Acho que já vi isso… Com a mesma qualidade!

De tempos para cá, virou moda falar em déjà vu. Um tiro psicológico que leva qualquer pessoa à impressão de já ter visto ou vivido, noutras ocasiões, determinada situação do presente. Elefantes, parece-me, convivem bastante com o tal déjà vu, que numa tradução livre do idioma francês significa “algo já visto”.

Foi exatamente essa a minha sensação semana passada, véspera de feriado, quando fui ao Square Bar acompanhar o show de lançamento do novo CD de sertanejo universitário da dupla Everton & Alex. Ótimos artistas, os dois são filhos de Valdecy Durante, que duas décadas atrás atacava como primeira voz da dupla Valdi & Valdecy.

Nem só o bom repertório e o excelente desempenho dos cantores me chamaram atenção. Juli não entendeu nada, já que não tem um currículo de botecos tão vasto quanto o meu. Eu via na atuação de Everton a reprodução do que fazia o velho Valdecy há quase 20 anos, no palco do Kantu’s Bar, ou no do projeto “Música no Calçadão” pelo qual a Secretaria de Cultura de Cascavel oferecia um show gratuito à população a todo domingo.

Além da semelhança física, embora Everton tenha cabelos – Valdecy, em 1991, já tinha a calvície destacada –, a voz é a mesma, o sotaque é o mesmo, os trejeitos são os mesmos, como também é exatamente igual ao do pai seu jeito de afastar a boca o microfone virando a cabeça para o lado direito.

Valdi & Valdecy foram, de certo modo, pioneiros da música sertaneja em Cascavel. Não foram os primeiros, embora, para seu tempo, tenham ido mais longe que qualquer outra dupla. Gravaram três discos, dois deles ainda em vinil e o último já em CD, uma baita novidade. Como bem define o cantor e compositor Flávio Aquino, da dupla com Gabriel, “era muito mais difícil gravar um disco na época deles do que agora, os caras foram heróis”.

Eu, do alto dos meus 13 anos de vivência, costumava bancar a reprovação do meu pai (saudades) e me enfurnar nos botecos ou no calçadão da Brasil para acompanhar de cabo a rabo as apresentações de Valdi & Valdecy.

No início, antes do disco, eles eram Valdir & Valdecir, mesmo.

Valdir era, ou ainda é – faz muitos anos que não o vejo –, um exímio guitarrista. Músico de primeira, como Alex, que durante seus shows toca um pouco de tudo e faz a diferença quando põe uma sanfona no colo. Valdecir, vejo-o a todo momento nos shows de seus rebentos, parou de cantar e concilia, valente, o gerenciamento da carreira de Everton & Alex com o combate aos problemas de saúde que o debilitaram bastante nos últimos meses. Vai vencê-los para saborear o sucesso de seus talentosos meninos.

Sucesso que é fruto de um trabalho que costumo acompanhar sempre, por aqui. Suas músicas estão tocando bastante nas principais rádios paranaenses. Hoje, não preciso mais convencer meu pai de que devo estar nos shows – o que, reconheço, é uma pena.

E a propósito de minha ida aos botecos que ofereciam música ao vivo na minha puberdade, tem uma historinha legal, também, envolvendo seu Neinha. Conto-a aqui em outra ocasião.

Prêmio Amop com velocidade. Será?

Luciano Barros, parceiro das antigas e assessor de imprensa da Amop, telefona gentilmente para convidar ao café-da-manhã desta sexta, na sede da entidade. A ocasião vai marcar o lançamento de alguns eventos anuais, dentre eles o Prêmio Amop de Jornalismo.

É a quinta edição da briga de foice entre escribas, radialistas e gente de TV pelos cheques que a entidade destina aos três primeiros colocados de cada categoria. A cada ano, as matérias publicadas ou veiculadas seguem um tema diferente. Participei duas vezes. Por algo perto de birra, sempre com conteúdos ligados ao automobilismo de competição.

Quando o tema foi “Bandeiras de desenvolvimento”, escrevi sobre as pistas de corrida aqui da região, as que existem, as que ainda não existem e as que deixaram de existir. Uma firulada sobre o impacto que essas praças têm sobre as economias e sobre as vidas das pessoas normais que as circundam. Noutra vez, com o tema “Turismo rural”, falei sobre as arrancadas de tratores, que nasceram aqui pertinho, na simpática cidade de Maripá.

Casualmente, vasculhando arquivos antigos no computador no começo da semana, encontrei a matéria dos tratores velozes. Que reproduzo logo abaixo, alertando para a falta de atualização de dados, principalmente os numéricos – tal qual lanço-o aqui, o texto foi publicado na edição de 12 de outubro de 2008 no jornal O Paraná. Feliz ou infeliz coincidência, foi um fato daquela data que determinou minha saída do jornal duas semanas depois.

Enfim, amanhã vou economizar os goles de leite com Toddy, pãezinhos e biscoitos Negresco que costumam compor meu desjejum aqui em casa e vou à Amop beliscar uns canapés. E, dependendo do tema que anunciarem, sair à caça de um link com o automobilismo para concorrer de novo.

Vai que dessa vez consigo vaga na final.

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Agricultores cultivam lazer e
festejam boa colheita de fãs


ARRANCADA DE TRATORES | Modalidade ganhou pista específica e projeta a cidade em todo o país

Luciano Monteiro

Maripá – Ao longo da última década, a agricultura foi bombardeada com uma sucessão de inovações tecnológicas. Sementes e grãos com conteúdo modificado à luz da genética, variedades de culturas tendo seus princípios submetidos à influência do conhecimento humano e soluções que defendem a fertilidade de solos mesmo sob um processo contínuo de plantio e colheita obrigaram o homem do campo a se despir da pecha de “colono” com a qual já era habituado para tornar-se, à custa de estudos específicos e constantes, um empresário do campo.

A inevitável adaptação da agricultura aos preceitos do século 21 não ficou restrita ao toldo biológico. As máquinas, a um ritmo ainda mais intenso, têm incorporado itens capazes de otimizar a produtividade e conferir a seus operadores níveis de praticidade e conforto imagináveis, pouco tempo atrás, apenas em automóveis luxuosos. Nessa safra de transformações tecnológicas marcantes, agricultores do Oeste do Paraná decidiram lançar mão de artifícios técnicos para fazer com que máquinas de uso estritamente agrícola cultivassem, também, seu próprio lazer.

Foi assim que nasceram as arrancadas de tratores em Maripá, distante 90 quilômetros de Cascavel e que ocupa o quinto lugar no ranking paranaense de qualidade de vida. As práticas são tradicionais na cidade desde o início da década de 90, época em que eram promovidas aleatoriamente na Avenida Farrapos, no centro da cidade. A profissionalização das disputas no cenário esportivo ocorreu há cinco anos. “Hoje, as arrancadas de tratores são um evento bastante sólido”, observa o agricultor Heinz Schreiber Júnior, 43 anos, organizador das provas.

A origem do esporte que chama atenção nos quatro cantos do Brasil e até fora dele – em setembro, os pilotos competiram na cidade paraguaia de Iruña – é identificada na história no ano de 1989. Um encontro informal de produtores emoldurou a iniciativa de promover uma disputa entre eles próprios, cada qual com o trator que empregava em suas lavouras. O desafio tomou a avenida e teve como reflexo imediato uma aglomeração bem maior do que se podia esperar. A pequena Maripá viveu, naquela tarde, uma movimentação sem precedentes.

A primeira iniciativa mostrou a todos os que a presenciaram que as arrancadas de tratores poderiam ganhar consistência. “Foi uma experiência que despertou muito a curiosidade dos maripaenses. Quem participou queria participar de novo, quem só assistiu não via a hora de poder ver aquilo de novo, os poucos que não tinham visto o que fizemos naquele dia nos perguntavam quando aconteceria mais um desafio daquele”, recorda Schreiber Júnior. “Nossa idéia inicial foi a de viabilizar algum lazer para os produtores, mas vimos que a coisa poderia ficar bem maior”.

O ambiente encontrado pelo grupo de pioneiros em arrancadas de tratores para fomentar a nova modalidade foi a Festa da Orquídea, evento que até os dias hoje figura com destaque no calendário de eventos de Maripá – a epífita é tida como símbolo da cidade. “Conseguimos reunir centenas de tratores para uma exposição e um desfile e selecionamos uns 15 para deles que fossem colocados nas provas de exibição”, lembra Schreiber. As competições passaram, então, a constar da programação da festa anual, sendo anunciadas entre as principais atrações.

Apesar de concorrido, o evento com tratores padecia da falta de infra-estrutura adequada. Os participantes tinham ciência de tal panorama. “Naquela época, era tudo muito artesanal. Os mais ousados modificavam o turbo, alteravam a bomba de combustível para aumentar a injeção de óleo diesel. Todos os tratores tinham o mesmo visual rústico que podíamos encontrar na lavoura em qualquer dia da semana”, lembra Schreiber Júnior. “Íamos para a pista no domingo e na segunda-feira começávamos a restabelecer as características originais dos tratores”, conta.

A solução para a falta de estrutura veio em 2002. Convencido pela tradição que as competições da modalidade já arrebatavam, o então prefeito Dorival Moreira autorizou e mandou executar a construção de uma pista de asfalto com extensão de 400 metros para acolher as provas. O nome “tratoródromo”, adotado em princípio a título de piada, foi patenteado. Em pouco tempo, incorporaram-se aos arredores da pista os pavilhões que compõem o Centro de Eventos. A obra teve custo aproximado de R$ 250 mil e alavancou as ações turísticas em Maripá.

O advento do tratoródromo veio acompanhado de uma notável evolução técnica dos tratores. “Já era outra realidade. As provas continuaram sendo disputadas por produtores rurais, mas os tratores passaram a ser destinados exclusivamente às arrancadas. Criamos um regulamento técnico próprio e as equipes investiram o que podiam para incrementar seus equipamentos”, ressalta Schreiber Júnior. “Os tratores que temos na pista hoje não apresentam não só inovações e desempenho, mas também um visual muito bonito e diversificado”, ele observa.

O desenvolvimento empreendido pelas equipes faz tratores que nasceram com capacidade para desenvolver 35 ou 40 quilômetros horários de velocidade final atingirem impressionantes 140 km/h nos 200 metros de cada arrancada. “As pessoas do campo têm representado maioria do público nos eventos. De uma forma ou de outra, o agricultor identifica um lado dele nas competições, isso é espontâneo, ele vê do que um trator é capaz. E as provas têm atraído pessoas de outros meios para motivos ligados à atividade rural, é como um intercâmbio”, ilustra.

As arrancadas de tratores consolidam como sucesso de público uma disputa que nasceu como opção de lazer para os produtores da pequena cidade, que tem hoje cerca de 5.700 habitantes. “Quando os tratores vão para a pista, reunimos mais de 10.000 pessoas”, contabiliza Schreiber. “É praticamente o dobro da população de Maripá. Recebemos gente de toda a região, de todas as faixas etárias. Sem querer, criamos um certo tipo de culto aos tratores”, orgulha-se. O tratoródromo voltará a receber as provas da modalidade nos dias 15 e 16 de novembro.

Os ões de um fim de semana

Passei o fim de semana em Curitiba, no trabalho de locução das corridas do GT Brasil e do campeonato de motovelocidade que acompanha o evento. Na minha agenda, trabalhar em Curitiba já é algo bem corriqueiro, há muitos eventos de automobilismo lá, em contraste com a realidade daqui, e minha mãe até já me disse que eu deveria ir morar em Curitiba. Acho que é uma mentirosa, minha mãe, já que no dia em que contei sobre meus planos de me mudar para lá de mala e cuia ela chorou.

De qualquer forma, os dois dias que passei fora de casa foram rentáveis no apontamento de observações, conclusões, constatações, decisões, impressões e outras categorias de ões que eu eventualmente não saiba definir. Ei-las, pois:

– Não são os meus CDs que não prestam. É o toca CD do meu carro que tem algum problema na leitura dos arquivos;

– Se um problema estiver perto de você e não for seu, não se meta. Nem mesmo se sua intenção for a melhor possível;

– Dirigir por seis horas sob chuva faz de qualquer cidadão um motorista melhor. A volta para casa foi, como diz o Galvão Bueno, um “teste pra cardíaco”. Média de 90,6 km/h foi eficiente, penso;

– O mundo, coitado, está repleto de gente insuportável. Culpa de todos nós, que distribuímos sorrisos amarelos às pessoas que não nos descem. Ser verdadeiro é façanha para poucos corajosos, que acarreta indisposições;

– Apesar do problema no sistema de som que a Renault põe em seus carros como item de linha, pude ver que o último CD de Flávio Aquino & Gabriel está muito bom. Não sei definir o que falta para esses caras estourarem nas paradas nacionais (ainda dizem “paradas”?);

– A indústria do ego é a mais rentável que existe. O mundo está mesmo a caminho do fim;

– São Pedro anda de mau humor, foi o que notei durante todo o fim de semana. Deve ser coisa da idade – vejo por mim, já que também estou ficando velho e rabugento;

– Todos os percalços da vida têm seu lado positivo. Eu, por exemplo, por conta de um problema inesperado, acabo de me igualar a um tricampeão mundial de Fórmula 1. Também é façanha para poucos, quero crer;

– A filosofia dos dias de hoje recomenda a mistura do iogurte Activia ao uísque Johnnie Walker. Dizem ser a maneira mais eficiente de seguirmos cagando e andando para o que rola por aí;

– É possível viver com apenas um copo médio de refrigerante por dia. Juli tem me cobrado que diminua o refrigerante e o cigarro. Ainda vou conseguir cortar os dois da rotina.

E tenho dito.

Ainda as credenciais de imprensa

Há dias devo aqui no BLuc um esclarecimento, tanto aos amigos que acompanharam o debate sobre o credenciamento de jornalistas e fotógrafos no automobilismo quanto, de modo especial, à colega Glauce Schutz, com quem já havia conversado na semana passada. Reencontrei-a no fim de semana em Curitiba, na etapa do GT Brasil.

É a agência de Glauce, a MS2 Comunicação, que assina a assessoria de imprensa do Campeonato Brasileiro de Endurance. Logo, coube a ela a missão do credenciamento na primeira etapa, que aconteceu na semana passada na pista de Tarumã. Naquele fim de semana eu atuava em Jacarepaguá no Porsche Cup e na Fórmula Truck e escrevi, por aqui, ter lido e ouvido relatos de que o acesso à credencial estava sendo dificultado como consequência dos novos sistemas que, há meses, a CBA trabalha para impor.

Glauce definiu o relato como infundado. Narrou que todas as credenciais de imprensa solicitadas para o evento em Viamão foram emitidas e explicou que, juntamente com a credencial, era fornecido ao solicitante um formulário sugerido pela assessoria de imprensa da CBA para que se comece a formar um cadastro de dados dos profissionais que atuam em cada evento. Tudo isso dentro do propósito do assunto tratado aqui na semana passada, e que recebeu atenção de vários colegas do meio. “Não houve nada além disso, talvez tenha havido uma interpretação equivocada”, supôs.

Glauce não escondeu ter ficado chateada com o que leu por aqui. “Buscamos atender todo mundo da melhor forma possível”, alegou. Justificativa quase desnecessária, já que conviver com ela esporadicamente no ambiente de corridas é o suficiente para ter certeza de que, sim, houve máxima solicitude.

Sempre tive bom relacionamento com Glauce e as pessoas que com ela trabalham, desde os tempos da velha Pick-up Racing. E confesso que não me ocorreu, na semana passada, que era atribuição dela o credenciamento no Brasileiro de Endurance. Seguramente ela teria prontificado qualquer informação a respeito.

Glauce não pediu ou exigiu explicações ao fato. Mas faço questão, ainda que com atraso, de esclarecer aos que acompanharam minhas considerações nos últimos dias que não houve, portanto, qualquer barreira no acesso ao credenciamento. Afinal, como diz um ex-professor meu de faculdade, é importante reconhecer e ouvir quem trabalha direitinho. Poucos fazem isso. Eu, semana passada, também não fiz.

Fala, CBA!

Recebo gentil e-mail do colega Wagner Gonzalez, jornalista que responde pela assessoria de imprensa da Confederação Brasileira e Automobilismo. Identificando no campo “assunto” de sua mensagem a referência ao texto publicado aqui no BLuc na segunda-feira, sobre as mudanças nos procedimentos de credenciamento de jornalistas para atuação nos eventos de automobilismo, imaginei que pudesse vir bomba.

Na verdade, não. Veio, sim, um posicionamento de Gonzalez sobre o que escrevi e sobre o que vários outros colegas jornalistas comentaram a respeito do assunto, que é de interesse de toda a classe.

Enfim, saúdo Gonzalez e agradeço seu contato. Abaixo, na íntegra e sem edições, o conteúdo de seu e-mail:

“Notei nos comentários informações equivocadas, boas idéias e um fato conclusivo: essa credencial é um documento bem-vindo.

Como informações equivocadas discordo que, como você escreveu, “uma foto pendurada na parede” seja jornalismo. Isso é publicidade. Refuto a afirmação que “a credencial da CBA nunca valeu nada”. Quando o mineiro Carlos de Lima Cavalcanti acreditou menores com menos de dez anos de idade a passear pelos boxes de Jacarepaguá com a credencial da CBA começamos a perder a seriedade que o documento trazia. Entre outras coisas ela dava acesso a todos os autódromos nacionais, inclusive durante o GP do Brasil de F1.

Cabe dizer que isso não é exclusividade nacional: quando fiz parte do Comitê de Imprensa da FIA, nos anos 1980/1990, me deparei com muitos pedidos vindos de indivíduos que adoravam ostentar essa credencial e que pareciam verdadeiros colunistas sociais: sabiam de todas as festas e bocas livres, mas não escreviam uma linha ou mandavam um boletim para onde quer que fosse. Exatamente por isso surgiram controles particulares que são exercidos com rigor proporcional à necessidade definida por cada promotor.

O debate gerado neste espaço é sadio, traz pontos que devemos considerar e que, bem digeridos e consumidos, serão úteis para resgatar muito mais que o documento que atesta a quem possa interessar que o portador é jornalista de boa fé. Quando iniciamos esse trabalho deixei claro ao presidente Cleyton Pinteiro que estávamos iniciando um trabalho difícil e não tão curto, porém absolutamente necessário. Aqueles que acreditam que podemos fazer algo de bom são bem-vindos a colaborar com críticas e sugestões. Aos que “sabem” que esta iniciativa não vai dar em nada lembro que poderiam aproveitar melhor seu tempo apresentando uma solução que eles mesmos acreditem.

Wagner Gonzalez
Assessor de Imprensa
Confederação Brasileira de Automobilismo”

De minha parte, caro Wagner, friso apenas não ter afirmado que a “foto pendurada na parede” é jornalismo – escrevi, sim, que ela gera retorno. E identifico em uma frase de sua declaração que penso resumir o espírito de seu contato: “Aqueles que acreditam que podemos fazer algo de bom são bem-vindos a colaborar com críticas e sugestões.”

Por conta própria

Impressiona, por vezes, a tranquilidade e a ponderação com que Neusa Félix lida com as questões inerentes à Fórmula Truck, categoria da qual é presidenta. No último domingo, mal haviam terminado os praxes da primeira corrida da categoria no Rio de Janeiro, e Neusa conversava calmamente nos boxes do autódromo de Jacarepaguá, como se a missão que acabava de concluir fosse da simplicidade do preparo de um almoço de domingo para ela e os filhos na residência em Santos.

Neusa talvez não tivesse noção, por volta das quatro da tarde do domingo, de quão grande é a façanha que acabava de consumar. Levar a consagrada categoria esportiva de caminhões ao único dos autódromos já inaugurados no Brasil onde jamais se havia visto aquele espetáculo. Passando, para isso, por cima de um sem-número de contratempos e fatores contrários. Dentre tantos outros mitos, um evento que serviu, conforme ela própria definiu, para tornar real um dos sonhos de Aurélio Félix.

A petição de miséria a que o autódromo foi relegado nos últimos anos emoldurou grande parte das dificuldades. E foram essas dificuldades que nortearam os cerca de 10 minutos de agradável conversa que tive com Neusa e o chefe de produção da categoria, Roberto Cirino. Em primeiro lugar, perguntei a ela se tinham algum fundamento os vários comentários que ouvi sobre aquela ter sido a primeira e última apresentação da Fórmula Truck na pista do Rio.

Neusa respirou. Não é bem assim, disse. Mas, para uma próxima edição, vamos precisar conversar, do jeito que foi agora não dá para ser de novo. Cabe colocar que a prefeitura do Rio, afinal de contas, em nada ajudou. Até instalação de água e energia elétrica correram por conta da Fórmula Truck para que os trabalhos de revitalização do autódromo pudessem ter início. Pareceu-me, diante do que acompanhei no fim de semana, que os engravatados cariocas não acreditaram no potencial daquele evento que nasceu vários anos atrás numa conversa entre caminhoneiros.

Foram 30 dias de trabalho ininterrupto para, como definiu Cirino, deixar o autódromo o mais próximo possível de ter a cara da Fórmula Truck. E ininterrupto, claro, é força de expressão, já que além das horas de sono diárias do batalhão de operários houve os atrasos por causa da chuva, de reserva do local para atividades específicas incompatíveis com corte de grama – e mato! -, pintura e tantas outras coisas que ali se fizeram. Cirino calculou que, com mais 15 dias de prazo, teria deixado o autódromo exatamente do jeito que imaginou.

Os engarrafamentos nas proximidades do autódromo foram inevitáveis, o fluxo extra que o evento proporcionou teve reflexos até na Linha Amarela, embora eu não tenha a noção exata de distância entre a tal Linha Amarela e o Autódromo Nelson Piquet.

Eduardo Homem de Mello, sujeito daqueles que sabem tudo e mais um pouquinho sobre automobilismo porque viveram o automobilismo por várias décadas, disse que não via tanta gente em Jacarepaguá desde o último GP de Fórmula 1, 21 anos atrás. Meu olhômetro apontou, no domingo, mais de 30 mil pessoas. A estimativa revelada no domingo pelo locutor Téo José, que se fiou em boas fontes, era de aproximadamente 50 mil.

Não sobreviveram dúvidas quanto ao interesse que as corridas ainda despertam no singular povo carioca, a despeito do que fizeram influentes infelizes como César Maia, Carlos Arthur Nuzman e Eduardo Paes em sua tentativa de sepultar o Rio e Janeiro para a história do automobilismo.

A Fórmula Truck, da mesma forma como testemunhei ou acompanhei em casos de vários eventos em outras praças, teve de caminhar pelas próprias pernas para levar a etapa no Rio a efeito. Tal qual nas outras situações, conseguiu com louvores. Sem apoio nem parceria da Prefeitura, muito menos da Federação do Rio de Janeiro. Ainda soou como desaforo, nos corredores da categoria, a constatação do presidente da Faerj, Djalma de Faria Neves, de que “poderia ser melhor”. Até entendo que pudesse, de fato, se o autódromo não estivesse tão abandonado.

Tomei de Neusa uma liberdade que ela não me deu e pedi-lhe que desse um número para eu ter noção de quanto a Truck teve de investir para deixar o autódromo na condição em que estava no fim de semana. Ela e Cirino trocaram um olhar reticente. Uns 250, disse. Um quarto de milhão de reais, convenhamos, é uma quantia considerável. Eu já me dava por satisfeito com a resposta, quando os dois puseram-se a analisar o número com o qual acabavam de concordar.

E a lista começou. Gastamos 40 mil nisso, pagamos 30 mil por aquilo, a mão-de-obra custa mais tantos mil por dia, e teve também aquilo outro em que foi mais aquele valor… Em poucos segundos, a conta passou com sobras dos 250 mil reais sugeridos em princípio pela empresária. Sugeri desviarmos a conversa para outros rumos antes que passassem de meio milhão. Neusa assentiu e alertou que já haviam passado.

A isso some-se toda a despesa com outros itens do evento, que a Fórmula Truck teria no Rio ou em qualquer outro canto do país. E considere-se, também, que o trabalho do batalhão comandado por Roberto Cirino ainda vai longe, até que se desmonte toda a estrutura empregada e a parafernália toda seja embarcada para Caruaru, a próxima estação do campeonato – que neste ano, esqueci de citar, passa a ser Sul-Americano.

Muita gente quer saber quanto a Fórmula Truck investiu na recuperação do autódromo para tornar seu evento possível. Por enquanto, pelo que percebi, Neusa Félix também quer.

Jornalistas, fotógrafos, corridas

Sábado, abordei aqui a questão do credenciamento de jornalistas para os eventos de automobilismo. Nem dou link, foi no texto logo aí abaixo. E, como prometido, sabatinei no domingo em Jacarepaguá o presidente da CBA, Cleyton Pinteiro, a esse respeito. Pinteiro, como já comentei, é sujeito bom de papo, tem boas tiradas, aplica frases de efeito pertinentes e não costuma fugir de um debate.

Manda a regra do bom jornalismo que entrevistas têm de ser gravadas. Não gravei porcaria nenhuma. Primeiro, porque o BLuc não é produto jornalístico. Segundo, porque conversa de homem pra homem é fiada no princípio básico de que ninguém compromete-se com o que não vá honrar, é o que se espera, principalmente de alguém que fala sabendo que terá suas considerações reproduzidas a outros. Terceiro, porque a conversa não foi uma porcaria.

Aos fatos. Pinteiro confirmou que a CBA trabalha para diminuir o número de jornalistas credenciados à cobertura dos eventos. Um trabalho, obviamente, confiado ao assessor de imprensa da entidade, no caso o jornalista Wagner Gonzalez. Concordou, o presidente, que o critério para a cessão do credenciamento não deve ser atrelado ao porte ou não de diploma universitário e definiu a postura como “de valorização”.

Pinteiro entende que a credencial de imprensa existe para profissionais que exercem atividade jornalística ou de divulgação terem reconhecimento. “Há muita gente que pede a credencial, pega, vem pro autódromo e fica andando de lá para cá, olhando os carros, tira uma fotinha com o celular. Só para colocar no Orkut, às vezes nem isso, e ele está com uma credencial de imprensa pendurada no pescoço. Aí, o jornalista de fato fica rebaixado ao mesmo nível de um curioso que está aqui dentro só porque gosta”, falou.

Foi quando ponderei que há casos de blogs ou mesmo de sites que são mantidos por puro diletantismo de seus mantenedores e que acabam proporcionando a seus públicos direcionados uma exposição em larga escala. O presidente concordou que essas pessoas têm de ser credenciadas para os eventos. “Sempre com critérios, e existe a condição para sabermos sempre quem é do ramo, quem dá essa exposição como contrapartida ao automobilismo”, condicionou.

Aí impus a questão mais delicada de que ouço falar – a de fotógrafos que atuam nas corridas credenciados como membros de imprensa, mas que não têm qualquer ligação com veículos de comunicação. São fotógrafos, e conheço vários deles, que vão a um autódromo ou kartódromo, produzem seu material e comercializam fotos e pôsteres aos pilotos, aos patrocinadores, a agências, a quem bem entenderem.

Expus a Pinteiro que uma imagem vendida pelo fotógrafo a alguém envolvido com o contexto fotografado também há de proporcionar retorno. Não na mídia quando compreendida a partir de um veículo de comunicação, mas em exposição que terá potencial para atrair ao automobilismo a atenção de um público que não consome, necessariamente, esses veículos.

Deu para entender o que eu quis dizer aqui? Parece linguagem acadêmica, credo. Tomem o exemplo do pôster de um carro ou kart na parede de um comércio qualquer. Da loja de tintas do pai de um piloto, por exemplo. Todo mundo que ali entrar para comprar uma lixa ou uma brocha vai, ainda que por instantes, ter um contato – por vezes inédito – com o kartismo.

Bem, a conversa com o Pinteiro não foi tão enrolada e nem tão chata, ele tinha mais o que fazer em Jacarepaguá e eu também. Resumo da ópera, o dirigente garantiu-me que há, também, espaço para estes profissionais. E opinou que são úteis para o automobilismo, talvez não com esses termos – como já disse, não gravei a entrevista. “Mas temos de elaborar um outro tipo de credenciamento, esse fotógrafo vai para o autódromo fazer seu trabalho, mas não com uma credencial de imprensa”, comprometeu-se.

Existe, explicou Cleyton Pinteiro, uma preocupação adicional com a segurança. “Principalmente nas provas de kart, o fotógrafo vai para o meio da pista, acaba dando um carteiraço no fiscal, no segurança, e fica tirando suas fotos em posição de risco”, ilustrou, citando o caso de um fotógrafo que acabou sendo atingido por um kart desgovernado enquanto trabalhava de um ponto onde não deveria estar e depois acionou as entidades esportivas.

“Nós não queremos impedir ninguém de trabalhar. Queremos, sim, dar condições melhores para quem vai trabalhar. Por isso estamos estudando e avaliando as mudanças que vamos fazer na regulamentação desse credenciamento”, concluiu. “É mais fácil, ou menos difícil, você administrar uma exceção do que combater uma regra”, ilustrou.

Tenho, quando converso com Pinteiro, a impressão de que evita comparações com a gestão de seu antecessor Paulo Scaglione. No caso do credenciamento de imprensa, foi explícito. “Nos anos anteriores, a CBA distribuiu um número excessivo de credenciais de imprensa, isso também acabou acostumando mal as pessoas”, observou.

Enfim, o compromisso que Cleyton Pinteiro assumiu – e disse que eu poderia escrever que ele assinaria embaixo – é que ninguém que de fato faça por merecer o credenciamento para atuação no automobilismo deixará de obter o acesso, e que só o que vai mudar são os critérios desse processo todo.

Quem disse que uma boa conversa não leva a soluções?