que nunca exerceu cargo político fora do automobilismo – e garante que jamais vai pleitear algum –, aceitou conversar com o blog sobre algumas das questões mais frequentes da atualidade no automobilismo brasileiro. Mantendo uma postura protocolar, esquiva a CBA da missão de promover campeonatos frisando o caráter administrativo e regulador da entidade, atribui o fim de competições a dificuldades comerciais e admite que seu grupo nada mais tem a fazer que solicitações quanto à improvável construção de um novo autódromo no Rio de Janeiro. “Não temos poder de polícia”, alega.

Abaixo, a íntegra da entrevista com Pinteiro.

BLuc – Depois da assembleia que o aclamou a mais um mandato na CBA, o senhor enalteceu as categorias de base do automobilismo. A que o senhor se referia, exatamente?
Pinteiro – Ao trabalho que vem sendo realizado no kart, com a abertura das homologações e a obrigatoriedade de todas as peças serem intercambiáveis, os custos deverão ser reduzidos. Temos também uma iniciativa única no sul do país, onde os monopostos da CBA forma cedidos à FAU gaúcha, após aprovação em assembleia, para a implantação de uma categoria de baixo custo que prioriza o acesso de pilotos vindos do kart. O próprio CDA foi alterado com a criação de uma licença PEC – Piloto Escola de Competição. (Nota do blog: “FAU” é como são chamadas as federações de automobilismo; CDA é o Código Desportivo do Automobilismo)

BLuc – O que pode haver de planos concretos para o automobilismo de base nos próximos quatro anos?
Pinteiro – Do ponto de vista desportivo é o que respondi antes. Do ponto de vista administrativo a CBA contratou uma empresa de recursos humanos, a GI GROUP, e está promovendo uma verdadeira reestruturação administrativa e técnica em seus quadros de oficiais de competição. É uma ação interna que trará excelentes resultados a médio/longo prazo.

BLuc – A Fórmula 3 vive um momento difícil nos principais campeonatos pelo mundo, e aqui tem sido assim já há algum tempo – em janeiro, o Brazil Open teve apenas 6 carros no grid. Qual é a saída para ressuscitar a F-3 no Brasil?
Pinteiro – Como foi muito bem colocado por você, o momento mundial não é favorável. A promoção das categorias hoje depende da captação de recursos e se esses recursos não forem captados a inviabilidade da categoria é notória. A CBA é um órgão técnico regulamentador, e não promotor de eventos. Até temos capacidade para promover eventos. O kart nacional é todo promovido pela CBA. Se necessário o faremos, mas isso não é o foco da entidade.

BLuc – E como o senhor avalia o momento atual do kart brasileiro?
Pinteiro – Em ascensão, com a criação da Copa das Federações, as novas homologações, o fortalecimento dos estaduais. Penso que teremos nos próximos anos um nível técnico desportivo ainda melhor.

BLuc – E quanto ao Brasileiro de Endurance? Os promotores da Top Series tentaram reativar a categoria e se viram obrigados a desistir. Há algum novo formato viável para 2013?
Pinteiro – Sim, inclusive já está no calendário da CBA. Serão utilizadas provas tradicionais, como as de Guaporé, Cascavel, Londrina, Tarumã e Interlagos.

BLuc – Copa Fiat, Fórmula Futuro, Spyder Race e Top Series encerraram suas atividades. As duas últimas, inclusive, antes do término da última temporada. Qual tem sido a principal dificuldade enfrentada pelos promotores?
Pinteiro – Exatamente o que foi colocado numa pergunta anterior, a dificuldade de captação de recursos no mercado.

BLuc – Temos observado que o prometido autódromo em Deodoro tem virado motivo de chacotas. O senhor ainda vê alguma possibilidade de que seja concretizado?
Pinteiro – A CBA, via Departamento Jurídico, utilizou-se de todas as possibilidades jurídicas possíveis para fazer valer as decisões favoráveis à não desativação de Jacarepaguá e posteriormente à construção de Deodoro, porém não temos poder de polícia. Se as decisões jurídicas foram desrespeitadas não foi por falta de esforços da CBA. Existe, sim, um cronograma previsto, e iremos cobrar que seja cumprido, só não temos como garantir que será cumprido.

BLuc – Com poucas exceções, a situação dos autódromos brasileiros é preocupante. Poucos oferecerem infraestrutura e condições de segurança compatíveis com o automobilismo de hoje. É um panorama reversível, esse?
Pinteiro – Sim, porém é necessário que os detentores dessas praças, que em sua maioria são o poder público, entendam que o automobilismo é um esporte extremamente lucrativo para as cidades onde se realizam eventos. Geração de empregos diretos e indiretos, utilização dos mais variados serviços como hotelaria, restaurantes e afins, retorno de imagem… São tantas as variáveis benéficas que um evento de porte nacional traz que justificam plenamente uma ação mais efetiva nesta praça e um investimento real. Só para ilustrar, o maior evento de São Paulo é a Fórmula 1, onde para cada real investido pelo poder público retornam R$ 3,50. É ou não viável? A CBA não detém o controle nem a posse dos autódromos. Caberia, sim, ao poder publico olhar com mais profissionalismo esta situação.

BLuc – Então não é verdadeira a informação que o GP do Brasil gera prejuízo financeiro para o automobilismo nacional?
Pinteiro – De maneira alguma, pois qualquer país do mundo gostaria de ter um GP de F-1.

BLuc – Com relação aos processos de eleições das federações e da CBA, o senhor considera válido o estudo de um sistema em que o piloto, que é o ingrediente principal da receita, tenha direito a voto?
Pinteiro – Os pilotos têm como participar deste processo sim. Basta se filiar a um clube e eleger o presidente deste clube, pois são eles que elegem o presidente da FAU e assim por diante. Não é CBA que tem que mudar isso, teríamos que mudar toda a legislação desportiva vigente. Este processo é idêntico para todas as confederações e federações existentes no Brasil. Caso exista uma mudança e ela seja regulamentada com certeza mudaremos para atender a legislação nacional.

BLuc – Pelo formato atual, o voto de um estado com pouca ação automobilística tem o mesmo peso do voto de grandes centros do esporte, como São Paulo, Paraná ou Rio Grande do Sul. Seria o momento de rever essa relativização?
Pinteiro – Era desta forma e foi alterado, em assembleia e com a anuência de todas as FAUs. Seria justo um voto de trabalhador que recebe um salário mínimo valer menos que o voto de um megaempresário?

BLuc – Qual foi, em sua avaliação, o principal ponto negativo de seu primeiro mandato na presidência da CBA?
Pinteiro – Perdemos um bom tempo para organizar a casa, e isso demandou mais tempo do que esperávamos.

BLuc – E o principal ponto positivo?
Pinteiro – Todo o processo de reestruturação que está sendo feito. Isso é semelhante a obras de saneamento, elas não aparecem, mas são de suma importância a longo prazo. O legado que está sendo implementado é para médio/longo prazo.

BLuc – Quantos pilotos filiados a CBA contabiliza hoje?
Pinteiro – Somos mais de 12 mil. O Off-Road e o kart cresceram bastante, e não há redução significativa em outras categorias.

BLuc – As observações que constatamos dos pilotos em geral, sobretudo dos que não integram as categorias top nacionais, são de que a CBA seria basicamente uma entidade que pratica a burocracia e a cobrança de taxas para emissão de carteirinhas.
Pinteiro – A CBA é um órgão técnico desportivo que regulamenta o esporte a motor em quatro rodas no Brasil. Em qualquer parte do mundo, o piloto tem que ser habilitado para competir. Antes esse controle não era tão efetivo, as carteiras eram apenas emitidas sem o devido cuidado. Hoje nos preocupamos com todo o processo de filiação, o próprio CDA foi alterado para garantir que apenas pilotos com relativa condição técnica possam disputar sua respectiva categoria. As escolas de pilotagem desde 2012 estão sendo mais exigidas, existe hoje uma regulamentação específica para tal.
As questões de segurança nas pistas vêm sendo tratadas por uma comissão específica, através da CNA (Comissão Nacional de Autódromos), estamos fazendo um mapeamento da real situação de cada praça e vamos já em 2013 ter caderno de encargos para que as praças possam receber as categorias nacionais, com as devidas necessidades e adequações para cada evento. Em 2012 foram realizadas em diversas categorias palestras educativas sobre substâncias proibidas, o controle antidoping através da Comissão Médica será muito mais efetivo em 2013. Desde 2012, a análise de todos os regulamentos técnicos e desportivos não fica apenas sobrecarregada ao CTDN (Conselho Técnico Desportivo Nacional). As propostas enviadas pelos promotores são analisadas por todo o conselho, que é composto pela CNV, CNVT, CNA, CNK, CNR (comissões nacionais de Velocidade, Velocidade na Terra, de Arrancada, de Kart e de Rally) e pelo próprio presidente do CTDN. Ou seja, em seu papel de cunho técnico e desportivo a instituição vem nos últimos anos gradativamente implementando novos processos, normatizando suas ações e garantindo a igualdade de competição nas categorias, porém este tipo de trabalho de bastidores, que é extremamente necessário, não aparece. Só que sem ele as disputas na pista ficam comprometidas.

BLuc – Em que frentes a CBA aplica a receita com emissão destas cédulas?
Pinteiro – Os balanços estão disponíveis em nosso site, coisa que antes não acontecia.

BLuc – São mesmo do senhor as decisões que partem da CBA? Há mais nomes que, em termos práticos, tenham tanto peso quanto o presidente no momento das decisões?
Pinteiro – Temos uma gestão participativa, temos comissões atuantes em todas as modalidades. Não sou centralizador, demando ações e as coordeno e cobro os resultados, sempre dentro de uma coerência. Cada pessoa dentro de nossa gestão tem seu papel e sua importância, hoje as comissões trabalham de forma integrada com suporte jurídico e administrativo.

BLuc – O senhor tem algum ídolo no automobilismo?
Pinteiro – Sim, Chico Landi.

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