Lula lá

De uma hora para outra, uma quase beatificação de Lula, que teve diagnosticado um câncer na garganta.

Nos primeiros dias após a descoberta, horas e horas de espaço nobre na TV para explicar seu caso, a operação de guerra já montada para a cura, as correntes de fé de quem segue Lula e seus comparsas com fervor religioso, os casos garimpados de quem já venceu a doença, um acompanhamento minuto a minuto do tratamento.

Até meu time, que é também o time de Lula, foi fazer-lhe homenagem em campo, e ainda assim conseguiu ganhar e voltar à liderança do campeonato. Nunca vou receber homenagens do meu time.

Lula, à sombra de sua doença, é convertido em um quase mártir. Só não é mártir porque não morreu, claro. E vira alvo de mensagens que se acumulam em profusão. Às personalidades, é obrigação prática do momento enviar a Lula bem elaboradas mensagens manifestando votos gentis, quase todas criadas por assessores.

Lula não perfaz exatamente o perfil de garotão natureba que economiza saúde. Está a caminho dos setentinhas, toma os goles dele como toda gente que se preze, fumou até um ano atrás. O corpo cobra essas contas todas.

Sem trocadilhos, não tenho nenhum voto de especial apreço por Lula e não vai ser seu novo drama que vai me pôr em demagógica condição de bom moço. Não torço contra, claro, apesar do meu azedume dos últimos dias, também decorrência de um problema recente – o meu é bem menos grave que o dele, de ordem material, e em comum entre os dois só o fato de que vou pagar as duas contas.

Há pouco foi-se José Alencar, vice de Lula em seu tempo na presidência. Foi tratado e apontado como guerreiro, batalhador, um herói, termos com que discordo com veemência. Guerreiro é o pai de família que, mesmo tendo expediente completo a cumprir no dia seguinte, passa a noite numa fila de posto de saúde à espera de uma concorrida senha para que um médico do SUS dê alguns instantes de atenção a seu filho enfermo, e que seja seu mal qual for haverá de lhe receitar uma aspirina e mandá-lo para casa. Guerreira é a mãe que, depois de dois dias e duas noites em corredor de hospital com a filhinha doente nos braços, volta para casa amargando a falta de atendimento e de dignidade e prepara um chá para a menina, garantindo-lhe estarem ali as soluções para o que a faz sofrer.

Lula terá do bom e do melhor em seu tratamento, é mais do que justo, e de seu drama sairá vencedor, como já saiu vencedor de outras tantas situações adversas. É uma certeza que tenho. E estará lá daqui a três anos, retomando seu lugar ao trono que a maioria lhe conferirá pela terceira vez. E, uma vez estando lá, que reconheça a importância do bom tratamento que lhe terá sido dispensado e dela faça uma sólida plataforma de ação.

O povo pobre para quem Lula prometeu governar quando assumiu em 2003, e que continua dormindo na fila do posto de saúde, por vezes em vão, também precisa de médico. E não tem.

E segue o bonde

Meu dia começa tarde, como sempre. E dou, nem tão como sempre, uma folheada virtual na CGN, que vem a ser o site da Central Gazeta de Notícias. Um suspiro mais forte diante da chamada de que a polícia recuperou em Cascavel, entre a noite de ontem e a madrugada de hoje, quatro veículos roubados ou furtados.

O meu não está na lista. Uma moto CG que fora roubada na mão grande, um Gol furtado quarta-feira da semana passada e mais uma Quantum e uma Saveiro furtadas de uma garagem de automóveis, no caso desses dois a PM perseguiu os larápios, que conseguiram fugir a pé, e tal, os dados estão todos lá, na nota assinada pela colega Néo Gonçalves.

Bom, até certo ponto, saber que os homens da lei estão recuperando carros, em que pese o fato de ninguém ter sido preso, foi isso que concluí da breve leitura. Ruim constatar que a bandidada está fazendo a festa em roubos e furtos de carros na alegadamente pacata Cascavel. Que, também nisso, tem-se feito a casa-da-mãe-joana.

Talvez não tenha sido mera coincidência o fato do material peito pela Néo ter sido publicado sob o chapéu “Cotidiano”.

Sertanejão na veia

Mais uma exceção que surge na série, e como o blog é meu eu abro a exceção que bem entender e ninguém tem nada com isso, ora bolas.

O cidadão aí do vídeo é Tomy Sell, um uruguaio que leva a vida cantando e vendendo CDs nas ruas de Buenos Aires. Fiz esse vídeo com meu mambembe telefone celular alguns meses atrás. Era meu aniversário, coisa que não se comemora mais a partir de uma certa idade, mas saí para comemorá-lo num boteco portenho com o Andrei Spinassé e os irmãos Cardoso – Rodrigo, Fabinho e Ricky, a rapaziada da equipe “Motores Velozes”.

Tomy, que não tem site – pelo menos não tinha, cinco meses atrás -, não canta músicas sertanejas. Não é seu costume. O repertório prima por músicas internacionais que fizeram sucesso nos anos 70 e 80. São as músicas que estão nos CDs, e comprei dois, custaram 50 pesos. Em que pese o inglês carente de algum ajuste fino, Tomy é muito bom cantor. Manda bem, como dizem.

Conheci-o em 12 de maio cantando numa rua de Buenos Aires, ele, no caso. Até pensei que estivesse dublando, tamanhos eram a qualidade da cantoria e o alcance do microfone sem fio que utilizava. Não dublava. Enquanto cantava, uma moça simpática oferecia os CDs aos dezenas de transeuntes (ainda dizem “transeuntes”?) e um tiozinho se encarregava de puxar os aplausos.

A nosso pedido, Tomy Sell se dispôs a uma musiquinha sertaneja. Está aí, “Dormi na praça”, é um dos maiores sucessos de Bruno & Marrone. E por que trazer à série de um blog brasileiro o uruguaio que canta em inglês em ruas argentinas? Porque os CDs de Tomy Sell, lembramos ontem, integram o prejuízo da semana passada, o furto do carro aqui na frente de casa. Estavam no portaluvas. Sobraram os três vídeos que fiz com o celular – os outros dois trazem “Dust in the wind” e “Hotel California”.

Ano que vem, quando voltar à Argentina, vou procurar o Tomy para comprar mais CDs. Numa dessa ele possa estar na frente do mesmo shopping.

Sertanejão na veia

Aí que Zezé di Camargo & Luciano vão ter muita mídia nos próximos tempos da próxima semana.

Separa, não separa, fato é que no show de ontem em Curitiba o Zezé subiu ao palco, explicou o problema entre irmãos e começou o show sozinho. Lá pelas tantas, o Luciano voltou ao teatro, foi pro palco e também deu sua versão ao ocorrido. Consta que Luciano, hoje, está internado, consequência do que teria sido uma overdose de remédios. Troço complicado.

Como sou um maria-vai-com-as-outras reconhecido, trago Zezé e Luciano – ou Mirosmar José e Welson David – à série do blog, hoje, com um combo que gostei muito. “Tristeza do Jeca”, uma das três músicas mais belas já gravadas no Brasil, e “Último dos apaixonados”, uma música que já usei para fazer paródia lá na Capital FM. Ainda bem que a paródia sumiu dos registros, esse não é o tipo de brincadeira que se deve fazer com amigos. Prefiro parodiar sobre políticos ladrões e sacanagens afins.

Por falar em ladrões, agradeço se alguém tiver notícias do meu carro.

Os caras do meio: Marcus Zamponi

Sempre prometo manter, aqui no blog, séries que nunca avançam. Semana passada lancei mais uma, “Os caras do meio”, na vã pretensão de fofocar um pouco a respeito dos caras que falam e escrevem sobre automobilismo.

Começamos com uma entrevista mequetrefe, de resultado salvo pelo Victor Martins. E a série miou já na segunda semana. Por motivo de força maior, já que nos últimos dias tenho lidado com caras de outros meios, na tentativa também vã de reaver o carro furtado sob as minhas barbas, na frente de casa. Correria total, enfim.

Assim, a título de reposição do material, apelo para o mau jornalismo, pautado no control-cê e control-vê. Reproduzo aqui um material elaborado e publicado pelo afável (?) Américo Teixeira Júnior na segunda edição da Revista da FASP e também em seu Diário Motorsport. O personagem, hors concours, é o Zampa, figura folclórica que, salvo novos imprevistos, pretendo trazer de volta aqui.

E meus agradecimentos ao Américo pela cessão da matéria. Devo (mais) uma.

Revista da FASP homenageia o jornalista Marcus Zamponi

Se você é apaixonado por automobilismo e devorador de publicações especializadas, seguramente é leitor assíduo de Marcus Cícero Zamponi, jornalista de tal forma diferenciado que sua trajetória foi e continua sendo referência para muitos dos atuais e, certamente, para futuros profissionais do setor. Ele dispensa sobrenome editorial. É o Zampa, e ponto final.

Essa condição superlativa foi construída ao longo dos anos, sempre de forma apaixonada. Quem tem o privilégio da convivência, já presenciou cenas de todos os tipos. Da ira quase incontrolável (só não jogou um computador pela janela porque o pessoal da redação foi mais rápido e segurou a fera) às lágrimas de emoção diante de um simples gesto de carinho. Do humor afiado às inacreditáveis demonstrações de generosidade. Do texto irretocável aos rabiscos indecifráveis que nem ele mesmo entende, às vezes.

Zampa chegou ao jornalismo de automobilismo com uma bagagem de “piroco”, termo cunhado por ele próprio. Designa aquele cara tarado por automobilismo. Aventurou-se pela vida e foi buscar subsídios no “olho do furacão”. E foi justamente na equipe March de Fórmula 1, cujo dono, entre outros, era um “tal” de Max Mosley, onde Zampa foi trabalhar nos anos 70.

Seguiram-se a passagem histórica na Auto Esporte, assessoria de imprensa dos mais importantes pilotos e eventos do Brasil, coberturas internacionais, gerenciamento de carreiras, representação de categoria, repórter especial da Motorsport Brasil e eterno colunista da revista Racing. Desde a sua criação, por Sérgio Quintanilha, a Racing já passou pelas mais radicais mudanças. Até o próprio Quintanilha não está mais na empresa, mas nunca a coluna do Zampa deixou de ser publicada.

Tivesse conduzido sua carreira de jornalista de automobilismo em terras européias, Marcus Zamponi teria, seguramente, fama mundial. Não porque se atirou ao chão para, agarrado aos pés de Isabel Reis, fazer com que a big boss da Motorpress ouvisse uma idéia sua. Nem porque tropeçou numa carenagem, destruindo-a, correndo para dar uma paulada em José Pedro Chateaubriend, que o ofendera. Muito menos por ter pensado que Clay Regazzoni fosse viado, e vice-versa, tudo por causa de um gato que roçava as pernas de ambos durante um almoço na Inglaterra. Nada disso. Teria fama mundial pelo gênio que é.

Essa genialidade, felizmente, está viva, límpida, em uma cabeça brilhante. A produção jornalística é incansável e o seu livro, maravilha das maravilhas, está pronto, só esperando um patrocinador para torná-lo de alcance público. Enquanto isso não acontece, seus trabalhos estão por aí, em jornais, revistas, sites, rádio e TV.

Mundo sobre rodas

Uma providência que tem sido cada vez mais comum entre donos de automóveis é a de envelopá-los. Não, caro amigo do ABC paulista, não se trata de despachar o carro por correio para Nenhures, mas de substituir uma pretensa pintura pela aplicação de adesivos especiais.

Começou pelos donos de supercarros importados cujos preços de tabela passam dos seis dígitos, centavos excluídos. E virou moda, a ponto de contemplar carros cujos preços de mercado equiparam-se ao orçamento do serviço. Não é exagero.

Dia desses, cá ao lado do escritório, topei com um carrinho quase cinquentenário. Um Karmann-Ghia, devidamente convertido ao preto fosco da onda.

Imagino que o Flavio Gomes deva ter mandado envelopar uns três dos 15 exemplares do Karmann-Ghia que mantém em sua garagem. E estou pensando em envelopar meu Chevette tubarão, também.

Por falar nisso, tenho de ligar pro Cláudio Deitos lá na Speed Car. Por motivos de força maior, estou precisando daquele carrinho.

Repetecos no Speed

E já estão disponíveis no site do Speed Channel as datas e os horários de exibição das corridas do Itaipava GT Brasil na etapa de Campo Grande. Todos esmiuçados aqui, como sempre.

As 15ª e 16ª etapas, disputadas no último fim de semana e vencidas por Wagner Ebrahim e Matheus/Valdeno Brito, serão reapresentadas, sempre uma logo após a outra, neste domingo, dia 30, a partir do meio-dia e, também, a partir das nove da noite.

Haverá outra apresentação na segunda-feira, dia 31, marcada para as sete da noite. Na terça-feira, 1º de novembro – véspera de feriado, aliás –, serão três exibições, agendadas para as duas da manhã, as sete e meia da manhã e as quatro da tarde. Uma outra apresentação está marcada para a segunda-feira seguinte, dia 7, a partir das duas da tarde.

As corridas do Itaipava GT Brasil, vocês sabem, têm minha narração. Aliás, ontem, postei aqui a íntegra da corrida de domingo, que foi mostrada ao vivo pela Band.

Itaipava GT, na íntegra


Duvido que alguém tenha perdido a transmissão, mas para os que perderam há uma segunda chance. Graças ao Kico Stone, um sujeito multimídia social (inventei agora, essa).

Kico – que no Twitter ataca como Kiko – postou no YouTube a 16ª corrida do Itaipava GT Brasil, que a Band transmitiu ao vivo no último domingo lá de Campo Grande, com narração minha, comentário do Tiago Mendonça e reportagem da Ida Garcia, que é do time da TV Guanandi, afiliada campo-grandense da emissora.

A corrida foi postada em quatro partes. A primeira já está aí acima, prontinha para ser degustada. Aqui estão a segunda, a terceira e a quarta.

Desde que meus bons parceiros me abriram a oportunidade de narrar as corridas da categoria nas transmissões ao vivo na Band, foram seis corridas, cinco das quais vencidas por Valdeno Brito e Matheus Stumpf.

O Itaipava GT Brasil terá as corridas da nona e penúltima rodada dupla daqui a duas semanas e meia, no Velopark. Gosto daquele lugar.

ATUALIZANDO EM 26 DE OUTUBRO, ÀS 17h31:
Era só eu ter prestado um pouquinho mais de atenção, de início, para perceber que quem postou os vídeos no YouTube não foi o Kico, mas a própria equipe do Itaipava GT Brasil. O Kico me enviou os links via Facebook.

Carta ao desconhecido

Escrevo sem saber para quem, na verdade. Mas não é pretensão minha vasculhar a identidade e nem a intimidade de alguém que empreende tanto esforço para avançar em suas metas. Talvez leia-me, meu incógnito interlocutor, e saberá que são endereçadas a ele minhas gentis considerações.

Refiro-me, a título de mero esclarecimento aos que não estão a par da conversa, ao distinto cidadão que teve de estender às altas horas o fruto de suas aptidões e teve de se submeter à chuva forte da última madrugada, atípica para o verão em que nossa primavera tem-se convertido, para adir a seus domínios um bem meu. Um automóvel, ser por vezes inanimado.

Automóvel que pode estar, a essa altura, sob melhores cuidados que os meus ou de minha esposa. Ela e eu, insensíveis, submetemo-lo por vezes ao relento, às noites frias, à chuva. Algo que tocou você, seguramente. Compadecido diante dos inconcebíveis maus tratos que supôs terem sido dispensados a ele, meu automóvel, você não teve dúvidas: levou-o para você. Desculpe-me pelo “meu automóvel”. É a força do hábito, sabe? Não me leve a mal, estou ciente de que ele agora é seu.

Sei que você é um cidadão atento e seguramente terá notado em seu estudo de campo que ali de onde você tirou meu automóvel, para a ele dar acomodações mais dignas, havia mais um. Imagino que você não tivesse um automóvel até então, e é isso que pregam algumas correntes. Se ali havia dois e em seus domínios não havia nenhum, nada mais correto que um deles passar a ser seu. Noto, também, que você tem bons critérios. Das parcas opções que lhe ofereci, escolheu um automóvel muito bom. Bem rodado, é verdade, apesar da pouca idade, espero que isso não lhe cause transtornos.

Longe de mim, nobre desconhecido, atribuir a você adjetivos de cunho pejorativo. Você, afinal de contas, está coberto de razão. Atua de acordo com as regras do sistema que eu, tolo e irresponsável, faço questão de contestar. É a seu favor que rezam as regras oficiais, com as quais não posso contar. Aliás, é uma classe bem organizada, a sua. A ponto de ter elevado ao posto máximo de uma hierarquia uma pessoa que, suponho, lhe seja companheira de ofício. Entendo, claro, que todos fazem o que é possível para melhorar as condições de um grupo ou meio que lhe seja afim.

Entendo, igualmente, que suas condições de trabalho não eram as desejadas, e por isso as mudanças nas regras, que ampliaram suas benesses, diminuíram as satisfações que você tem de dar a nós, que injustamente nos julgamos tão superiores a tudo só por sermos gente honesta. Um parceiro seu me disse, tempos atrás, que ser honesto não leva ninguém a nada. Você acha que eu deveria tê-lo escutado?

Sua próxima noite de sono será mais tranquila e prazerosa que a minha. Nada mais justo. Não posso e nem devo vislumbrar vantagem em tudo e afinal, enquanto eu gozava de uma noite de sono tranquila algumas horas atrás, você exercia, exausto e sob condições adversas, o ofício que elegeu em seu minucioso estudo de vantagens e desvantagens.

Se houver a oportunidade de um contato nosso, e disso já estou convencido, não vou tentar pôr em prática nenhuma das 12 ou 13 reações com que minha mente se atreveu a planejar nas últimas horas. Em primeiro momento, por mera praticidade. Sou péssimo com burocracia, lidar com as gentes dos Direitos Humanos exigiria aptidão para papéis e protocolos. Mas, havendo um encontro nosso, vou, sim, tomar a liberdade de lhe solicitar uma consultoria. Sabe, distinto cidadão, o ofício que elegi para mim é um pouco menos gratificante que o seu. O da minha esposa, idem, imagino que ela lhe vá solicitar também algumas orientações. Seguimos, ela e eu, sob a necessidade de um jogo-de-cintura por vezes indigesto para colocar em dia o carnê que acompanhou nosso automóvel… Perdão, seu automóvel. Não somos bons em planejar essas coisas. O seu método é mais prático. Talvez tenha nos faltado um pouco de ousadia para pô-lo em prática três anos atrás, quando, tolos, adquirimos esse carrinho. Quanto aos pagamentos, não se preocupe, resolvemos isso por aqui, mesmo.

Por falar na minha esposa, ela era quem utilizava o automóvel que agora está sob seu domínio. É possível que isso a deixe um tanto descontente, mas não vá se preocupar com bobagens assim. É coisa de casal, a gente administra sob o teto do lar. Você, douto autônomo, acabou até me oportunizando uma boa sensação de dever cumprido: não imaginei que tivesse capacidade e presença de espírito para explicar a meu filho de quatro anos o que havia acontecido e que tínhamos um pouco de pressa e que ele teria de ir conosco à delegacia de polícia, um ambiente que suponho ser-lhe bem familiar. Você precisava ter me visto fazendo isso, foi demais. Aquele papo de pai para filho.

Meu menino surpreende quando manifesta noção do valor das coisas, mas não as diferencia por preço. Talvez por isso, mesmo triste porque não tínhamos mais “o nosso carro”, ele mostrou-se extremamente sentido pelos brinquedinhos e doces que mantinha sistematicamente armazenados num compartimento qualquer ao alcance do espacinho que ocupava no banco de trás. Fique tranquilo, já esclareci para o menino que o carro não é nosso, mas seu. Ele, o menino, agradeceria bastante se você lhe pudesse devolver a elevação de assento que inadvertidamente acabou levando consigo – não tenha pressa, pode ser mês que vem, até sugiro que seja por volta do aniversário dele. Tinha algum apego àquilo. Mas só se não lhe for incômodo. É bobagem de criança.

Encerro por aqui, não quero lhe tomar tanto tempo. Talvez você esteja fora do país tratando dos assuntos de seu ofício e não o tenha em dose a dispensar à minha prolixidade. Peço que não se atenha aos erros ortográficos que eu possa ter cometido – aliás, seu ex-colega a quem me referi há pouco já fez piada, também, por minha preocupação excessiva em usar corretamente conjugações, pontos e concordâncias, falou-me que na organização de vocês ninguém dá a mínima para isso.

Peço que não me leve a mal, também, se eu fugir um pouco ao contexto dessa nossa conversa quando estivermos frente a frente. Vá relevando, desde já, qualquer mudança repentina de postura. A correria dos últimos dias tem me deixado um tanto confuso, eu às vezes me embanano com as palavras.

A foto que postei aí acima, insigne interlocutor, foi a única que consegui do seu novo carrinho. É de uns três meses atrás, quando dei-me o luxo de providenciar no meu próprio ambiente de trabalho, um autódromo, a instalação dos pneus novos que havia acabado de adquirir para ele. O senhor ou um seu cliente terá boa borracha para usar durante longo tempo. Sua comodidade é uma preocupação minha, afinal. Mesmo que eu não quisesse, meu país varonil preocupa-se bastante com você. Um dia, penso, ele vai se preocupar comigo, também.

Saudações.

P.S.: Imagino que seu grupo tenha alguém craque em computadores. É muito incômodo eu lhe pedir que encomende ao nerd da turma cópias dos CDs que estão em seu novo porta-luvas? Se puder, me mande a conta. Você sabe onde eu moro, afinal.

Cascavel: o bonde da história (3)


Tenho falado bastante às pessoas com quem convivo nos meus sítios de trabalho, nos últimos tempos, sobre a pista do autódromo de Cascavel. Sobre a pista, não sobre o autódromo, a diferença me parece bem clara.

Melhor que falar é mostrar. Então vai aí, completinho, o vídeo de uma corrida de Fórmula 2 que aconteceu pelas bandas de cá 25 anos atrás. A transmissão da TV Tarobá teve narração do meu bróder Edson Moraes, exímio sinuquista. Esse material veio à tona no trabalho de resgate da história do automobilismo das bandas de cá, empreendido pela família Tebaldi.

Assistam e me digam, vocês que nunca tiveram qualquer contato com o autódromo daqui, se nossa pista é ou não é a melhor de todas.