Uma parte da minha história

DISCOSÃO PAULO – Sou avesso a baladas, música eletrônica e maioria das coisas que seduzem a molecada de hoje. Até porque deixei ser moleque há um bom tempo – considerando, claro, o mero critério etário. Mas sou bem afeito a, como dizem, uma boa botecada, uma boa música sertaneja, se possível ao vivo, cervejinha gelada e amigos com quem rir.

É uma história toda particular, essa minha com os botecos, que tem exatos vinte anos. Vinte anos, seis meses e 28 dias, para ser mais preciso. É fácil ter a data em mente, uma vez que fui apresentado à noite, em seu sentido mais arriscado, na noite em que completei 13 anos. Foi mera coincidência, a data.

À época, eu mantinha uma dupla musical com um colega do colégio, Reginaldo D’Agostini, hoje roqueiro. Cantávamos música sertaneja quando havia alguma atividade extra no colégio. Um dia vi no jornal um anúncio de que haveria um festival de música em um bar, Kantu’s Bar era o nome do lugar. Reginaldo e eu pedimos autorização a nossos pais para participarmos e lá fomos.

Era ambiente novo para nós dois, claro, o de uma casa noturna. E lá, no Kantu’s, havia uma dupla que fazia shows dançantes todas as noites, Valdir & Valdecir. Que, tempo depois, tornaram-se Valdi & Valdecy, capricho do produtor que assinou o primeiro dos três discos que gravaram. Discos, mesmo, vinilzão, conquista heroica para a época em se tratando de uma dupla que, embora boa, estava escondida no interior do Paraná.

Aquele festival de música reuniu muita gente boa. Cantamos “Pense em mim”, Reginaldo e eu, um sucesso na época. Não conseguimos vaga na final, mas fiz questão de voltar ao Kantu’s no dia – ou na noite – seguinte para acompanhar a etapa decisiva que deu o primeiro lugar a Osmar Júnior, um cidadão de Céu Azul que, parece-me, cantou “Os filhos do Brasil”.

Cativou-me aquele ambiente, tanto que convenci meu pai, já contei isso aqui em outra ocasião, a obter junto ao Juizado de Menores uma autorização especial para que eu, disfarçado sobre as pretensas intenções de seguir carreira como músico, pudesse frequentar as casas noturnas apesar da pouca idade. E vivia com aquele papel no bolso, e sempre ouvindo Valdi & Valdecy durante noites inteiras no Kantu’s Bar, sempre acompanhados pelo baterista Nelsinho e pelo baixista Justamar, que preferia ser chamado Jodimar.

Depois, nobres descobertas, a de que outras casas também tinham música ao vivo, como o Rancho Fundo, com a dupla residente Marcelo & Fofão, ou o Dom Giovanni, com Léo Júnior e os irmãos Toninho, João e Agenor, ou a Estalagem Choperia, do Serafim Barreiros, sempre com atrações diferentes – lugar onde eu invariavelmente arriscava umas palinhas –, ou o Mister Wells, com Hadir & Leony, ou o Espantalho Frango’s, que depois virou Mr. Lucky. Nenhum desses lugares existe mais, evidência clara de que, como disse há pouco, o tempo passou rápido demais para mim.

Sempre tive um olhar de fanático respeito pelo trabalho de Valdi & Valdecy, com quem o tempo se encarregou de dissipar contato. Tinha decoradas todas as músicas de seus discos, as do primeiro, de 1990, ainda estão todas na ponta da língua. Valdi, ou Valdir, veio cá para São Paulo trabalhar com algo relacionado a tecnologias de comunicação; Valdecy, reestabelecido como Valdecir, ficou em Cascavel e começou a investir dedicação e os recursos que tinha na carreira dos filhos, Everton e Alex, ainda bem novos. E quando os garotos começaram a tocar nas noites e dias foi que revi Valdecir, anos depois, sempre sujeito de bom papo, deixando transparecer nos olhos o sonho que aproximava-se da realidade a cada vez que seus meninos subiam ao palco. São muito bons, Everton & Alex, que mantiveram seus verdadeiros nomes para a marca da dupla, e já gravaram CDs (quatro, se não me engano), e hoje são amigos da gente.

É uma vida divertida, essa de quem lida com música. Como é meu caso, já que hoje, há algum tempo, também tenho minha dupla sertaneja, Luc & Juli, eu e minha esposa, e vez ou outra apresentamo-nos em festas, ou bares, ou casas de show, ou qualquer lugar onde nos chamam dispostos a ouvir nossos acordes. Mas é também uma vida que faz revezarem-se a diversão e a tristeza. Como a de hoje.

Cá em São Paulo, recebo uma mensagem de texto no celular. Morreu Valdecir Durante. Que há tempos vinha lidando com sérias complicações hepáticas, falou-me sobre isso na última vez que nos vimos – foi nos corredores da CATVE, quando Everton & Alex apresentaram-se no programa sobre esportes do Jorge Guirado, foi o dia da foto aí de cima. Tinha boas perspectivas de recuperação e bons contatos costurados para agilizar o complicado tratamento, que dependeria de procedimentos em Curitiba.

Um baque, a notícia de hoje. Morreu Valdecy, dono de uma primeira voz que ainda não vi igual – sempre disse isso, não é chavão pela triste ocasião. E com ele, de certo modo, vai-se uma parte da minha história.

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3 pensamentos sobre “Uma parte da minha história

  1. lindo depoimento externou toda a verdadeira paixao sua pela musica e pelos amigos que vc cultiva com tanto respeito e cumplicidade , belas palavras de merecida congratulaçao , eu tive um breve e profundo aprendizado com essa pessoa encantadora nosso amigo valdecy , que deixou um legado de sensibilidade musicalidade hombridade e carisma descança o mestre ficam os filhos e a familia maravilhosa , valeu amigo luciano , foi otimo compartilhar deste sentimento nobre seu de re conhecimento e forte amizade sou seu fã , amocionadamente do flavio de aquino .

  2. Tudo isto relatado é a mais pura verdade, a unica resalva é quanto ao saudoso Serafim Barreiros, ainda estou vivo e quando possível enganando as pessoas que acreditam que eu toco trumpete, as quintas feiras em Santos no porãozinho da vila do meu sobrinho Fernando

    • Rapaz do céu! A má notícia da gafe que cometi, por ter ouvido de alguém tempos antes a notícia falsa, contrasta com a boa notícia de que o amigo está bem e, o que é melhor, continua fazendo o que gosta. Grande abraço, Serafim.

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