Um Veríssimo verídico

CASCAVEL – Se em época de trabalho já tenho pouco de útil a compartilhar com a audiência, nada se deve esperar de meus miúdos conhecimentos nos raros dias em que estou parado. Caso de hoje, dia em que o compromisso mais importante – e é de fato importante – é um ensaio para os shows do mês que vem em São Paulo. Aliás, acabaram de ligar do estúdio, vou correr para lá.

Há coisas úteis a serem compartilhadas além das minhas searas, entre elas um rico texto de Luis Fernando Veríssimo. Não é daquelas porcarias da internet que todo mundo atribui ao Veríssimo, ou ao Jabor, ou a quaisquer outros bons escritores. Está em “Diálogos impossíveis”, livro de crônicas do próprio Veríssimo, que estou terminando de ler.

SONHOS

Sonhar é como ir ao cinema. Seus olhos se fechando são como as luzes do cinema se apagando, e seu sonho é como um filme projetado na tela. Só que… Só que, mesmo que você não saiba exatamente o que vai ver n cinema, tem uma ideia. Leu uma sinopse do filme no jornal, viu o cartaz. Sabe se vai ver um drama ou uma comédia. Sabe quem são os atores. Sabe que, se for filme de horror, vai se assustar. Se for um filme com o Sylvester Stallone, vai ter soco etc. Quer dizer: você entra no cinema preparado. Mas você nunca dorme sabendo o que vai sonhar.

Ninguém está preparado para o que vai ver no sonho. Será um pesadelo? Será um sonho romântico? Lúbrico? Engraçado? Um sonho estranho, com tartarugas cantantes acompanhando em coro um dueto lírico do Stallone com aquela sua antiga professora de matemática? Você não sabe. O sonho é sempre uma surpresa.

E outra coisa: se não estiver gostando do filme, você pode sair na metade. Com o sonho, isso é difícil. O ideal seria se você pudesse escolher seu sonho. Ou pelo menos descobrir como ele seria, para você saber o que esperar. uma espécie de sinopse. Por exemplo…

Drama de costumes. Você é um cossaco na Rússia imperial e recebe ordens para arrasar um vilarejo onde todos os homens se chamam Rimski e fazem sexo com cabras, o que não seria tão ruim se as abras não usassem máscaras do tzar. No meio do entrevero surge, misteriosamente, a sua mãe e manda você voltar para casa e não esquecer de lavar as mãos, e o seu cavalo vai rindo o tempo todo.

Drama psicológico. Você está num apartamento que não conhece. Sente que precisa sair dli mas não encontra a saída. Perambula pelas peças vazias até chegar numa em que há um homem estirado num divã. É o dr. Freud dormindo uma sesta. Você o sacode, para perguntar onde fica a saída. Ele acorda, sobressaltado, e diz “ach, bem na hora do chantilly no umbigo!” e passa a persegui-lo por dentro do apartamento, obrigando você a pular por uma janela e cair na cadeira do senador Eduardo Suplicy, que felizmente está viajando. Você tenta figur de Brasília mas também não encontra a saída.

Comédia romântica. Tudo se passa num resort do Caribe. Você confundiu as Patrícias, combinando um fim de semana com a Pilar mas indo com a Poeta. Descobre que a Pilar chegou no hotel atrás de você. Há cenas hilariantes, como a de você se disfarçando de palmeira para não ser reconhecido e fingindo ser um garçom no luau até tropeçar na Luana Piovani e cair dentro da fogueira. A Luana leva você para fazer curativos na sua cabana enquanto a Pilar e a Poeta, que se juntaram, procuram por você. No fim as três se unem para jogá-lo no mar, onde você é recolhido por um iate e adotado pela Angelina Jolie.

Horror. Você está num bastidor e alguém acaba de lhe dar uma batuta para reger a grande orquestra sinfônica que o espera no palco.

– Vá – diz alguém no seu ouvido.

Há ruídos de impaciência vindos da plateia. A orquestra também está inquieta. Onde está o maestro? Mas você não é maestro. Você não entende nada de música. Você não sabe o que está fazendo ali. E você está nu.

– Vá – dizem outra vez.

– Eu estou sem roupa – protesta você.

– Vai assim mesmo, agora não há mais tempo.

Você tenta desesperadamente retardar sua entrada no palco:

– O programa. Eu não sei qual é o programa!

– Toca qualquer coisa – é o conselho que lhe dão. – O importante é entrar no palco.

– Mas eu estou nu!

– Não interessa, entra!

E você é empurrado para o palco. Ouve o som do espanto coletivo da plateia. A orquestra também está de boca aberta. O primeiro violino recua, para evitar qualquer contato com você. Você sobre no estrado, olha para o lado e o seu horror aumenta. Esperando nos bastidores estão um coro de tartarugas, o Sylvester Stallone e aquela sua antiga professora de matemática esperando a sua vez de entrar.

***

Apesar do presumível alerta para a proibição da reprodução total ou parcial da obra, que por sinal não encontrei em página alguma, Veríssimo há de me perdoar, se não pelo fato do texto já ter sido publicado nas edições de 26 de abril de 2009 dos jornais “Estado de S. Paulo” e “Zero Hora”, pela recomendação expressa que faço a “Diálogos impossíveis”. Saiu neste ano dos fornos da Editora Objetiva e o volume é bem barato. Não lembro quanto custou, mas se fosse caro eu não o teria comprado.

Não tenho comprado nada caro de uns tempos para cá.

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