Sertanejão na veia

Ouvi no som de uma Saveiro que passou na rua. Uma das músicas que a gente sempre fazia nos botecos nos tempos das primeiras duplas, primeiro com o Reginaldo, depois com o Lobo. “Nem dormindo consigo te esquecer”, com Gian & Giovani.


Foi com o Gian e o Giovani, ou Aparecido e Marcelo, que vi pela primeira vez, no jornalismo, como de um limão se faz uma limonada – embora nós três, eles e eu, tenhamos saído daquela saia-justa tomando suco de laranja. Qualquer hora eu conto aqui.

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Trânsito infeliz

Está aqui a matéria do “Bom Dia Brasil” sobre motoqueiros fazendo arruaça numa rodovia goiana. Vi a exibição na tevê enquanto tomava um café ali no boteco da dona Martina.

É pena que esse tipo de abordagem não dê em nada – no caso da turminha goiana, rendeu umas multas, motos apreendidas, debite-se parte disso à presença da equipe da televisão. Como comentei no Twitter, ainda durante o café, esse tipo de gente caga pra vida. A merda disso tudo é que esse crime não põe em risco só as vidas dos irresponsáveis infratores.

Temos por aqui dois ótimos campeonatos nacionais de motovelocidade, o Superbike Series Brasil e o Moto 1000 GP. Os espertalhões das rodovias – não só os de Goiânia que viveram inglórios instantes de fama na Globo -, se tivessem colhões para tal, poderiam encarar um dos dois. Se.

Quem esse cara pensa que é?

Quem esse cara pensa que é?

Foi essa, repleta de indignação, minha primeira reação quando desliguei o telefone durante um horário de almoço em 1998. A ligação, com uns 15 ou 20 minutos de duração, talvez mais, consumava uma entrevista com Rubens Barrichello para o meu jornal, deu página inteira numa edição de domingo.

Tenho o hábito besta, alguém já me alertou que é bem besta, de fazer distinção entre o Rubinho da Jordan e o Rubens de a partir de quando estava na Stewart, mais ou menos a época daquela entrevista, e sobretudo da fase da Ferrari até a de agora.

A entrevista. Em resposta a dada pergunta, algo sobre críticas ou rejeição, ou qualquer coisa nessa linha, Rubinho havia acabado de me dizer que quem não gostava de vê-lo correndo deveria trocar de canal na hora das corridas. Logo a mim, que assistia às corridas torcendo por Hill contra Schumacher em 95, por Villeneuve contra Hill em 96, por Schumacher contra Villeneuve em 97, por Schumacher contra Hakkinen em 98. Vê-se que já naqueles tempos eu era um pé-frio dos diabos.

Quem esse cara pensa que é?

Nunca fui exatamente um torcedor fervoroso de Rubens. Ou de Rubinho. A temporada de 1998 era a minha sexta como profissional no automobilismo, embora até então jamais tivesse pisado num autódromo fora do Paraná ou visto um carro de Fórmula 1, exceção feita à Williams do Piquet na reinauguração do autódromo de Curitiba, dois anos antes.

Não que até aquela altura ele, Rubinho, não houvesse proporcionado momentos que eu relacionaria com facilidade entre os que aplaudi. O trabalho na F-3 inglesa e na F-3000 internacional, que acompanhava em VTs pelo “Esporte Espetacular”, a pole em Spa/94, a grande atuação em Donington/93, numa manhã em que eu e dois amigos nos enfiamos num fim de mundo onde sinal de TV era milagre e, entre churrasquinhos e cervejas, cantávamos “ê, ô, ê, ô, o Rubinho é um terror” que nem uns doidos, e quando o carro quebrou mudamos a cantoria, sem qualquer preocupação poética ou com rimas, para “ê, ô, ê, ô, o Rubinho se fodeu”.

Aquele domingo de 93 trouxe, talvez, o momento em que mais torci por uma vitória de Rubens em seus trezentos e não sei quantos GPs. Chegamos, meus amigos e eu, e até hoje não lembro por que fomos parar numa garagem quase fora da cidade pra ver a corrida, a torcer por uma dobradinha brasileira com ele à frente de Senna, que era o ídolo da época, o nosso ídolo. Quebrou, paciência, ainda havia carne e cerveja, era isso que mais nos importava.

O que foi a carreira de Rubens de 93 até agora todo mundo sabe. E quem não sabe é porque não está nem aí para isso. A mim, pouco importava o que ele conseguisse ou deixasse de conseguir. Até aquela entrevista em 98, que valeu a Rubens Barrichello, de minha parte, uma frenética torcida contrária.

Quem esse cara pensa que é?

É uma pergunta que talvez nem o próprio Rubens pudesse responder, nem em 93, nem em 98. Nem em 2000, quando já não era mais Rubinho e teve um domingo inspirado e deu aquele show na corrida maluca de Hockenheim. Show com xis maiúsculo, diria um ex-colega de faculdade. Quem esse cara pensa que é?, foi o que pensei, enquanto a Ferrari atropelava o que lhe surgia à frente. Devo ter pensado isso. Pensei mais algumas coisas, que publiquei aqui.

E seguiram-se anos de altos e baixos, e todo mundo sabe como terminou a história de Rubens na F-1, pelo menos a fase dos primeiros 19 anos, já que ele admite voltar. Não volta. Semana retrasada, foi dormir com a certeza do emprego mantido, “dentraço” da equipe, para aplicar um termo que é dele próprio. Acordou com um telefonema do patrão, ex-patrão, “sinto muito, não vamos renovar”.

Dentraço da equipe? Certeza? Mas, afinal, quem esse cara pensa que é?

Escrevi algumas linhas sobre Rubens dias depois do telefonema internacional que o pegou de surpresa – sim, posso afirmar: pegou-o de surpresa. Não as publiquei. Não me acho tão importante assim para opinar sobre tudo, como diria a Alessandra Alves. Lembro que escrevi sobre ter narrado a volta final de sua última vitória na F-1, uma TV na sala de imprensa mostrava o GP em Monza e eu me diverti, sem qualquer compromisso com isso, repassando aquele momento para o público que já acompanhava em Interlagos uma etapa do Itaipava GT Brasil. Lembro também que terminei o texto de dias atrás elencando algumas coisas que haviam faltado a Rubens em sua passagem pela Fórmula 1, a vitória no GP do Brasil incluída, e observei que essa ainda poderia ser compensada numa participação pontual na etapa da Indy no Anhembi. Ainda não havia vazado para a imprensa, quando escrevi aquilo, que ele iria testar o carro do irmão-camarada Tony Kanaan. Testou hoje, dia de sorrisos e veladas trocas de gentilezas na Flórida.

Há duas semanas Rubens perdeu o emprego. Lamentou com discrição, saudou o substituto e se mandou com seus moleques para a Disney. Está com a vida ganha, afinal. E hoje, perto dos quarentinhas, foi se esbaldar num carro da Fórmula Indy, e por lá deve ficar por um bom tempo, e depois talvez vá disputar corridas de longa duração, ou Nascar, ou GT, ou Stock Car, ou Truck, ou qualquer outra coisa, ou pode ser que vá para casa cuidar dos cães e contar histórias aos netos, e de modo ou outro vai ser assunto entre os que orbitam o automobilismo.

E não vai ser surpresa para ninguém se, agora fora do ambiente carregado que a F-1 parece impor aos que a frequentam, assumir maior habilidade para medir as palavras e evitar desgastes. Como também não vai surpreender viv’alma se, em via inversa, soltar o verbo de vez, falar o que lhe der na telha, doendo em quem doer. A mim, parece já ter adotado esse novo, hã, way of life.

É aí que eu pergunto: quem esse cara pensa que é?

(Nota: como ainda não aprendi a indicar os créditos no cantinho de cada foto, cito por aqui: a primeira eu subtraí do site da Indy sem muito escrúpulo, já que não estava na área de material copyright free; a segunda foi postada no Twitter do próprio Kanaan; a última veio também do Twitter, foi postada pelo Anderson Marsili, que é assessor de imprensa dos dois)

Luc Parade

O post de hoje mereceria uma hashtag como #ForçaWando. A partir de 1min39s do vídeo ouvimos “Safada”, clássico dos clássicos, que coloca o Wando em qualquer Top-Night mundial, junto com Zé Augusto, Amadão e Zeca Pagodinho.


Porque um cara que canta as músicas que o Wando canta é imortal. E ponto final.

O Milton no Hoje

Faz dias, ou meses, que estou para publicar aqui uma história sobre o Milton Serralheiro, uma traquitana que ele inventou e usou quando corria na Fórmula A. Para isso, até já fiz uma consulta ao Rodrigo Mattar, sobre um dado que anotei em algum lugar que não lembro, vou ter de perguntar de novo.

Enfim, não é só esse causo que está enroscado na minha correria. Algumas entrevistas que já combinei e não preparei, também. De qualquer modo, eu falava do Milton, que hoje ganhou destaque no jornal “Hoje”, em matéria assinada pelo parceiro Fábio Donegá. Essa aí, só clicar para ampliar.

Convivi algum tempo com o Milton nas pistas, bastante tempo fora dela, mas o tempo de pista foi suficiente para me dar um feedback que eu deveria ter passado ao Fábio, se ele tivesse perguntado: a imprecisão das datas e outros dados. Praticamente todas as datas citadas no texto estão distorcidas, culpa da memória ruim do Milton, que não é uma boa fonte, e principalmente de ele nunca ter dado muita bola para informações tão precisas. Gosta, mesmo, é de contar bravatas.

Poderia, deveria, ter relatado ao Fábio a história do dia em que bateu num barranco e ficou sem cabeça, ou do garotinho de colo que o reconheceu na pista em Londrina pelo estilo da frenagem em determinada curva, quando mudou o layout do carro depois de anos.

Dessa do fogo no mato, honestamente, eu não lembro.

ATUALIZANDO EM 31 DE JANEIRO, ÀS 9h40:
Aí que o “Hoje” de hoje traz mais um pouco da sapiência inútil do Milton, que sempre sonhou ser dirigente de automobilismo para instituir regras que, em sua cabeça, funcionariam muito bem. Uma delas, que não está na matéria do Donegá, é fazer com que num grid que tenha, por exemplo, 26 carros, larguem 13 no sentido da pista e outros 13 na contramão…

A criatura, 20 anos depois

Nilson Gomes Vieira é um papa da arquitetura no Paraná. Não sou eu quem vai contar a história dele para os que não a conhecem, minha competência não chegaria a tanto. O portfólio dele diz bem mais. Hoje, depois de anos, revi o Nilson, que desde algumas semanas atrás é nosso vizinho de porta aqui na galeria onde temos nossa agência jornalística.

Sujeito de bom papo, Nilson veio aqui para uma conversa despretensiosa com meu sócio. Política da boa vizinhança, sabe como é. Em dado momento, quando me incluíram na conversa, disse que já havia trabalhado pra ele. Ao semblante de estranheza, aquele de quem pensa “de onde conheço?”, refresquei-lhe a memória citando determinado período de 1992, quando cumpria meio período no escritório dele. “Você é o menino que trabalhava no jornal!”, ele reconheceu. Fiquei grato pelo “menino”.

Àquela época, primeiro ano do segundo grau, uma denominação que não se usa mais, eu cursava Técnica em Edificações. Na teoria, era minha incursão no mundo da engenharia, onde me meti por aconselhamento de amigos pela habilidade que tinha com os traços. Na prática, se tivesse concluído os três anos de curso, dele sairia credenciado a trabalhar como mestre de obras e, com dedicação, uma boa base para uma faculdade de Engenharia. A vida me deu outros rumos, é sabido.

Foi lá no colégio Polivalente que meu total desinteresse por determinada palestra sobre biologia (pra que estudávamos biologia num curso direcionado à engenharia?) me levou a rabiscar alguns desenhos bobos numa folha em branco de uma apostila. O rapaz ao lado achou interessantes os meus desenhos e pediu para eu ligar no dia seguinte. Era Marcelo, filho do Nilson, acabo de saber que hoje vive da área de educação física em Curitiba. No dia seguinte telefonei e fui convidado para trabalhar na NGV Arquitetura. Desenhando castores.

Tinha de 14 para 15 anos e passei semanas no estúdio do Nilson despendendo manhãs a desenhar castores. Em todas as situações que eu pudesse imaginar, foi isso que Nilson me pediu. Desenhava castores pela manhã, comia um cheese-salada e ia para a redação do jornal, onde gastava o resto do dia até a hora de ir para o boteco. Adolescentes de 20 anos atrás tinham rotinas interessantes, é o que eu sempre digo.

Na visita de há pouco, lembramos dos castores. Do castor. Ganhou um nome, Castorino, e até hoje é utilizado pelo Nilson nos materiais impressos dele – correu ali na sala dele e trouxe-me um prospecto. Duas décadas depois, observem só, fui rever o Castorino. Há mais no impresso que ganhei, chegando em casa eu compartilho mais alguns por aqui.

Os dois filhos do meu sócio, que também dão expediente aqui na agência, cursam Arquitetura na faculdade. Os dois têm, ali do outro lado do corredor, um acervo riquíssimo para estudos.

Acho que o Nilson não vai ter muito sossego daqui por diante.