Mestre Armando

O Brasil deu adeus, hoje, a Armando Nogueira. Um mestre das letras.

Muito se escreveu hoje, muito se falou, muito se lamentou sobre o fim da vida do jornalista voador. Muitas vezes li e ouvi sobre “a perda de Armando”. Perda? Perda, nada. Foi ganho dos maiores, para o Brasil e para o bom jornalismo, terem convivido com Armando por 83 anos. Seu ciclo chegou ao fim, como os nossos chegarão, o seu e o meu, e não será cedo ou tarde, será no momento reservado.

Registros e literaturas não faltam sobre Armando Nogueira. Falei uma vez com ele, por acaso. Liguei numa sexta à tarde para a Xapuri Comunicação para cobrar a coluna dele, sempre um primor de coluna, que estava atrasada para a edição de domingo, ele próprio atendeu. Com presteza que me surpreendeu. Não imaginava, na minha inocência de então, que alguém do quilate de Armando Nogueira atendesse telefones.

Minha convivência prática com seu trabalho foi essa, diagramar – ou copidescar, na época em que vinha por fax – a coluna dele que meu ex-jornal publicava às quartas e aos domingos. “Na grande área”, era o nome. Lia todas com a admiração exigida pela poesia profética, ou pela profecia poética, que emanava das entrelinhas daquelas crônicas.

Afora a competência que o tornou ícone do jornalismo brasileiro, Armando Nogueira era, sim, um poeta do jornalismo. Aqui, por exemplo, cito um entre zilhões de exemplos de seus deliciosos textos.

Os mais novos que eu não ficaram tristes hoje. Não conheceram Armando Nogueira, nem por nome. As faculdades de jornalismo sequer falam de Armando Nogueira. Da academia dos dias de hoje, não vai emergir nenhum novo Armando Nogueira.

Tudo isso é uma grande pena.

O resultado da Stock Car

A internet está uma confusão danada no que diz respeito ao resultado da corrida de agora há pouco da Stock Car, em Interlagos.

Para facilitar – ou dificultar, de acordo com o caso -, ponho o resultado extra-oficial que a nova cronometragem da categoria exibia ao final das 27 voltas

Claro que pode haver mudanças decorrentes de eventuais punições a esse ou a aquele piloto.

Stock Car – primeira etapa, 27 voltas
1º) Max Wilson (SP/Eurofarma RC Competições), 48min01s347
2º) Átila Abreu (SP/AMG Motorsport), a 7s101
3º) Flávio “Nonô” Figueiredo (SP/Cosan Mobil Super Racing), a 12s414
4º) Daniel Serra (SP/A. Mattheis-Red Bull Racing), a 26s789
5º) Lico Kaesemodel (PR/RCM Motorsport), a 30s246
6º) Rodrigo Sperafico (PR/RC3-Bassani), a 34s985
7º) Felipe Maluhy (SP/Officer Pro GP), a 39s225
8º) Júlio Campos (PR/JF Racing), a 40s368
9º) Alceu Feldmann (PR/RCM Motorsport), a 41s779
10º) Gustavo Sondermann (SP/AMG Motorsport), a 45s686
11º) Antonio Pizzonia (AM/Hot Car Competições), a 51s302
12º) Thiago Marques (PR/Mico’s Racing), a 52s908
13º) Diego Nunes (SP/RC3-Bassani), a 53s522
14º) Pedro Gomes (SP/Vogel Motorsport), a 55s805
15º) Cacá Bueno (RJ/A. Mattheis-Red Bull Racing), a 1min01s712
16º) Xandinho Negrão (SP/A. Mattheis Motorsport), a 1min03s379
17º) Norberto Gresse (SP/Hot Car Competições), a 1min14s498
18º) Thiago Camilo (SP/Vogel Motorsport), a 1 volta
19º) Christian Fittipaldi (SP/Gramacho Costa Competições), a 1 volta
20º) Ricardo Maurício (SP/Eurofarma RC Competições), a 1 volta
21º) Constantino Júnior (DF/Crystal Racing Team), a 1 volta
22º) Cláudio Ricci (RS/Crystal Racing Team), a 1 volta
23º) Allam Khodair (SP/Blau-Full Time), a 2 voltas
NÃO COMPLETARAM
Ricardo Zonta (PR/RZ Corinthians Motorsport), a 14 voltas
Valdeno Brito (PB/Cosan Mobil Super Racing), a 15 voltas
David Muffato (PR/Itaipava Racing Team), a 17 voltas
Alan Hellmeister (SP/JF Racing), a 20 voltas
Luciano Burti (SP/Itaipava Racing Team), a 20 voltas
William Starostik (SP/Gramacho Costa Competições), a 23 voltas
Antonio Jorge Neto (SP/RZ Corinthians Motorsport), a 24 voltas
Giuliano Losacco (SP/Mico’s Racing), a 24 voltas
Popó Bueno (RJ/A. Mattheis Motorsport), a 26 voltas
Duda Pamplona (RJ/Officer Pro GP), a 26 voltas
Marcos Gomes (SP/Blau-Full Time), a 26 voltas
Melhor volta: C. Bueno, 1min39s122, média de 156,498 km/h

O ladrão beijou o asfalto

Não vi nada a respeito nos jornais daqui, o que dá margem a um exagero aqui ou ali, embora os jornais sempre exageram para cá ou para lá, também. Mas a história assim me foi contada ontem por um sujeito a quem dei carona. Por pura frescura, não cabe identificá-lo.

O fato pitoresco é de segunda-feira, meio da tarde, no Alto Alegre, um bairro aqui de Cascavel. Fosse numa cidade grande, eu identificaria como da Zona Oeste, o que não faria a menor diferença. O sujeito em questão voltava para casa numa bicicleta por uma via preferencial, no caso a Rua Cuiabá. Em determinado cruzamento, um acidente, ou incidente, com um motociclista afoito que ensaiou avançar a preferencial. Toque leve, roda dianteira com roda dianteira. O rapaz da moto foi para o chão. O da bicicleta conseguiu firmar um pé no asfalto, não caiu.

Até aí, um incidente normal, desses que acontecem a todo momento à custa dos abusos do trânsito. Mas mal haviam passaram cinco segundos, segundo a narração do meu ilustre caroneiro, para soar a sirene de uma viatura policial que por ali estacionava. E o motoqueiro, que se preparava para levantar do asfalto, foi, digamos, gentilmente convidado por um dos policiais militares a permanecer deitado. Com direito a arma apontada, coisa de cinema brasileiro.

Fato é que ele havia roubado a motocicleta instantes antes, num local a oito quadras de onde caiu. A vítima acionou o telefone de emergência e a dupla de policiais, que estava por perto quando a ocorrência foi comunicada via rádio, rapidamente encontrou o ladrão pelo bairro. Algumas sequências de conversões pelas esquinas do Alto Alegre foram suficientes para o infeliz despistar os PMs. Que estavam à procura de seu rastro quando passaram pelo local do incidente. No momento em que o motoqueiro-ladrão beijou o asfalto, o carro da polícia estava a 60 metros dali.

Ri quando ouvi o relato. Há gente mais azarada que eu. Quisera todos os bandidos fossem azarados assim. Só os bandidos pobres o são.

Sim, nós temos autódromo. Temos?

Autódromo de Cascavel lotado em evento da F-Truck: imagem do passado

Devo ter um carimbo moral na testa que indica “o cara do autódromo”.

Quando viajo para trabalhar com locução ou prestar serviços jornalísticos nas corridas em outros lugares, sempre há uma penca de colegas e até de desconhecidos que perguntam sobre o autódromo de Cascavel. Aqui na cidade não é muito diferente. No boteco da Iraci, no estacionamento, no aviário do Mirto ou no quiosque de espetinhos do posto, sempre alguém recorre a mim para saber qual será o destino da nossa pista de corridas. O pronome “nossa”, neste caso, revela apenas uma conotação geográfica, a pista não é de ninguém que não seus donos.

Lá fora, é compreensível o interesse de entendidos em automobilismo no futuro – negro, diga-se – da nossa praça. A infraestrutura do autódromo de Cascavel é sofrível, rivaliza com os de Fortaleza e Caruaru a condição de pior. A pista, propriamente dita, é a melhor das 14, qualquer um que já pisou por aqui, ou que já acelerou, pode atestar.

Principalmente pelas bandas de cá, são latentes as críticas ao prefeito, a qualquer um que seja prefeito em qualquer época, pela falta de investimento no autódromo. O automobilismo movimenta a economia, gera retorno, aquele papo de sempre. Ah, e mais importante de tudo, Cascavel tem tradição. Por que o prefeito não investe?, perguntam, como que tentando fazerem crer que os cofres públicos estão jorrando dinheiro para algo que vai atender, mais indireta do que diretamente, uma parcela pequena da população.

Em primeiro lugar, o autódromo é propriedade particular, não cabe ao Município investir nada ali. Indo além, dinheiro público para aplicação no esporte tem de ser canalizado a competições de base, formação de atletas, até recreação. Prefeitura nenhuma tem de patrocinar nada, já acho fora de propósito – e me criticam por isso – bancar parte dos times da cidade em competições de rendimento. Aplaudo quando constato iniciativas concretas que oportunizam a prática esportiva à molecada dos bairros, isso sim é papel de um governo eleito.

Ainda que não se assuma, a área de quase 40 alqueires onde está instalado o autódromo, cuja maior parte é protegida pelas leis de preservação ambiental, é motivo de uma especulação imobiliária intensa. A ideia que encontra um pai a cada esquina é a de se dividir a faixa frontal da área, localizada em área industrial e marginando a principal rodovia da região, em coisa de 18 ou 20 terrenos, com frente de 50 metros e fundo de 60 ou 70. Uma solução que contempla a preservação de duas vias de acesso ao autódromo.

Cada terreno desse, juram os ditos entendidos, valeria meio milhão de reais. O suficiente para um faturamento aproximado de R$ 10 milhões, bem mais que o dobro – mais que o triplo, talvez – da quantia pela qual os donos do autódromo, que não escondem a mágoa por não lucrarem nada com a propriedade, topariam vendê-lo a qualquer mortal que apresentasse o dinheiro em assembleia.

É aí que reside o xis da questão. Os donos do autódromo não ganham nada com sua posse. E nem vão ganhar. Autódromo, para dar dinheiro, tem de funcionar. Para funcionar, tem de oferecer o que é necessário à realização de bons eventos, que trazem gente de todos os cantos à cidade, que lotam hoteis, que geram movimento nos postos de combustíveis, nos restaurantes, nos bares e, lógico, nas casas noturnas de entretenimento masculino.

Algum dos dezenas de donos do autódromo de Cascavel – ninguém sabe precisar quantos são – vai investir sob essa linha de raciocínio? Sem chance. E a prefeitura? Menos ainda, mesmo que se retomem os esforços para que todas as cotas sejam doadas ao Município.

Fosse eu um sujeito de visão e de boa conta bancária, compraria o autódromo, promoveria todos os estudos de viabilidade necessários, investiria nas reformas necessárias e faria com que o local me devolvesse os caraminguás investidos. Não tenho dinheiro, muito menos visão empresarial para uma empreitada tão ousada.

É fácil entender o que alego. Há exemplos concretos, inclusive. O autódromo de Curitiba, até 1994, era ainda pior que o de Cascavel. Ficou fechado por um ano e meio, foi completamente remodelado pelo consórcio que o arrendou e, em que pesem os antigos quiproquós trabalhistas que podem pô-lo em leilão, disputa com o de Interlagos a condição de melhor do Brasil.

Concordo que Cascavel mereça mais, mas realidade só há uma. Gostaria de ver por aqui um autódromo com estrutura condizente com os padrões atuais do automobilismo que vejo praticamente todos os fins de semana em alguma pista de corridas do Brasil. Sei que há gente de CEP bem distante que considera, ainda que timidamente, a formulação de uma proposta para compra do local. Em termos práticos, é a única chance do autódromo ressuscitar e suplantar o pensamento provinciano que reina por aqui.

Quanto à tradição cascavelense no automobilismo, para que seja reconhecida em níveis viáveis, que se produza um bom livro a respeito. Eu compro um exemplar, se vier autografado.

Prova da Divisão 4 em Cascavel, ainda nos anos 70: na infraestrutura do autódromo, pouca coisa mudou de lá para cá

Luc Bin Laden

Acabo de viver meus minutos de suposto terrorista.

Na esteira do raio-X do aeroporto de Guarulhos, além da mochila contendo o laptop e o ovo de Páscoa com que Pedro Rodrigo e Natália presentearam o Luc Júnior, carrego o recipiente plástico com os mesmos itens de sempre – carteira, aparelho celular, maço de cigarros, isqueiro e as moedas que sempre acabam ficando no bolso.

No momento quase protocolar de reaver os pertences, cumprido o extenuante trecho de dois metros da esteira, o fiscal, ou agente, ou sei lá como se denomina a função dessa gente, intercepta meu isqueiro Bic. Em primeiro momento, porque estou embarcando com dois isqueiros, um deles acabei de encontrar lá fora, onde fui fumar antes do embarque, depois de fazer o moroso check-in da Trip. É a única companhia que opera por aqui e pousa suas aeronaves em Cascavel.

Estranhei a barrada no baile que meu Bic levou do fiscal-agente Marcos. Oras, sempre apresento meu isqueiro à esteira, ou quase sempre, por vezes ele fica no bolso e o detector de metais nada acusa quando o transponho. “O senhor está embarcando com dois isqueiros, senhor”, justifica Marcos.

Proponho que devolva meu Bic preto de estimação e fique com o outro menorzinho, o que acabo de encontrar lá fora. “Não, senhor, o senhor não pode embarcar com este isqueiro porque ele mede mais de seis centímetros”.

Caceta, Marcos deve ser um burro de marca maior. É só considerar que o Bic branco pequeno que acaba de ganhar espaço no meu bolso, o que estava à espera de adoção na calçada lá de fora, também mede mais de seis centímetros. Talvez tenha cabulado as aulas de matemática para, em seu tempo, treinar a pose de marrento que tenta impor.

E o sujeito que criou a tal lei do isqueiro de seis centímetros é, seguramente, mais burro que Marcos. Se eu resolver botar fogo no avião, consigo fazê-lo tanto com o Bic pequeno quanto com a caixinha de fósforos que trouxe do hotel, sempre trago essas caixinhas de fósforo, elas sempre têm utilidade.

Abusado que penso ser, concordei, desde que ele me ressarcisse os dois reais e cinquenta centavos que paguei no isqueiro. Senão, impus, nada feito. “O senhor pode voltar ao balcão da companhia e despachar seu isqueiro, senhor. Aqui, nós interceptamos e ele não passa”. Estranho, já submeti meus isqueiros aos raios-X dos aeroportos de Congonhas, Curitiba, Brasília, Foz do Iguaçu, Cascavel, Recife, Campo Grande, nunca me causaram problemas. Talvez por não haver uma besta quadrada como Marcos nas esteiras. Desisti, a fila está longa pacas.

Meu voo, o 5641 da Trip, deveria decolar às 19h10. A moça do sistema de som, a mesma que recomenda a apresentação de documentos de “indentificação” no ato do embarque, acaba de informar que o pouso da aeronave aqui em Guarulhos está previsto só para as 19h30. Vai atrasar uma hora, essa porcaria.

Vou lá fora fumar de novo. Talvez encontre mais um isqueiro esquecido por algum desavisado. Vou aproveitar e tomar uma cervejinha, também, agora há tempo para isso. Na volta, claro, vou escolher o equipamento de raio-X monitorado por Marcos. Sujeito de extrema competência, um orgulho para o país, merece meu prestígio.

Ayrton


Quando se é moleque, a visão do mundo é diferente. Difícil um moleque qualquer não ter as paredes do quarto ou as laterais do guarda-roupas abarrotada de pôsteres dos músicos, dos esportistas ou dos personagens preferidos. Fui um moleque normal, tendo isso em vista.

Comecei a ter olhos para o automobilismo com 11 anos, foi uma coincidência que já comentei aqui. O galo de briga da época, pelo talento e pela relativa supremacia, era um brasileiro. Ayrton. De quem minha única referência mais próxima, até então, era um calendário com a foto da Lotus da John Player Special, meu pai o havia ganhado de alguém que fornecia cigarros à mercearia da família. Nem sabia o motivo de ter guardado aquilo.

As três primeiras corridas de Fórmula 1 a que assisti foram vencidas por Ayrton. Imola, Monte Carlo, Cidade do México. Na quarta, ele liderava com um pé nas costas quando o motor do carro abriu o bico numa avenida qualquer do Arizona. Na quinta, liderou debaixo de um toró dos diabos até faltarem três voltas para o fim em Montreal. O motor deixou-o a pé de novo. Na seguinte, tomou a liderança de Prost na largada, o capote do Gugelmin suspendeu a corrida, na nova largada seu câmbio quebrou.

Não, aquele sujeito a quem tratavam como campeão do mundo não podia ser um atleta normal. Era um fenômeno, intuí. Passei a admirá-lo de modo até irritante. Os pôsteres do carro vermelho e branco, claro, começaram a aparecer na parede do quarto, e quando ganhei de presente uma moldura com vidro para fazer um quadro de um deles passei a viver um dilema tremendo, até porque maioria dos pôsteres eram impressos em frente e verso, e eu gastava um tempo danado, a cada três ou quatro dias, tirando grampo por grampo da moldura para nela pôr uma foto diferente.

O tempo passou, Ayrton já não vencia com tanta frequência quanto naquele distante contato inicial que tínhamos, ele sem nem imaginar a minha desprezível existência, passei a compreender que o lado positivo daquele esporte que eu admirava mais a cada dia – em grande parte por causa dele – não dependia de um compatriota ser o destaque principal, mas de haver grandes atuações. Ele sabia empreender grandes atuações.

O fim da trajetória de Ayrton coincidiu com o início de uma malograda carreira nas pistas, a minha. Estrearia no kart um mês e meio depois – participei de cinco ou seis corridas que eram bancadas com as economias do meu salário, não tinha o mínimo talento para a coisa, parei. Todos lembram o que faziam ou onde estavam no exato momento em que seu carro explodiu na Tamburello. Eu estava dentro de um carro de corridas. Era abertura do Paranaense de Automobilismo, vi a largada da F-1 pela tevê e fui encarar meu turno na vigia do Fórmula A de um amigo, no parque fechado do autódromo de Curitiba. A festa do sábado tinha me sugado energias e aproveitei para tirar um cochilo naquele cockpit apertado. Ali eu dormia, enquanto Ayrton se despedia.

Ayrton transparecia uma imagem profética. Parecia saber o que lhe reservava o destino com que seu ofício o acolheu. Aquelas imagens dos momentos que antecederam sua última largada falam por si, como o semblante em inúmeras de suas entrevistas. Tinha dele a impressão de um sujeito extremamente introspectivo, que não fazia questão de vender uma imagem alegre. Talvez não fosse um sujeito alegre. Talvez, mais um pobre menino rico. Em posses, em talento, em determinação, em carisma.

Quando Ayrton morreu, eu era jornalista por prática, termo de corredor de faculdade, havia coisa de dois anos, lidava com automobilismo há menos um e meio. Jamais escrevi ou falei, profissionalmente, sobre qualquer vitória sua. Lembro dos cumprimentos que recebi na época pela página especial que escrevi na edição de 3 de maio do jornal para o qual trabalhava. Usei recursos muito simples, mas diferentes para os padrões da casa.

Naquela mesma edição, o colega Miguel Portela, à época editor do noticiário regional – jornal de cidade pequena tem disso –, escreveu e publicou em sua página, como homenagem particular, um artigo intitulado “Senna, Senna, Senna…”. Ilustrou-o com uma caricatura de Senna que eu havia feito tempos antes, a grafite. Foi fotografada em autotraço e, publicada, ficou horrível. Sou metido a caricaturista, também. O original daquela caricatura, em sulfite A4, foi trazido a São Paulo por uma prima minha, Luciana, numa viagem que fez a Cascavel há anos-luz, ela prometeu reproduzir e me devolver. Nunca mais vi, nem a caricatura, nem a Lu.

Da corrida em que despediu-se até a disputa seguinte, em Mônaco, passaram-se duas semanas. Intervalo que, descobri tempos depois, Ayrton aproveitaria para uma viagem a Cascavel, minha cidade. Negociaria lá, com um político e empresário que morreu uns dois anos atrás, a compra de uma propriedade que não sei onde fica, foi isso que alguém me contou, hoje não faço a mínima ideia de quem tenha sido. Não posso me fiar na veracidade dessa suposta tratativa.

Não tive a oportunidade de conhecer Ayrton. Pena. Foi por torcer por vitórias dele nos GPs de Fórmula 1, mais por ser ele um atleta competente do que por ser brasileiro, que acabei me envolvendo com o automobilismo, meio do qual vivo e que ainda consigo admirar. Hoje, se vivo, Ayrton poderia estar no grid da categoria que movimenta Interlagos. Estou em São Paulo para narrar a corrida, e naquele palco que já foi de Ayrton seguramente muitos clichês serão lançados por mim e por todos, motivados claramente pela data que lhe é, na ocasião de agora, de certa forma devotada.

Nunca vi Ayrton, não sei de onde tiro uma pretensa intimidade para tratá-lo pelo prenome. Algo me deixa plenamente à vontade para isso.

É, Ayrton, são poucos os que chegam aos cinquenta com tanto prestígio.

Uma quase ressurreição

Não é segredo para ninguém que Ayrton Senna, se vivo, faria 50 anos amanhã. Aliás, não acho errado dizer que chega aos 50 mesmo sem estar neste plano.

Não vejo o aniversário de uma pessoa como notícia, mas a mídia, e isso não é costume só de brasileiro, dá especial importância à data quando envolvem personalidades. Ayrton Senna foi e é, sem dúvida, uma grande personalidade. E, em meio ao vastíssimo destaque dado nos últimos dias sobre o 21 de março de 2010, vários amigos meus escreveram, descreveram, narraram e garimparam muita coisa legal sobre o piloto. Faço questão de reunir algumas aqui.

Flavio Gomes, que sempre explicitou sua posição contrária a manifestações patrióticas, sobretudo na cobertura jornalística, dedicou bom espaço em seu blog, nas últimas semanas, à série “Senna, 50”. Há muita coisa interessante, que merece a reserva de tempo para exame.

Rodrigo Mattar, colega de locução que integra a equipe do SporTV, também aderiu a uma série de posts. Batizada como “Recordando Ayrton”, está em seu blog, o A Mil Por Hora.

Craque em algo que vou definir como jornalismo poético, Américo Teixeira Júnior, em seu Diário Motorsport, conta uma passagem de sua carreira marcada por um gesto de Ayrton.

Téo José, em seu blog no UOL, registra suas impressões de forma simples e direta.

Não escrevi nada sobre Ayrton Senna, minha minúscula homenagem a ele resumiu-se a uma fotinha no meu perfil do Twitter, o @lucmonteiro.

Não tenho o que escrever. Mas vou escrever algo.