A chicane, sempre ela

SÃO PAULO – Começo com um pedido de desculpas a dois tipos de gente – quem me contrata para narrar corridas e quem assiste às corridas que sou contratado para narrar. Mas não consigo fazer cara de paisagem quando vejo o absurdo que foi imposto ao automobilismo brasileiro com a chicane da curva do Café, no autódromo de Interlagos. E acabo tecendo críticas que por vezes podem não ser exatamente o que o público de uma corrida espere ouvir durante uma corrida. Foi o que fiz hoje.

Aquela chicane, construída na década passada especialmente para o Mundial de Motovelocidade, transcende os limites da aberração. Sobretudo depois que suas zebras passaram a incorporar verdadeiras muretas, devidamente batizadas por mim na locução de horas atrás como Muro de Berlim. Tenho definições geniais para algumas coisas, alguns hão de concordar.

Depois das mortes de Rafael Sperafico e Gustavo Sondermann em acidentes naquele ponto da pista, a Confederação Brasileira de Automobilismo, talvez pressionada pelas alas que tentam eleger culpados para as fatalidades, viu-se pressionada a tomar uma providência. Tomou essa, a de enfiar a chicane goela abaixo das categorias nacionais do automobilismo. Péssima decisão. A Fórmula Truck fugiu da obrigatoriedade, sob a óbvia constatação de que o desenho apertado do trecho é simplesmente inviável para os caminhões. E houve a tentativa de se impor a chicane às categorias do forte Campeonato Paulista de Automobilismo, cujos pilotos tiveram presença de espírito suficiente para bater o pé e dizer não. É o deles que está na reta, ou no caso na curva do Café.

Ano passado, maioria há de lembrar, o José Vitte foi parar no hospital depois de se tornar a primeira vítima da chicane numa corrida do então Trofeo Linea, hoje Copa Fiat. Mês passado, nos treinos para o Brasileiro de Gran Turismo, o Lorenzo Varassin destruiu seu Dodge Viper depois da elevação que acompanha a zebra da chicane projetá-lo contra o muro do lado oposto da pista. No mesmo evento, numa das corridas do Mercedes-Benz Grand Challenge, um piloto, acho que o Rubens Tilkian, passou por sobre a mureta indesejada e, adivinhem!, foi parar no muro. A foto lá em cima, captada pelo Rodrigo Ruiz, mostra o momento em que, numa das corridas do GT em junho, o Lamborghini de Pierre Ventura saiu pulando feito touro de rodeio depois de passar por sobre a chicane.

Nos treinos da quinta etapa do Porsche GT3 Cup Brasil, que teve suas provas hoje em Interlagos, o Otávio Mesquita atacou a zebra, seu carro saiu rodando e foi pura sorte, essa foi minha impressão, ele ter conseguido evitar a batida no muro. E hoje, durante a corrida, o Beto Posses acabou perdendo o ponto de frenagem para a entrada da chicane. Teve presença de espírito suficiente para deixar que o carro seguisse em linha reta, saltando por sobre a tal mureta da chicane e muito provavelmente arrebentando sua suspensão. Se tentasse contornar, provavelmente teria sido catapultado para o lado que o destino apontasse.

O que talvez a CBA não entenda, e deveria entender, é que pilotos atacam zebras de pistas na busca por décimos de segundo, é esse o princípio do automobilismo de competição, pilotos estudando trajetórias para completarem voltas no menor espaço de tempo possível. E quem for fazer isso na chicane de Interlagos corre o sério risco de ficar sem carro. E de se machucar. Há um projeto de reforma para a partir do ano que vem que contempla “intervenção na chicane”, como informa esse comunicado aqui, emitido pela própria Confederação.

A curva do Café repousa no mesmo lugar há 72 anos. Fatalmente foi palco de duas tragédias, as que vitimaram Rafael e Gustavo. Uma providência foi tomada, porque uma posição foi cobrada, e o que se espera de quem responde por qualquer coisa são providências a situações adversas. Providência infeliz, é o que penso. Aquela chicane, da forma como foi construída e reformatada, ainda vai acabar machucando alguém. Queiram os céus que não mate.

O próprio comunicado da CBA, que indiquei dois parágrafos atrás, informa que a Fórmula 1 vai continuar usando o traçado normal, sem chicane. Se a subida do Café comporta a F-1, por que raios não comportaria as competições brasileiras?

Com a palavra, os pilotos que disputam corridas em Interlagos e que me leem. Sou eu o revoltado com o mundo ou há algum fundamento na reflexão que proponho aqui?

ATUALIZANDO EM 28 DE JULHO, ÀS 19h42:
E o Kiko Stone, que em algumas redes apresenta-se como Kico, foi buscar a foto da já citada batida do José Vitte em 2011, depois de ter seu carro projetado pela mureta da chicane. “Aquilo é uma rampa de lançamento”, diz o Kiko, ou Kico, coberto de razão. Alguém sabe quem tirou a foto?

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13 pensamentos sobre “A chicane, sempre ela

  1. Olha Luc. Não sou piloto e não serei nessa vida enquanto não ganhar na loteria. Porem pensando e tendo a visão de um espectador/telespectador. Essa chicane vai matar alguém. Eu espero estar errado, mas se continuar assim alguém vai ser fuder (desculpe pela palavra de baixo calão) nessa brincadeira e vai ter morte. É bom tomarem as devidas providencias antes que a merda role.

  2. Luc, a curva do café é tão, e `as vezes menos, perigosa quanto diversas outras curvas em diversos autódromos. Se a segurança nela pode melhorar? Pode, e deve, mas não por essa ridícula chicane que criaram. Pegaram a curva como culpada e atribuiram todos os erros, falhas e fatalidades, que houveram nos dois acidentes, como sendo de sua responsabilidade.

  3. "Depois das mortes de Rafael Sperafico e Gustavo Sondermann em acidentes naquele ponto da pista, a Confederação Brasileira de Automobilismo, talvez pressionada pelas alas que tentam eleger culpados para as fatalidades, viu-se pressionada a tomar uma providência. Tomou essa, a de enfiar a chicane goela abaixo das categorias nacionais do automobilismo."Nada mais a acrescentar, Luc. Simplesmente falou tudo.Tem "jornalistas de automobilismo", principalmente um verticalmente desprovido (que não é tu, Hehehe), que ganha a vida fazendo celeumas sobre fatos negativos do automobilismo, mas na hora de divulgar e dar força para que a coisa vá para a frente, neca. Esse cidadão dirige um grupo de mídia especializada (em esculhambar) o automobilismo que divulga mais F1 do que as nossas categorias, ou seja, não serve de nada para o automobilismo nacional, e ainda atrapalha fazendo denuncismo barato. Vocês sabem de quem estou falando.Aí eles fazem o alarde, ganham a audiência em cima dessas coisas, e a CBA dá uma resposta qualquer para calar a boca do pimpolho. Assim, nascem essas aberrações, como a tal chicane.Automobilismo é esporte de velocidade, mas eu só vejo os dirigentes tomando decisões que tiram velocidade. Ah, se tem medinho, vá levar a vó pra passear no domingo pela manhã, e largue o automobilismo.Em Tarumã está sendo feita uma chicane na curva 3, exigência da Stock para voltar a andar ali. E que não tentem empurrar essa porcaria guela abaixo das categorias regionais gaúchas, que deixem o uso dela apenas pra quem medinho de andar ligeiro ou anda numa cadeira elétrica que voa pedaços sem motivo. Saudade dos tempos das carreteras, em que cuiudos como Breno Fornari, Catharino Andreatta, Breno Fornari e outros preocupavam-se mais em acelerar e menos com paranóias de segurança.

  4. É o Flavio Gomes Américo, como eu não gosto dele como Jornalista (não sei se como pessoas ele é gente boa) posso falar isso na boa pois quem paga minhas contas sou eu e não tenho medo de homem, realmente é um cara que fala muita coisa que eu não concordo, principalmente denegrindo os pilotos nacionais que defendem nosso país, mas o que eu resolvi fazer é simplesmente não ler nem visitar o site que escreve e aconselho o mesmo ao Niltão, pois graças a Deus temos livre arbítrio.Sobre o texto concordo em 100% com o Luc.Um abraço á todos.

  5. Luc, o pior é saber que na CBA temos dois ex-pilotos, ídolos nacionais que nada fazem.Todos sabem que esta gincana foi feita com a desculpa de "proteger os pilotos" então, sendo verdade, surge uma dúvida: e quando morrer o terceiro piloto? vão fechar o autódromo?

  6. Teve acidente no Linea, na Porsche Cup, carro danificado na GT .. essa lombada em forma de chicane e uma vergonha, ontem andei de Porsche de Rua no Porsche Club sem essa porcaria e te falo o Rafael e o Gustavo foram acidentes e fatalidades o Alonso bateu forte no Café e ta ai lider do campeonato, acho que ta na hora de trazer o conceito do que e bom de fora de verdade, não precisa ser um DTM, mais vamos pensar nos Pilotos pq ontem eu vi o que e estar sentado com a bunda no banco a 250 km no final da RETA de Interlagos, então essa chicane foi mais um OLHA EU MUDEI ALGUMA COISA VIU, do que a melhor solução para a curva do café.mais não podemos esperar nada mesmo, enquanto descobriam que DEODORO era um campo minado o todo poderoso estava na EUROPA e nem deu as caras em Jacarepaguá, agora no WTCC em Curitiba ele tava la todo pimpão a CBA precisa dirigida e gerida por quem gosta do automobilismo e não por quem só pensa em TAXA.Conversando em Interlagos vemos como tem coisas erradas, mais que só vai mudar quando o cara que assina for responsabilizado por o que acontecer com algum piloto.A CBA leva os pilotos na LEI DA MORDAÇA falou se prepara para retaliação.

  7. Essa chicane me lembra uma vez (faz um tempinho) que eu estava assistindo uma corrida de DTM Alemã em que o Edgard Mello Filho narrava e tinha um circuito em que fizeram uma chicane com cones de borracha para limitar a velocidade em certo trecho e o Edgar carinhosamente batizou a dita cuja com o apelido de "a sem vergonha". Não sei porque isso veio a minha mente ao ver Interlagos…

  8. Pingback: Fim da chicane – BLuc

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